MÃES QUE NÃO SÃO MÃES?

          

Quando um homem comete um crime de homicídio ou um assassinato, e sendo até esse contra a sua própria família, toda nossa indignação e aversão a ele não se compara com a nossa reação de pesar e comoção dirigida às vítimas. Sabemos que o número de mortes cometido por homens é maior que o de mulheres, por isso à simples pergunta quem matou, nos vem sempre acompanhada de uma imagem masculina, não está na nossa cabeça de maneira automática realizar que foi uma mulher a autora do crime. Além dos presídios, os documentários, filmes e livros policiais também nos mostram a elevada presença masculina como perpetradores sozinhos ou em gangues. É um fato que homens matam mais, e por quê deveras o fazem é o mesmo que perguntar por que mulheres têm menos incidências criminais, e isto tem que ver com fatores tanto biológicos como sociais: homens estão mais expostos a situações de risco; o aumento do hormônio testosterona nos rapazes pode influir nas suas ações e os distintos papéis sociais dos dois, se levarmos em conta a predominância do machismo e do patriarcado que relegou as mulheres a seres passivos e obedientes demonstram que homens costumam resolver seus conflitos exteriorizando-os e até incluíndo outras pessoas neles. Já mulheres aprenderam a interiorizá-los, a serem mais meditativas e a solucioná-los sozinhas. É conhecido que mulheres podem ser capazes de acabar ou separar brigas de machos, se estes, então cegos de ira, não as golpearem primeiro – o que é raro.

Por outro lado mulheres agressoras e como fazedoras de delitos e de crimes contra a vida de outros, nos deixam pensar nisso como exceções. Casos de mulheres assassinas em série são raríssimos, pois geralmente quando elas matam é dentro do seu espaço domiciliar, não escondem o crime e deixam-se capturar facilmente pela polícia. E se uma mulher mata o marido ou companheiro, até aí podemos compreender seu drama se nos vem de pronto pensarmos na legítima defesa, ou para livrar-se ela e os filhos de abusos físicos e psíquicos dele, ou como vingança por infidelidade, ou por ter sido aproveitada e explorada sua confiança nele. Mas se ela mata um ser nascido dela, nossa reação é bem diferente: primeiro é um choque, ficamos sem fala, e sem que percamos o interesse pelo caso, o horror se propaga, sentimos ódio, ficamos indignados, queremos justiça, e tudo isso dirigido a ela, só a ela que rompeu o tabu sagrado de ser mãe.

Em setembro de 2020 na Alemanha, uma mãe de família matou cinco de seus seis filhos, um por um numa banheira, e depois de mandar o mais velho de oito anos à avó, jogou-se contra um trem numa estação de Dusseldorfia, na Vestefália, tendo sobrevivido a muito custo. Se ela foi capaz disso, posso imaginar sua depressão, o tamanho e a força de suas imagens conduzindo-a a tal ato. Ela não foi a primeira, e como ela todas têm uma história possivelmente marcada na infância ou adolescência com maus-tratos e abusos sexuais. No seu caso foi por um conhecido de seus avós quando tinha 12 anos; aos 15 anos engravidou pela primeira vez, e da relação com o pai só restou a criança. Com 19 anos ela é mãe pela segunda vez sem que daí o pai cuidasse do filho, ficando a jovem mãe solteira e sozinha com os dois filhos. Depois essa mãe se casa com um ex-soldado e com ele tem mais quatro filhos. Numa reportagem de revista vejo uma foto dos noivos, ela à maneira clássica vestida de branco com um buquê de flores brancas e fitas, ele de terno escuro. Os dois filhos dela também vestidos adequados para a ocasião. Atrás deles uma limusine branca a condizer – talvez como símbolo do desejo dela de ter um esposo, uma família e que a partir dali tudo vai dar certo. Mas o casamento também não durou; eles viviam num apartamento de quatro cômodos; o marido ficou desempregado e muitas vezes a deixava sozinha, sobrecarregada com os filhos e a casa, até que ele saiu de casa de vez. Um mês antes do trágico ocorrido, ele tinha postado no facebook uma foto com a sua nova companheira, uma vizinha do bloco residencial. Esse sentimento de abandono a acompanhou sempre – também a fez recusar ajuda do Estado – foi ele, acho, o propulsor de sua trágica decisão mais tarde, fazendo-me lembrar da Medéia de Eurípedes – dramaturgo grego do século V a.C. – que também cometeu um infanticídio por sentir-se traída e abandonada pelo homem que amava e pai de seus filhos.

Bom que casos como esse são raros, e mães separadas de seus parceiros e responsáveis pela custódia e sobrevivência dos filhos não terminam sempre em fatalidade. Contudo os motivos geradores de tragédias familiares, estão na base, prestes a desencadearem desgraças irreparáveis, requerendo atenção e interesse nossos. Uma moradora de um dos blocos de apartamentos perto da mãe falou com tristeza de suas próprias omissões, da sua falta de interesse em furar o gelo e aproximar-se dessa mãe sozinha com seis filhos. Esta seria a nossa participação, pelo menos em compreender sua história em vez de só referir-se a ela como uma pessoa estranha, e julgá-la moralmente.

Cada vez que nos detemos só no crime fica de fora o debate das causas e o avanço de medidas sociais efetivas em situações emergenciais. A pergunta é sempre a mesma: no lugar de pôr a culpa nessas coitadas – pois esta já está prevista no código penal – por que não buscar os quadros sociais e psíquicos exatamente geradores de estados nefastos? Em que condições alarmantes se encontram mães com risco de cometerem delitos graves? Criminalistas alemães já reconhecem algo como uma estrutura capaz de dar oportunidade a um ato de delito, ou seja, quando alguém está muitíssimo metido em uma situação negativa, como uma sobrecarga afetiva e material, e esta ainda relacionada com frustrações e sentimentos de anulação, é muito provável que apareçam daí atos de agressão. A coisa é delimitar esses espaços onde esses possíveis determinantes estão contidos. Uma grande tarefa, um trabalho difícil e pormenorizado, dependente não só do Estado, mas também de nossa responsabilidade social. Garantia absoluta não existe, só avanços em favor de uma solidariedade e justiça sociais.

Voltando à mãe mencionada, ela está por ora vivendo um processo que vai durar onze dias até seu julgamento final. Até agora ela tem negado sua participação no crime de seus filhos, alegando que um homem usando máscara entrou no seu apartamento e matou suas crianças. Uma construção psíquica para se defender da imensa dor, e fugir da realidade, acho.

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