RESPEITO AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER E AVISO A HOMENS QUE AINDA TÊM MUITO QUE APRENDER

   

Vivemos mesmo num tempo de revelações vazadas pelos meios digitais, incluindo aí as tão poderosas redes sociais. No Brasil um desses grandes vazamentos, a Vaza Jato – em 2019 publicado pelo site Intercept Brasil, mas procedente do hacker Walter Delgatti – foi o de mostrar conchavos ilícitos perpetrados pelo ex-juiz Sérgio Moro com seus promotores no seio da operação Lava Jato que culminou na prisão – também ilícita – do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De lá para cá não se salva um ano sem que algo escandaloso não venha à tona de parte de pessoas renomadas, seja um influenciador, um empresário ou um político, nos deixando pasmados e indignados pela falsidade e descaramento dessas pessoas e suas tentativas de saírem impunes, mesmo estando claro o conteúdo das revelações. É o que sucede agora com um deputado estadual de São Paulo que por conta de sua própria burrada falou coisas de teor sexista para um grupo de amigos numa de suas redes sociais e foi vazado sem dó.

Pois é, o tal deputado, o Sr. Arthur Moledo Val, também é um influenciador com um canal no youtube chamado ironicamente de „Mamãe, Falei“. Ele também é um dos líderes do MBL-Movimento Brasil Livre, uma força de direita reacionária, que ajudou a Jair Bolsonaro eleger-se presidente do país, e onde um de seus dirigentes, o deputado federal Kim Kataguiri, até já defendeu publicamente o nazismo. Estes e supostos processos na justiça são alguns dados pertinentes de seu currículo incluindo ainda sua pretensiosa candidatura a governador do Estado de São Paulo, mas que por conta das repercussões negativas de sua última fala vazada, ele a retirou pelo bem moral do seu partido, o Podemos.

Que foi vazado então do deputado „Mamãe, Falei“ em meio à prioridade que se dá na atualidade às notícias da invasão russa à Ucrânia? Exatamente algo referente a essa situação de guerra e a condição de pessoas necessitadas, sobretudo crianças e mulheres, que são as mais vulneráveis.

O „Mamãe, Falei“ decidiu ir cumprir uma missão especial viajando à Ucrânia com um companheiro do MBL e com dinheiro arrecadado de doações. Ele foi, como um bem humanitário, ajudar a construir coquetéis molotov para a população ucraniana contra atacar as forças russas. Tendo a missão cumprida com sucesso e saído do país, como ele mesmo alegou, achou de enviar um áudio a um grupo fechado de amigos, contando sua viagem. Só que em vez de falar dos males da guerra e do povo, ele se referiu só às mulheres ucranianas como lindas, deusas e fáceis; e por que elas são fáceis? „Porque são pobres“, segundo ele mesmo. Lá quando ele viu a fila dos refugiados, a comparou com a fila da melhor balada do Brasil, sendo que a primeira ganhava da segunda pela beleza das meninas. Seu tom de voz parecia o de um tresloucado, obsecado pelo que tinha de relatar sem que tivesse prestado atenção no que dizia. O cúmulo do alheamento mostrava que a sua principal missão tinha sido outra, e que seu desejo de voltar ao país não seria por missão política, mas sim pra pegar mulheres: „Já tou comprando minha passagem pro leste europeu assim que eu chegar em São Paulo“. É que ele no seu alienado machismo já tinha vazado um companheiro do MBL Renan Santos – como o tal que fala sueco e que viaja pro leste todo ano „pra pegar loura“, é a „tour de blonde“, „ele tem técnicas“ – mas só que „nos últimos três anos ele não fez“ esse tipo de viagem. Renan dos Santos lhe deu umas dicas importantes, como nada de pegar meninas nas „melhores baladas“ ou nas „cidades litorâneas“. Não. Ele precisa ir „pras cidades normais porque aí você pega as meninas“, „você pega no mercado, você pega na padaria“. „E essas cidades mais pobres, elas são as melhores“, claro que para conseguir mulheres. E continuando essa narração insana, cheia de exclamações comuns, mas de caracter subjetivo, como „oh meu Deus não é possível“, „é uma mentira, é um filme, não é possível“, „tou mal“, ele também revela como o macho é medíocre e insípido – foi, deveras, entediante ouvir sua fala.

O „Mamãe, Falei“ que foi pra Ucrânia como uma forma de sancionar a Rússia, está agora sofrendo sanções morais de todo lado. Seu partido repudiou suas declarações; seu apoiador a governador de São Paulo e desejoso a ser presidente do país Sérgio Moro, disse que com ele não dividiria seu palanque; a ex-embaixatriz da Ucrânia no Brasil, Fabiana Tronenko, postou um vídeo como resposta às declarações sexistas do „Mamãe, Falei“. Ela falou chorando que ele devia respeitar às mulheres ucranianas „seu vagabundo“. Disse que ele era um cretino, canalha, safado, ridículo, sem vergonha e de moral baixa, e que Deus que livrasse São Paulo de ter um governador como ele. Também o correspondente de guerra Jamil Chade escreveu-lhe uma carta aberta, comovente e autêntica desprezando as alegações discriminatórias às mulheres ucranianas. Até sua namorada, Giulia Blagitz, postou o fim do relacionamento dos dois, assumindo um certo fatalismo: „Infelizmente a vida é imprevisível e muitas vezes nos leva por caminhos que não compreendemos.“ Li num comentário que seu procedimento foi uma humilhação para ela. Eu acho que não só isso, mas que ela foi levada por tudo a ter feito tal declaração e tomado tal decisão. No fundo se pôs no papel de não ter conhecido a fundo seu namorado e pôde assim se defender em nome do amor: „Mais uma coisa podemos ter certeza: o amor foi real e sempre será! Obrigada por tudo que vivemos“.

O deputado „Mamãe, Falei pediu desculpas por tudo e a todos que ele ofendeu, mostrou arrependimento, mas segue se defendendo, alterando o significado de suas palavras, tentando mudar a ordem do seu discurso sexista e até negando o que tinha dito antes com relação a Renan Santos, o qual afirmou nunca ter feito na vida a tal „tour de blonde“ – no fundo um tipo de turismo por sexo. Como ambos sabem que é muito difícil sair completamente ileso dessa situação, apelam para tudo com fim de alterar o vazado, trazendo novas interpretações. O „Mamãe, Falei“ já deu nova versão aos tais „há três anos“ que o Renan Santos não viajava para o leste europeu. Agora são treze ou dezesseis anos atrás que ele não viajava mais. Ele disse que as pessoas confundem dois contextos, que no fundo são bem distintos: uma coisa é que ele viajou à Ucrânia com fim missionário e o cumpriu, e outra é que ele só mandou o infeliz áudio quando já tinha deixado o país. Ele quer se fazer de duas pessoas independentes, sem que uma interfira na outra. A separação do ser privado e do ser público para um político não é absoluta, os dois lados devem se complementar.

É de um descaro tal que mal suportamos ouvir de homens suas narrativas infundadas e mentirosas com o fim de parecerem corretos, cobertos de razão e donos da situação, porque no fundo as mulheres são as que atiçam, provocam, os levam a perderem a cabeça. Homens não levarem em conta os avanços que à luz do feminismo com seus esclarecimentos favoráveis podem tirar as mulheres da condição de passivas, submissas e dominadas pelo machismo e patriarcalismo é querer continuar nos seus espaços cheios de direitos e de dominadores impunes.

O poder da mídia digital e das redes sociais leva a que muitas coisas, que antes não eram reveladas, hoje apareçam nas mãos de quase todos. Assim foi em dezembro de 2020 quando Isa Penna sofreu assédio do seu colega, o então deputado Fernando Cury, ficou estampado no momento nos monitores da assembléia de deputados paulista, a famosa ALESP.
Depois foi o vergonhoso caso de Victor Sorrentino, médico brasileiro e influenciador que em 2021 numa viagem ao Egito postou na sua conta do Instagram um vídeo o mostrando ao ser atendido por uma jovem vendedora muçulmana que tentava explicar-lhe de onde vinha o papiro – simplesmente de uma planta comprida e firme. Isso já foi suficiente para que ele na frente de todos e em tom malicioso perguntasse a jovem „vocês gostam mesmo é do duro e do comprido?“ Momento de risadas entre os homens acompanhantes do Dr. Victor e a moça sem entender nada. O vídeo viralizou nas redes sociais e ele sofreu as consequências até sendo detido por autoridades egípcias e forçado a pedir desculpas publicamente. Depois ele, como tantos, contou num canal do youtube outra versão do acontecido, a sua versão para salvar sua identidade de pessoa pública e homem casado.

Hoje no dia internacional da mulher me preocupo por homens, principalmente aqueles difíceis de aprender, aqueles profundamente enraizados na tirania do patriarcalismo, na estupidez do machismo, na aberração do racismo e na cruel e impiedosa misoginia. Hoje reitero minha confiança nos movimentos que lutam para livrar as mulheres desses males e avisar aos homens que aprendam, aprendam a conviver bem com as mulheres, e isto é o melhor que eles poderiam fazer no mundo de hoje, porque não haverá passos atrás – nosso movimento já está o suficiente firme e avançado para voltar atrás.

Próxima postagem: 19/4/2022

ATENÇÃO MULHERES, FUJAM DOS HOMENS QUE…


 
    

Lendo sobre porque a agressão, a violência e os homicídios são quase exclusivos dos homens, deparei-me com uma pesquisa de cientistas canadenses da Brock University St. Catharines, a qual diz que há uma relação de largura e comprimento da forma do rosto como um grave índice marcador de comportamentos agressivos, raivosos e violentos. Homens que têm o formato do rosto mais largo que comprido, mostram já nesse aspecto mais potencial para agressividade que outros.

Ora, não vamos sair por aí medindo a cara dos homens, e mesmo que na opção de procurar parceiros por aplicativos apresente-se a chance de observar bem a forma do rosto dos candidatos como eventual prevenção, não é isto o que quero me deter aqui neste texto, pois tais pesquisas são importantes, mas também relativas, e servem sobretudo às investigações policiais de crimes e homicídios. Critérios pessoais devem entrar na escolha do parceiro, e os pressupostos são tão variáveis como as necessidades de querer ter alguém, ficar com alguém ao lado. Minha mãe não conhecia a palavra misógino, este para ela era um homem ruim, malvado, que fazia sua mulher sofrer. Dizia minha mãe que aquele que tinha outras mulheres ou uma amante era um safado ou um cachorro – e todo homem era cachorro, menos seu pai, ou seja, meu avô. Dentro dessa moldura vi quadros horríveis de casamentos malogrados, mulheres sofridas, infelizes e abnegadas, umas coitadas cujos valores próprios estavam na dependência, no amor aos filhos e ao lar e no poder de suportar as dores. Essas mulheres não tinham como se separarem de seus maridos, se isso acontecia era porque os maridos tinham deixado a casa com elas e as crianças. Ouvi muitas vezes que o casamento era coisa muito mais de sorte do que de amor; este era do empenho delas, aquela era a loteria, na qual elas tinham de jogar.

Hoje as coisas têm nome. Mesmo estando mais divulgado entre as mulheres o que é misoginia, que o patriarcalismo é uma estrutura de poder que só favorece aos homens e que o sexismo é uma forma de discriminar mulheres só porque estas são mulheres – entram então estes fatores como alertas de perigo em seus pretendidos relacionamentos? Acredito que ainda é difícil para uma mulher jovem começar um relacionamento pretendendo que ele seja duradouro. Assim como é difícil para todas como terminá-lo. A dificuldade está em que precisamente hoje vivemos em plena divulgação do feminismo, dos esclarecimentos, do MeToo e dos protestos ao patriarcalismo, ao machismo, ao racismo e, sobretudo, ao feminicídio – o que faz com que homens se sintam mais inseguros. Será que tudo isso é considerado e prioritário na escolha do parceiro? Ou são eles esvaídos pela mera paixão do início ou das necessidades intrínsecas? Acho que quanto mais o feminismo avança em defesa – entre outras coisas – da igualdade de direitos, o trabalho de conscientização de uma mulher tem que ver com seu meio, suas experiências e a sua disposição de ser um agente de demandas para ela mesma, daí que tudo concorre quando uma mulher quer se relacionar com um homem.

Vi com interesse influenciadoras jovens em canais do Youtube falando do que se deve ou não fazer para se ter um relacionamento feliz; ou passos para conhecer o amor de sua vida; ou mesmo os tipos de homens que afastam as mulheres. Estes temas antes eram mais escritos e cobertos de moral; hoje elas falam deles com muito humor e quebrando sua seriedade para torná-los alcançáveis. Letícia Lecato é uma dessas jovens bravas que no seu canal do Youtube fala com temperamento sobre diu, mamilos, clítoris, pompoarismo e até de temas existenciais como „E se eu não me casar?“ Em seus últimos vídeos pareceu-me ela mais amadurecida, mais concentrada e já não rindo tanto, até tocando de leve, mas explícita em questão de gênero: Um dos sinais do homem maduro é que „ele não rotula aquilo que é coisa de homem e aquilo que é coisa de mulher“. Quando ouvi isso, vibrei, pensei: agora ela vai disparar e chegar no nó da coisa. Não. Letícia Cecato disse apenas que nem precisava falar sobre aquilo. É que o problema é tão óbvio e repetido que se pensa não valer a pena discuti-lo. Errado. Ele agora tem um nome – problema de gênero – e espero que ele seja tão abordado quanto o racismo, o trabalho forçado de pessoas, os crimes contra a humanidade e o meio ambiente.

Como Letícia Cecato fala de sinais, homens deixam sinais que por mais sutis que sejam ao início, serão cada vez mais desvendados ao passo que trabalhemos contra relacionamentos abusivos, onde agressões e violência contra as mulheres são o topo dos problemas. Esta é a pauta. Hoje não só sabemos mais que antes da existência deles, como temos construído um manancial que nos ilustra e nos fundamenta. Ocorrências diárias contra mulheres levam a protestos de ruas e nas redes sociais, #hashtags, estatísticas alarmantes – estamos vivendo o tempo de dizer BASTA: – Homens, basta de tratar as mulheres como se elas fossem estúpidas e seus pertences; basta de impedir ou distorcer a expressão das mulheres, como se elas não tivessem o que dizer; basta de ter as mulheres sob seus controles, tolhendo-lhes a liberdade de serem o que são e o que quiserem. E mulheres, basta de acreditarem em amores vazios, achando que o amor tudo vence; basta de se iludirem por promessas não cumpridas e basta de achar de que só com um homem poderão ser realizadas.

É que os relacionamentos têm de sair da esfera única emocional e egoísta de querer ser amados incondicionalmente e de que a vida a dois existe com o fim de trazer felicidade. O relacionamento existe para que os dois se conheçam, se desenvolvam, cresçam como seres juntos e separados ao mesmo tempo. Isto é muito maior do que os obsoletos happy end „ dos filmes e a ilusão do “assim serão felizes para sempre“.

Como é bom e fácil teorizar! Mas se não tomamos isso como uma receita, podemos pelo menos entender como uma proposta, um antecedente já em curso e impossível de voltar atrás. O feminismo com suas interseccionalidades trabalham pela igualdade dos seres humanos e são tão fortes, corajosos e humanitários, que nem é preciso viver teorizando – o feminismo, no qual eu acredito, existe para que vivamos melhor uns com os outros.

Próximo post: 30/4/2021