ÂNGELA, que não era Leila, DINIZ e os 45 anos de sua morte

        

As duas foram contemporâneas e tinham um estilo de vida avançado demais para a conservadora sociedade da época sob regime ditatorial militar impregnado de censuras. Em junho de 1972 faleceu a atriz de cinema e teatro Leila Diniz num desastre aéreo na Índia de volta para o Brasil – um voo antecipado – por saudades da filha de apenas sete meses. A outra, Ângela Diniz – uma socialite, que ao desquitar-se fez acordos com seu ex marido, perdendo a guarda dos três filhos e recebendo, porém alguns imóveis em troca – foi morta em sua casa numa praia de Búzios, Rio de Janeiro por seu amante, conhecido como Doca Street em 30 de dezembro de 1976.

Desafiar o machismo e a prepotência masculina pode ser perigoso e exige tanto coragem quanto preparação e meios adequados para combatê-los – mesmo assim não há garantias. A tarefa do feminismo não é tanto fazer guerra diretamente, mas sim denunciá-los, desmascará-los, conscientizar as mulheres de seus poderes destrutivos ao abrir-lhes caminhos em direção a seus direitos – ainda assim não há garantias absolutas. As duas desafiaram, a seus modos, as convenções de uma sociedade machista e retrógrada; confrontaram homens; algumas feministas de então não as entendiam, não sabiam como integrá-las, pois ser livre para uma mulher podia ser muito perigoso e esse conceito, talvez mais do que hoje, não estava muito claro.

Uma mulher que falava abertamente nos anos 70, – „Sou livre, e daí?“, „Transo de manhã, de tarde e de noite.“, „Você pode muito bem amar uma pessoa e ir pra cama com outra. Já aconteceu comigo.“ – estava acima do convencional, mas era bem o forte de Leila Diniz. Só que nessas declarações, havia uma „revelação de vida“ – era saber ser „sem esconder o ser“, como escreveu Carlos Drummond de Andrade num poema dedicado a ela depois de sua morte. O coloquialismo de Leila, muitas vezes recheado de palavrões, chocava o conservadorismo de famílias de bem, assustava mulheres – e os militares ditadores também – Ela era a desbocada, a transgressora e até foi censurada por isso, mesmo assim sua resposta era sorrir mostrando o que é ser feliz como uma sábia experiência de amor à vida – „o riso aberto, a festa matinal do corpo, a revelação da vida.“ (Carlos Drummond de Andrade) É quando questionamos o que é pudor, e a falta dele expressar o que é ser feliz sem ofender o outro.

Já Ângela Diniz deixou sua marca no avanço das lutas das mulheres contra o feminicídio no Brasil, mas infelizmente só depois de morta. Pergunto-me quem era essa mulher além de ter sido coroada com adjetivos de acentos pejorativos, como provocante, sedutora, estimulante, irresistível para descrever seu comportamento? Isso era tudo?

Nos anos 70 do século passado qualquer um que tivesse visto a foto de Ângela Diniz na imprensa ou na televisão sabia que ela tinha sido assassinada pelo amante. Um crime brutal como tantos outros que acontecem no dia a dia brasileiro, onde mulheres são mortas por homens que defasados de seus papéis como marido, namorado ou companheiro não conseguem lidar com demandas e protestos de suas mulheres, nem acompanhar as mudanças significativas quanto ao uso de seus direitos. Com Ângela Diniz não foi tão diferente, só que na época seu assassino foi livrado de uma pena à altura por ainda prevalecer a idéia da legítima defesa da honra do homem defendida por seu advogado, o que em outras palavras significava que ele tinha licença para matá-la, para acabar com a sua vida, se o comportamento dela não fosse o desejado por ele. A crendice de que Ângela, por suas atitudes excessivas, levou Doca Street a matá-la é tão forte e convincente, que encobriu um ângulo seu que é para mim uma das chaves do crime além das provocações da Ângela. À parte de sua vida tumultuada entre festas, bares e viagens; sua inclinação ao álcool e às drogas; seus constantes affaire; sua necessidade libidinosa, deixando aflorar sua bissexualidade, havia também um fator considerável – a falta de objetivos comuns aos dois, um plano B de reserva que os unisse quando o auge da paixão declinasse. Doca Street era quem mais tinha desvantagem – ele que tinha deixado recentemente sua esposa e um filho por uma vida a dois com Ângela em Búzios, que iria fazer ao ser dispensado por ela? Acho que ela não tinha o que perder – era a dona da casa – e talvez até quisesse recuperar os filhos longe da tumultuada vida do Rio de Janeiro – mas isso só são especulações.

Segundo o Podcast Praia dos Ossos realizado pela Rádio Novelo, Branca Vianna ao entrevistar Doca Street, ele já com 84 anos, perguntou-lhe qual tinha sido a intenção dos dois de irem para Búzios. „Era de morar lá“, respondeu Doca. Branca Vianna insistiu: „E fazer o quê lá?“ E Doca: „Se amar“. Pois é, simplesmente morar lá e se amar. Uma vida sem objetivos é imatura, e o viver só de amor e sexo não pode fundar um relacionamento duradouro. E mais, como podia ter funcionado esse relacionamento de amantes começado só há quatro meses e forjado por más experiências de outros relacionamentos? Arrisco-me a dizer que nele só havia o desejo de acertar na vida por meio da paixão amorosa, mas quão infundado esse desejo, porque a predisposição e iniciativa de estabelecerem mudanças em suas vidas e compromissos que protegessem a aliança dos dois não existiam. E como podiam existir, se o que os uniu foi exatamente o contrário disso?

Eu era muito jovem quando morreu Ângela Diniz; o que li sobre ela não era muito diferente do que ainda hoje se diz repetidas vezes: era exuberante, mas também briguenta e desbocada; dava em cima de homens, sobretudo casados, e de mulheres também; gostava de sexo e praticava o ménage à trois. O que me intriga nisso é a impossibilidade de enxergá-la além dos limites onde ela mesma se deixou encaixar. Havia uma outra cara da Ângela que não saía nos jornais? Como recuperar esse lado dela, se ela mesma o guardou? Eu, que prefiro as verdades atrás dos fatos, por essas verdades da Ângela, me interessaria mais em conhecer do que o seu desbunde explícito. Pessoas que conviveram com Ângela podiam ter falado mais a fundo da amiga, se tivessem se esforçado a conhecê-la melhor, acho eu. O que falaram sobre ela no podcast Praia dos Ossos me pareceu muito superficial, deixando até muito a desejar – lacunas, dúvidas explícitas, incompreensões, mostrando até insegurança. O uso de „sei lá“, „não sei“, „eu acho que era complicada, mas sei lá“, foi intensivo. Por outro lado o escritor e jornalista Roberto Drummond a entrevistou em 1969 em Belo Horizonte sendo um dos poucos que captou sua extrema franqueza, „quase violenta até“; uma mulher „com os pés na terra, mas insegura, quase desprotegida“. Era a Ângela que se enchia de melancolia num dia apenas nublado: “Às vezes acordo de manhã, olho o céu e fico com vontade de dar uma morrida“. Ou ouvindo Maria Bethânia cantar “Pra dizer Adeus” tenta ser original, mas acaba repetindo um ilusório clichê do romantismo literário: „Eu me sinto toda nessa música. Acho que eu sou uma mulher muito fora da época. Sou muito sensível. Olha, eu acho linda aquelas histórias antigas com os poetas morrendo de tuberculose por amor. Eu devia ter nascido há muitos anos“.

Está claro que o legado que Ângela Diniz deixou foi o produzido após sua morte com o trabalho pioneiro de nossas feministas protestando nas ruas, até que o primeiro julgamento de Doca Street fosse anulado e ele levado a um segundo, onde recebeu uma pena de 15 anos – uma vitória que levou a mudar atitudes na sociedade sob o lema „Quem ama não mata“. Mesmo esbanjando sua liberdade de viver, seu destemor e sua franqueza, Ângela não se juntou às feministas de então – o Women’s Lib – não entendeu o movimento, achou-o insignificante, preferindo reduzi-lo a „mulheres frustradas social e sexualmente“, o que é compreensível para mim – sua forma decadente de viver jamais se alinharia com ideais feministas da época e fazendo-a repensar o que significa liberdade. Mas, ironicamente, foram essas mulheres que lutaram por ela, – não importando se „frustradas social e sexualmente“ elas fossem – conseguiram que sua vida, não importando como tenha sido vivida, fosse respeitada ao ser seu assassino finalmente punido.

Ainda acho que Ângela foi descuidada por seus amigos, negligência mesmo daqueles a quem ela poderia, pelo menos, ter ouvido. Na entrevista com Doca, Branca Vianna perguntou-lhe se alguém tinha intervindo entre eles, advertido os dois de riscos, enquanto eles já mantinham um romance às costas de seus parceiros. Ninguém. Ângela Diniz morreu pelas mãos do amante aos 32 anos; hoje faz 45 anos de sua morte.

Fontes consultadas:
Além de diversos artigos e vídeos expostos na internet, foi-me de grande ajuda o podcast da Radio Novelo – Praia dos Ossos.