Ernest Hemingway e a LGBT


 

À parte do escritor que ele foi, associo Ernest Hemingway ao clichê do homem forte, corajoso, vencedor, dominador e querido por muitas mulheres; um clichê incentivado por ele próprio e mostrado em fotografias que ficaram famosas. Mas era ele assim mesmo, ou já tinha prenúncios feministas? Aceitava já Hemingway, por trás de sua fachada, os homo-e-bissexuais? Pelo menos ele tomou esse tema num dos seus contos de 1931 – Sea Change para o livro Winner Take Nothing (O vencedor não leva nada), (1) um conto curto, entre 5 e 6 páginas, aparentemente não claro, mas bem revelador nas entrelinhas daquilo que ainda era um tabu na época: a bissexualidade. De um homem? Não.

De onde tinha Hemingway experiências nesse campo, ele que passou sua vida acompanhado de mulheres, chegando a casar quatro vezes? De sua própria mãe? De sua primeira esposa? – Como se fala. Em conversas com sua amiga Gertrude Stein, que era lésbica, ele foi nutrido do que é lesbianismo e o que isto significava na época. Por outro lado Hemingway, que cobriu duas guerras como ajudante sanitário e jornalista, tinha muito claro seu interesse nos fatos do presente, nos desafios e ações que movem as pessoas levando-as a perdas e ganhos, encontros e desencontros pela vida. No mais o conto parece ser um exercício de escritura a fim de estabelecer sua marca como autor, pois nele já há claro o rompimento com a estrutura tradicional, enfatizando o diálogo sucinto e dramático que dirige toda a narração; a falta de rodeios; a economia de descrições desnecessárias e a concentração no momento presente com preciso controle de seu desenvolvimento.

Eu que li muitos contos de Anton Tchekhov, e acho que Hemingway também os deve ter lido também, encontrei um paralelo entre os dois, sobressaindo o conto Sea Change do americano. Tanto neste como em Tchekhov não há um final satisfatório nem conclusivo, deixando uma brecha de continuidade que não vem. Assim em Sea Change, ao oposto de Tchekhov em seus contos, não fez Hemingway do seu tema – a bissexualidade – um material de reflexão, apenas o entregou à competência do leitor sem comprometer-se diretamente com ideologias, isso porque o próprio tema está subentendido. Ele não se esforça em analisar seus personagens, nem contar-lhes seus passados, tudo está passando no momento presente guiado pelos diálogos e rasas descrições que nos insinua quem e como os personagens são.

Um rapaz e uma moça, ainda bronzeados do verão, conversam sobre o fim de seu relacionamento à mesa de umbar em Paris. Não sabemos do problema que leva à separação dos dois a não ser sutilmente pelo que eles dizem um ao outro. O rapaz que está contra ao motivo do desenlace, a culpa por isso, e ela para acalmá-lo, tenta fazer com que ele a aceite, assim como ela mesma aceita sua realidade. Após uma breve descrição da moça, o rapaz diz „vou matá-la“, e é aí que sabemos de que se trata de uma mulher na vida dela, um caso amoroso entre as duas e abominado por ele: „Tinha que ser precisamente isso?” “Você não podia ter caído em outra coisa?“ A moça é bissexual, ela ainda quer voltar pra ele, apela pra isso; o rapaz, ao contrário, está metido nos modelos masculinos da época, bem mais fortes e evidentes que hoje – é que nos anos 30 do século passado ainda não havia discussão de gênero e o feminismo apenas apontava levemente. Contudo deixa Hemingway um claro contraste entre os dois quanto à posição de quem está na vanguarda das mudanças sociais: ela, a mulher que defende seu direito de ser o que quer e agir como ela quer. O autor, porém não a destaca em suas prioridades, deixando que o conflito de diferenças entre os dois se estenda em paralelo até que a postura resoluta da moça seja atendida – ela o deixa, mas prometendo voltar.

Assim Hemingway já estaria pincelando o tema para a literatura? Sim e de forma implícita. No fundo dois temas que se correlacionam: a bissexualidade feminina e a questão de gênero. A primeira é denominada e compreendida pelo rapaz como vício e perversão, o que remete à postura da sociedade da época e a incapacidade dele de superar essa crença. Quanto ao gênero, tanto homens como mulheres têm seus papéis moldados e prescritos a modelos que lhes trazem extrema desigualdade. Onde há desigualdades, há diferenças contundentes entre aqueles que são superiores, fortes,mandões, privilegiados e os que não são. No caso, mais as mulheres têm sofrido e até pago com suas próprias vidas por atrozes discriminações. A moça do conto é agente de determinação numa sociedade ainda bem retrógrada, por isso sua fala é mais segura e objetiva, incluindo palavras de conciliação, mas estas não são em detrimento de sua liberdade, e sim como um esforço para ser aceita por ele.

Para mim Hemingway ou deixa o final do conto em aberto para nós leitores refletirmos segundo nossa capacidade, ou ele premeditadamente não quis dar um final claro por não se achar ele mesmo à altura, já que o tema outrora não era tão falado como em nossos dias. Por fim o rapaz consente que a moça se vá e deixa-lhe claro que os dois vão se ver após o caso amoroso ou a aventuradas duas. A partir daí ele se sente aliviado, como um novo homem e até se ver com outra aparência. Ele mudou tanto assim em coisa de minutos? Ele passou a aceitar as diferenças e exigências dela sem constrangimento? Para mim esse final liso e harmônico tanto pode ser uma trampa do autor em não querer se posicionar contrariando a masculinidade que ele tanto exibiu, como uma proposta antevendo que só saindo de convicções falsas, pode-se construir um futuro com mais justiça e igualdade. Para os que vão ler o conto, fica-lhes como entender o final antes e nos nossos dias.

1) Não encontrei o livro de contos Winner Take Nothing de 1931 em português, parece que ele está incluído em várias coletâneas de contos de Hemingway. Também não encontrei tradução em português para o conto Sea Change, eu o li em alemão.

O FIM DE EDDY – QUE NÃO FOI UMA TRAGÉDIA



„A dor da gente não sai no jornal“, (1) mas pode sair num livro ou no teatro quando o narrador lírico não se exclui de outros e propõe-se a revelar de si mesmo como liberação e testemunho. Só um olhar objetivo é capaz de reconstruir o que o corpo sentiu de humilhação e medo. E essa dor sofrida pelo outro nos toca se pesarosamente a imaginamos ou se assistimos a representantes dela a reviverem em seus corpos num intento de diluir o real no contado.

O Eddy-Projekt, um trabalho de teatro baseado nos livros autobiográficos O Fim De Eddy de 2014 e Quem Matou Meu Pai de 2018, ambos de Édouard Louis e encenado por atores jovens não profissionais do WABE Berlim, que é um espaço municipal no leste da cidade para realização de eventos culturais. A direção é de Alexander Weise e a música de David Schwarz.

Édouard Bellegueule, aliás Édouard Louis nasceu em 1992 e vivia com sua família no norte da França em condições de pobreza. Sua mãe era dona de casa, seu pai, como tantos outros da localidade, trabalhava numa fábrica e com seu mísero salário mantinha a família. Eddy, como era chamado desde pequeno, sofreu o que é a homofobia. Na escola foi perseguido sobretudo por dois meninos mais velhos que o escarneceram, o golpearam e cuspiram-no, só porque Eddy tinha trejeitos femininos, era frágil, medroso e falava com voz afeminada. Não o podiam aceitar, ele saia dos moldes de como um homem de verdade tinha de ser naquele lugar, e não um maricas, um veado, uma bicha. Estas palavras abjetas referidas a ele o acompanharam pela infância, era o que ele ouvia na escola e no vilarejo. Para sair desse tormento Eddy passou até pelo contrário de sua própria natureza, esforçando-se para corresponder o que esperavam dele. Não foi possível, e teve que seguir sofrendo.

Quatro dos nove atores em círculo recitam devagar o inicio do livro – resumo da via crucis de Eddy, – ele tinha nove anos e era novo na escola. Uma rajada de guitarra como numa abertura de um concerto de rock faz mover a ação, mais cinco atores entram eletrizados, e em frêmito expressam com a voz e o movimento do corpo o ambiente de seu sofrimento. O palco é o espaço do horror e Eddy entra em cena. Vemos e ouvimos sobressaltados uma mistura de vozes, a respiração ofegante de um asmático, uma tentativa de fuga. Era Eddy e seus torturadores, meninos já envoltos em violência – era a crueldade, a inclemência nas mãos de crianças que já começavam no pátio, nas escadas da escola a exercerem poder sobre Eddy. Os jovens atores dão de tudo para reviver nos seus corpos, o que Eddy viveu no seu único corpo, um corpo dolorido, reprimido, ainda sem dono, vivendo dele mesmo. Este – sempre o corpo – tem que encontrar nos atores sua expressão e ressonância, seu suporte e aprovação, e assim as ações deste corpo são variadas e repartidas entre eles, desenhadas em círculos, em passos automatizados, em costas curvadas, ou como um barril que rola e rola até topar-se com o próprio limite. Ou mesmo a inércia do corpo é encenada em corpos.

O grupo de atores forma um coletivo, um coro representando dois lados – todos são o fragmentado e desencontrado Eddy, mas são também seus algozes. As vozes discursivas são multíplices – os pais de Eddy, seus irmãos, seus colegas, seus carrascos e a comunidade – um coletivo de seres que vivem ao seu redor e que falam pelas bocas do coro. Todas as vozes são ainda seus velhos eus traduzidos por esse coro em tons de escárnio por falta até de compaixão: porque esta poderia servir, se não para salvar, pelo menos para aliviar. Mas não, o coro modula suas diversas vozes à mercê do que vem e surpreende o público, fala sem cansar, enfeia o discurso, faz revelações íntimas, e tudo isso em momentos, fatos alternados de ação e reflexão.

Um blogueiro brasileiro disse que o livro O Fim de Eddy está „repleto de gatilhos“ e ele só o recomenda a pessoas fortes psicologicamente. – Os brasileiros e suas obsessões psicológicas – Ele quis dizer que antes de ler o livro é preciso saber do que ele se trata. Os gatilhos são conteúdos sensíveis revelados em cenas de violência, abusos, levando o leitor à aflição. Por outro lado essa aflição, esse desconforto também não seriam uma expressão de indiferença? E esta é o menos que Édouard Louis espera de sua obra, ao contrário, para ele é preciso falar de racismo, homofobia, dominância masculina, abuso de mulheres e crianças e exploração de quem quer que seja, onde e como são produzidos. Também é preciso saber quem é o opressor, ter uma ligação com ele, para poder se livrar dele. Seu livro, menos do que uma confissão, é um depoimento de liberação, sem culpar ninguém, sem vangloriar-se de sua pessoa enfim libertada. Contudo o que levou Eddy à redenção? A vingança? Não. A coragem? Sim, mas não só ela. Entendo mais sua independência como sendo um aparato de disposições, estratégias, oportunidades, sejam quais foram, ditadas pela consciência de que o corpo não podia mais aguentar, pois aquela condição de vida e a dor por humilhações e golpes não podiam ser normalizadas nele como foram interiorizadas e estruturadas na vida de sua mãe, de seu pai, irmã, juntamente com a ira, porque „talvez a ira seja um critério de reconhecimento da verdade“, disse Louis.

A peça é longa, o público continua concentrado, mas também tem que fruir. Quando? Todos sabem que o desfecho é favorável ao autor com a sua saída da casa dos pais, da escola e do vilarejo. Os atores expressam mais ironia e confiança no corpo; a música traz mais estabilidade nos efeitos; o momento não é de autocompaixão, mas sim de liberação. Uma porta é aberta, a saída dos atores é simbólica: o Eddy menino se libera primeiro, enquanto o outro, já em processo de amadurecimento, sai depois. Tudo isso é mostrado na distribuição dos atores: primeiros os mais jovens e depois os adultos.

O que vem a seguir é a reflexão a posteriori, o ajuste de contas consciente com o pai, mas sem vingança e ódio. É a voz única e livre do autor de Quem Matou Meu Pai – Édouard Louis – apresentada em monólogo, mas desta vez por um ator profissional.

(1) da música Notícia de Jornal de Haroldo Barbosa e Luiz Reis. Foi gravada ao vivo por Chico Buarque e Maria Bethânia em1975.

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MÃES QUE NÃO SÃO MÃES?

          

Quando um homem comete um crime de homicídio ou um assassinato, e sendo até esse contra a sua própria família, toda nossa indignação e aversão a ele não se compara com a nossa reação de pesar e comoção dirigida às vítimas. Sabemos que o número de mortes cometido por homens é maior que o de mulheres, por isso à simples pergunta quem matou, nos vem sempre acompanhada de uma imagem masculina, não está na nossa cabeça de maneira automática realizar que foi uma mulher a autora do crime. Além dos presídios, os documentários, filmes e livros policiais também nos mostram a elevada presença masculina como perpetradores sozinhos ou em gangues. É um fato que homens matam mais, e por quê deveras o fazem é o mesmo que perguntar por que mulheres têm menos incidências criminais, e isto tem que ver com fatores tanto biológicos como sociais: homens estão mais expostos a situações de risco; o aumento do hormônio testosterona nos rapazes pode influir nas suas ações e os distintos papéis sociais dos dois, se levarmos em conta a predominância do machismo e do patriarcado que relegou as mulheres a seres passivos e obedientes demonstram que homens costumam resolver seus conflitos exteriorizando-os e até incluíndo outras pessoas neles. Já mulheres aprenderam a interiorizá-los, a serem mais meditativas e a solucioná-los sozinhas. É conhecido que mulheres podem ser capazes de acabar ou separar brigas de machos, se estes, então cegos de ira, não as golpearem primeiro – o que é raro.

Por outro lado mulheres agressoras e como fazedoras de delitos e de crimes contra a vida de outros, nos deixam pensar nisso como exceções. Casos de mulheres assassinas em série são raríssimos, pois geralmente quando elas matam é dentro do seu espaço domiciliar, não escondem o crime e deixam-se capturar facilmente pela polícia. E se uma mulher mata o marido ou companheiro, até aí podemos compreender seu drama se nos vem de pronto pensarmos na legítima defesa, ou para livrar-se ela e os filhos de abusos físicos e psíquicos dele, ou como vingança por infidelidade, ou por ter sido aproveitada e explorada sua confiança nele. Mas se ela mata um ser nascido dela, nossa reação é bem diferente: primeiro é um choque, ficamos sem fala, e sem que percamos o interesse pelo caso, o horror se propaga, sentimos ódio, ficamos indignados, queremos justiça, e tudo isso dirigido a ela, só a ela que rompeu o tabu sagrado de ser mãe.

Em setembro de 2020 na Alemanha, uma mãe de família matou cinco de seus seis filhos, um por um numa banheira, e depois de mandar o mais velho de oito anos à avó, jogou-se contra um trem numa estação de Dusseldorfia, na Vestefália, tendo sobrevivido a muito custo. Se ela foi capaz disso, posso imaginar sua depressão, o tamanho e a força de suas imagens conduzindo-a a tal ato. Ela não foi a primeira, e como ela todas têm uma história possivelmente marcada na infância ou adolescência com maus-tratos e abusos sexuais. No seu caso foi por um conhecido de seus avós quando tinha 12 anos; aos 15 anos engravidou pela primeira vez, e da relação com o pai só restou a criança. Com 19 anos ela é mãe pela segunda vez sem que daí o pai cuidasse do filho, ficando a jovem mãe solteira e sozinha com os dois filhos. Depois essa mãe se casa com um ex-soldado e com ele tem mais quatro filhos. Numa reportagem de revista vejo uma foto dos noivos, ela à maneira clássica vestida de branco com um buquê de flores brancas e fitas, ele de terno escuro. Os dois filhos dela também vestidos adequados para a ocasião. Atrás deles uma limusine branca a condizer – talvez como símbolo do desejo dela de ter um esposo, uma família e que a partir dali tudo vai dar certo. Mas o casamento também não durou; eles viviam num apartamento de quatro cômodos; o marido ficou desempregado e muitas vezes a deixava sozinha, sobrecarregada com os filhos e a casa, até que ele saiu de casa de vez. Um mês antes do trágico ocorrido, ele tinha postado no facebook uma foto com a sua nova companheira, uma vizinha do bloco residencial. Esse sentimento de abandono a acompanhou sempre – também a fez recusar ajuda do Estado – foi ele, acho, o propulsor de sua trágica decisão mais tarde, fazendo-me lembrar da Medéia de Eurípedes – dramaturgo grego do século V a.C. – que também cometeu um infanticídio por sentir-se traída e abandonada pelo homem que amava e pai de seus filhos.

Bom que casos como esse são raros, e mães separadas de seus parceiros e responsáveis pela custódia e sobrevivência dos filhos não terminam sempre em fatalidade. Contudo os motivos geradores de tragédias familiares, estão na base, prestes a desencadearem desgraças irreparáveis, requerendo atenção e interesse nossos. Uma moradora de um dos blocos de apartamentos perto da mãe falou com tristeza de suas próprias omissões, da sua falta de interesse em furar o gelo e aproximar-se dessa mãe sozinha com seis filhos. Esta seria a nossa participação, pelo menos em compreender sua história em vez de só referir-se a ela como uma pessoa estranha, e julgá-la moralmente.

Cada vez que nos detemos só no crime fica de fora o debate das causas e o avanço de medidas sociais efetivas em situações emergenciais. A pergunta é sempre a mesma: no lugar de pôr a culpa nessas coitadas – pois esta já está prevista no código penal – por que não buscar os quadros sociais e psíquicos exatamente geradores de estados nefastos? Em que condições alarmantes se encontram mães com risco de cometerem delitos graves? Criminalistas alemães já reconhecem algo como uma estrutura capaz de dar oportunidade a um ato de delito, ou seja, quando alguém está muitíssimo metido em uma situação negativa, como uma sobrecarga afetiva e material, e esta ainda relacionada com frustrações e sentimentos de anulação, é muito provável que apareçam daí atos de agressão. A coisa é delimitar esses espaços onde esses possíveis determinantes estão contidos. Uma grande tarefa, um trabalho difícil e pormenorizado, dependente não só do Estado, mas também de nossa responsabilidade social. Garantia absoluta não existe, só avanços em favor de uma solidariedade e justiça sociais.

Voltando à mãe mencionada, ela está por ora vivendo um processo que vai durar onze dias até seu julgamento final. Até agora ela tem negado sua participação no crime de seus filhos, alegando que um homem usando máscara entrou no seu apartamento e matou suas crianças. Uma construção psíquica para se defender da imensa dor, e fugir da realidade, acho.

CRISES DA VIDA PODEM NOS LEVAR LONGE

    

Se não fosse uma forte crise existencial que tive com pouco mais de trinta anos, eu não estaria hoje onde estou vivendo: longe do meu país de nascimento e longe do país que me acolheu quando deixei o Brasil.

Todos nós passamos por crises, sem que por isso estejamos enfermos; eu já passei por algumas de diferentes intensidades – elas também nos ajudam a sair da estagnação de onde nos encontrávamos, por isso precisam as crises de soluções, saídas que deem um rumo diferente a nossa vida daquele que era antes. Aprendi a entender minhas crises como um estado doloroso continuado até um certo ponto, onde eu pude enfim intervir com algo relevante – uma tomada de decisão, ou ter encontrado uma solução para o conflito que me afligia. Realmente se pode representar uma crise com uma linha vertical subindo até um ponto máximo e depois acontecer um declínio. Estudiosos chamam esse momento perigoso de clímax ou inflexão e é aí quando é preciso fazer algo positivo para que essa queda não gere uma catástrofe, ou uma depressão onde a tal linha representativa é para baixo necessitando de uma estabilidade no estado psíquico do paciente. Há muitas alusões às crises: estados psíquicos de liberação de energias, como um orgasmo, e físicos como a luta do sistema de defesas do organismo para vencer uma febre ou a fase crítica de uma infecção, antes do aparecimento dos antibióticos, por exemplo – eram os dias de decisão, dizia Hipócrates, médico da antiga Grécia.

Quando minha mãe faleceu, e eu não me encontrava a seu lado, esta foi a causa da crise mias forte que vivi. O fato de não ter vivenciado sua morte e minha consequente falta no seu enterro, me rendeu uns anos de desconsolo e depressão. Com ajuda de profissionais e boas leituras hoje sinto-me forte para reagir às lembranças, mas sei que a dor pela minha ausência e sua perda, a levarei para a tumba. A perda de um ente querido; a perda de uma base existencial, que é um trabalho, a perda de um lar, de uma moradia, ou acontecimentos repentinos, como uma doença grave, um acidente ou uma catástrofe são as causas mais extremas que levam a crises intensas.

Como uma crise não é uma depressão, mas pode conduzir a esta, podemos usar nossas forças para suplantá-la, antes que entremos num colapso, mas se elas não são suficientes – e muitas vezes não são – a ajuda de outros é imprescindível. Outra forte crise que passei foi ter perdido um emprego quando vivia fora do Brasil. Com ela tive de aprender novas habilidades para sobreviver, conheci mais o país e pessoas, fiz ioga, desenvolvi-me intelectualmente – me virei – e reconheci que o fato de ter perdido um trabalho, não foi tão mau assim, bem mais uma chance de requisitar minhas capacidades. Na sabedoria popular não é à toa dizer que uma crise é como uma porta que se abre, enquanto outra se fecha – sim, abre-se para algo que ainda não está presente, mas que procede no processo de sair por ela, pois crise tem que ver com distanciamento, separação.

Tanto obstáculos que se interpõem à realização de nossos objetivos, podem gerar uma crise por não sabermos como lidar com eles, como a quebra da rotina do dia a dia. Isso é muito comum em situações de visitas entre familiares ou amigos, quando saímos do que é repetição em casa quanto aos afazeres, aos horários, aos modos peculiares e bem determinados. O afastamento de tais práticas conhecidas pode nos trazer conflitos conosco mesmas, e uma vez já metidas neles, não é fácil usar o momento para alargar nossa percepção e questionar nossos valores.

Apesar de ainda não ter visto o filme ganhador dos últimos Oscars, Nomadland, sei que sua estória apresenta uma situação de crise por perdas intensamente marcantes a priori. Fern – que em alemão significa longe, distante, e não acho que seja um acaso – é o nome da protagonista do filme, que ao perder o marido e trabalho, encontra como saída, para garantir sua subsistência, vender seus pertences, comprar uma van e sair on the road como uma nômade em busca de trabalho. Ela, como principiante, se depara com pessoas que por razão da crise imobiliária americana de 2008 perderam o que tinham e vivem agora de empregos periódicos em diversas partes do país. São pessoas – a maioria é de idosos – experientes e estruturadas para esse tipo de vida e que ajudam a inexperiente Fern em detalhes fundamentais para sua sobrevivência na estrada. A diretora do filme, Chloé Zhao, incluiu pessoas reais no elenco – com exceção de uma – mostrando depoimentos verdadeiros, gestos autênticos e lugares originais.

Viver como nômade é o oposto de uma vida sedentária assentada numa residência fixa. Não é nem infundada, nem gratuita a decisão de partir para esse estilo de vida, sequer garante satisfação diária; também não é uma aventura sem precedentes e sem destino em busca de infinita liberdade. Eles não são nem aqueles turistas de mochilas nas costas ou viajantes de vans que mesmo indo de um lugar a outro sempre precisam de uma estrutura já organizada que satisfaça suas necessidades. Essas estruturas em geral não são benéficas ao meio ambiente, pois tendem a crescer para favorecer mais à indústria turística. Não. Ser nômade é deslocar-se de um lugar a outro tendo em vista a subsistência como base de um assentamento temporário, e aí explorar suas condições e formar um modo de viver. Por princípio o nomadismo age conforme ao meio ambiente e consiste em sustentar os recursos, e não degradá-los como faz o turismo. Assim também era na pré-história, como também na época das grandes caravanas e das longas transladações aviadas por necessidade de alimentos, por irregularidades climáticas, catástrofes naturais e até perseguições. Pessoas ou grupos humanos têm seus motivos, suas crises de vida que lhes fizeram nômades; eles têm sempre o que contar nas suas paradas e oferecer ou receber ajuda. Daí a importância do sentido de comunidade, de união, nem que seja por pouco tempo, mas sempre com a certeza de que se encontrarão em outro lugar.

Os tempos modernos com a industrialização diminuíram as ondas nômades, já que nada é mais sedentário do que trabalhar em fábricas. Hoje empresas de porte espalhadas em todos os cantos, tiram proveito dessa gente, dando-lhes trabalho temporários e nem sempre pagando-lhes à altura. E Fern, a nossa protagonista citada acima, segundo li, também participa dessa via neoliberalista por necessidade de dinheiro e, talvez, por gostar de trabalhar, adquirir experiência, mas não para se acomodar, para isso Fern está muito longe. Ela quer seguir, continuar na estrada e, quem sabe, reencontrar seus companheiros de missão.

Esse filme Nomadland que só vi trailers, deu-me interesse em ler e refletir sobre o nomadismo e sua resistência em continuar nos humanos como uma ação eficiente de desenvolvimento sustentável. A vida sedentária exige mais construções e com elas a necessidade de todos tipos de equipamentos, desde móveis e outras coisas necessárias, mas também coisas supérfluas que não cabem mais dentro de uma comodidade modesta. Li muito mais do que expus aqui – é sempre assim – como também sobre o que é uma crise emocional e como se manifesta, apesar de que minhas experiências com elas já seriam suficientes.

Próxima postagem: 17/6/2021

O CASO DO MENINO HENRY BOREL E OS VALORES BURGUESES ACIMA DE SUA VIDA

O menino Henry Borel sofreu tantas ações violentas contra seu corpinho de apenas quatro anos que não aguentou mais ser socorrido por médicos – chegou morto ao hospital, melhor dizendo: foi levado já morto ao hospital, nos braços de sua mãe, Monique Medeiros da Costa e Silva acompanhada de seu parceiro, um médico e vereador do Rio de Janeiro, Jairo Souza Santos Júnior, conhecido por dr. Jairinho. Não houve dúvidas para a polícia que o menino foi assassinado, restando esclarecer o grau de responsabilidade de cada um dos dois na sua morte.

Falsos depoimentos, mentiras, tentativas de atrapalhar a investigação, tudo isso foi apelado para contradizer a verdade sobre o que realmente eles fizeram com Henry na noite do 7 para o 8 de março deste ano. Segundo li, o dr. Jairinho, usando de seus poderes de político por meio de gente influente, depressa tentou liberar o corpo do menino do hospital na Barra da Tijuca, sem que o cadáver fosse levado ao IML – Instituto de Medicina Legal – para exame e emissão do atestado de óbito de Henry com causa de morte definida. Achava o vereador que o caso iria ficar por isso mesmo? – Grande estupidez sua. Monique pediu falsos testemunhos da babá e da empregada para reafirmar a tese de acidente dos dois na causa da morte do filho e encobrir seu conhecimento dos maus-tratos que recebia o menino do padrasto. Por quê? Para quê? Para que, como um acidente, tudo voltasse ao normal mesmo com Henry morto? Para enfim poder viver a vida de luxo oferecida pelo parceiro sem o incômodo do filho? Ou porque sua escolha de ir viver com o dr. Jairinho foi prioritária, e fazer vista grossa para o terror que havia em casa foi a melhor forma de manter o que tinha alcançado vivendo com um político num condomínio de alto padrão da Barra da Tijuca? O dr. Jairinho é tido como psicopata e como o único agente da violência física causadora da morte de Henry, contudo Monique não fica livre de participação do homicídio, mesmo que ela tenha tomado soníferos sem saber ou por vontade na noite do ocorrido, ela consentiu de certa forma consciente que seu filho fosse vítima de uma barbárie.

Quem é Monique? Quem é essa mulher de Bangu, no Rio de Janeiro, professora, diretora de uma escola, ex-mulher de Leniel Borel, com um filho pequeno, e que em poucos meses faz uma mudança radical em sua vida: separando-se do marido, começando a viver com outro homem, o dr. Jairinho, num bairro de classe média alta e até aumentando seu ordenado por passar a trabalhar no tribunal de contas do município? Ter mais e mais sempre foi seu fraco; sua ganância era clara para seu ex-marido: „Imagino que o que a gente tinha não era bom para ela. A Monique queria muito mais e eu dei carro, dei cartão de crédito. Dei tanta coisa para Monique nessa vida.“ Também seu narcisismo é mostrado nas fotos, nos selfies, „ela sempre aparece na frente, Henry atrás. Eu sempre estava em último plano. Em dez anos de casamento era ela sempre na frente e todo o resto para trás“, disse Leniel Borel. O selfie que ela fez na delegacia no dia do seu primeiro depoimento, exibindo – como a Monalisa – um leve sorriso de satisfação ao ver-se na câmara do celular ojerizou-me, foi a revelação de uma pessoa superficial e centrada não mais que em suas próprias prioridades. Assim como sua ida a um cabeleireiro no dia seguinte ao sepultamento de Henry, sua obsessão por roupas, sua posta em cena me irritaram, nos irritaram a todos nós sabendo que sua concentração narcisista a impedia de defender seu filho, de sentir por ele. É que a falha trágica de Monique foi esse enorme narcisismo carregado de valores burgueses decadentes; e a sua culpa foi ter consentido indiretamente o parceiro cobrar o conforto que lhe dava – pois nada foi de graça e por amor – com agressões físicas no menino, e isto já tinha sido constatado antes de sua morte pela babá e pelo próprio Henry que chorava, não queria viver na casa da mãe e do „tio“, falava que a cabeça lhe doía e das rasteiras que recebia. Havia um clima de violência na casa, mas até ela ser desmascarada e acusada, já foi tarde demais, pois Henry já estava morto.

Henry, segundo o que pude apurar, era um garoto sensível, muito apegado à mãe. Transtornado e nervoso – acho eu – ficou com a mudança do lar, com o novo estilo de vida, a presença de um outro homem na vida de sua mãe, uma nova escola, diversas atividades e as idas e vindas para ficar com o pai. Monique não pôde avaliar isso, como não pôde proteger o menino, ou pelo menos acreditar nele quando contava que o „tio“ o machucava. Do seu laudo de óbito foram constatadas 23 lesões, sendo a laceração do fígado e a hemorragia interna de força incisiva, penetrante. O algoz, como médico, sabia bem onde estava pisando, chutando, dilacerando.

Não posso esquecer o Henry; todos os dias reviso notícias, procuro saber como anda o caso tendo a mãe e seu parceiro acusados de sua morte, mas no fundo há muito mais gente indiretamente responsável, que com suas intervenções precisas e de antemão poderiam ter evitado a tragédia. Aqui incluo o pai, os avós, a empregada temerosa, a irmã do acusado, que o conhece tão bem. Sem embargo, para isso, seria preciso ter coragem, uma coragem ética que abarcasse o valor da vida da criança e fosse além das relações familiares, dos mitos religiosos, da indiferença de todos, porque por trás das aparências todos sabiam que o menino Henry estava sofrendo, e só a babá comunicou isso à mãe e à avó materna, o que ainda não foi suficiente e levado como „mentiras“ de criança, só que criança nessa idade não mente.

Espero que o dr. Jairinho e a Monique assumam o mal que fizeram ao Henry levando-o a perder sua vida tão cedo. Mas não é que eu esteja esperando demais de um psicopata já declarado e de uma mãe extremamente narcisista?

Próximo artigo: 25/5/2021

ATENÇÃO MULHERES, FUJAM DOS HOMENS QUE…


 
    

Lendo sobre porque a agressão, a violência e os homicídios são quase exclusivos dos homens, deparei-me com uma pesquisa de cientistas canadenses da Brock University St. Catharines, a qual diz que há uma relação de largura e comprimento da forma do rosto como um grave índice marcador de comportamentos agressivos, raivosos e violentos. Homens que têm o formato do rosto mais largo que comprido, mostram já nesse aspecto mais potencial para agressividade que outros.

Ora, não vamos sair por aí medindo a cara dos homens, e mesmo que na opção de procurar parceiros por aplicativos apresente-se a chance de observar bem a forma do rosto dos candidatos como eventual prevenção, não é isto o que quero me deter aqui neste texto, pois tais pesquisas são importantes, mas também relativas, e servem sobretudo às investigações policiais de crimes e homicídios. Critérios pessoais devem entrar na escolha do parceiro, e os pressupostos são tão variáveis como as necessidades de querer ter alguém, ficar com alguém ao lado. Minha mãe não conhecia a palavra misógino, este para ela era um homem ruim, malvado, que fazia sua mulher sofrer. Dizia minha mãe que aquele que tinha outras mulheres ou uma amante era um safado ou um cachorro – e todo homem era cachorro, menos seu pai, ou seja, meu avô. Dentro dessa moldura vi quadros horríveis de casamentos malogrados, mulheres sofridas, infelizes e abnegadas, umas coitadas cujos valores próprios estavam na dependência, no amor aos filhos e ao lar e no poder de suportar as dores. Essas mulheres não tinham como se separarem de seus maridos, se isso acontecia era porque os maridos tinham deixado a casa com elas e as crianças. Ouvi muitas vezes que o casamento era coisa muito mais de sorte do que de amor; este era do empenho delas, aquela era a loteria, na qual elas tinham de jogar.

Hoje as coisas têm nome. Mesmo estando mais divulgado entre as mulheres o que é misoginia, que o patriarcalismo é uma estrutura de poder que só favorece aos homens e que o sexismo é uma forma de discriminar mulheres só porque estas são mulheres – entram então estes fatores como alertas de perigo em seus pretendidos relacionamentos? Acredito que ainda é difícil para uma mulher jovem começar um relacionamento pretendendo que ele seja duradouro. Assim como é difícil para todas como terminá-lo. A dificuldade está em que precisamente hoje vivemos em plena divulgação do feminismo, dos esclarecimentos, do MeToo e dos protestos ao patriarcalismo, ao machismo, ao racismo e, sobretudo, ao feminicídio – o que faz com que homens se sintam mais inseguros. Será que tudo isso é considerado e prioritário na escolha do parceiro? Ou são eles esvaídos pela mera paixão do início ou das necessidades intrínsecas? Acho que quanto mais o feminismo avança em defesa – entre outras coisas – da igualdade de direitos, o trabalho de conscientização de uma mulher tem que ver com seu meio, suas experiências e a sua disposição de ser um agente de demandas para ela mesma, daí que tudo concorre quando uma mulher quer se relacionar com um homem.

Vi com interesse influenciadoras jovens em canais do Youtube falando do que se deve ou não fazer para se ter um relacionamento feliz; ou passos para conhecer o amor de sua vida; ou mesmo os tipos de homens que afastam as mulheres. Estes temas antes eram mais escritos e cobertos de moral; hoje elas falam deles com muito humor e quebrando sua seriedade para torná-los alcançáveis. Letícia Lecato é uma dessas jovens bravas que no seu canal do Youtube fala com temperamento sobre diu, mamilos, clítoris, pompoarismo e até de temas existenciais como „E se eu não me casar?“ Em seus últimos vídeos pareceu-me ela mais amadurecida, mais concentrada e já não rindo tanto, até tocando de leve, mas explícita em questão de gênero: Um dos sinais do homem maduro é que „ele não rotula aquilo que é coisa de homem e aquilo que é coisa de mulher“. Quando ouvi isso, vibrei, pensei: agora ela vai disparar e chegar no nó da coisa. Não. Letícia Cecato disse apenas que nem precisava falar sobre aquilo. É que o problema é tão óbvio e repetido que se pensa não valer a pena discuti-lo. Errado. Ele agora tem um nome – problema de gênero – e espero que ele seja tão abordado quanto o racismo, o trabalho forçado de pessoas, os crimes contra a humanidade e o meio ambiente.

Como Letícia Cecato fala de sinais, homens deixam sinais que por mais sutis que sejam ao início, serão cada vez mais desvendados ao passo que trabalhemos contra relacionamentos abusivos, onde agressões e violência contra as mulheres são o topo dos problemas. Esta é a pauta. Hoje não só sabemos mais que antes da existência deles, como temos construído um manancial que nos ilustra e nos fundamenta. Ocorrências diárias contra mulheres levam a protestos de ruas e nas redes sociais, #hashtags, estatísticas alarmantes – estamos vivendo o tempo de dizer BASTA: – Homens, basta de tratar as mulheres como se elas fossem estúpidas e seus pertences; basta de impedir ou distorcer a expressão das mulheres, como se elas não tivessem o que dizer; basta de ter as mulheres sob seus controles, tolhendo-lhes a liberdade de serem o que são e o que quiserem. E mulheres, basta de acreditarem em amores vazios, achando que o amor tudo vence; basta de se iludirem por promessas não cumpridas e basta de achar de que só com um homem poderão ser realizadas.

É que os relacionamentos têm de sair da esfera única emocional e egoísta de querer ser amados incondicionalmente e de que a vida a dois existe com o fim de trazer felicidade. O relacionamento existe para que os dois se conheçam, se desenvolvam, cresçam como seres juntos e separados ao mesmo tempo. Isto é muito maior do que os obsoletos happy end „ dos filmes e a ilusão do “assim serão felizes para sempre“.

Como é bom e fácil teorizar! Mas se não tomamos isso como uma receita, podemos pelo menos entender como uma proposta, um antecedente já em curso e impossível de voltar atrás. O feminismo com suas interseccionalidades trabalham pela igualdade dos seres humanos e são tão fortes, corajosos e humanitários, que nem é preciso viver teorizando – o feminismo, no qual eu acredito, existe para que vivamos melhor uns com os outros.

Próximo post: 30/4/2021

„OLHA GENTE, SONHAR É DE GRAÇA“

   

Era uma vez uma influenciadora digital chamada Ygona Moura que contava com mais de 170 mil seguidores nas redes sociais, entre positivos, assim como o contrário – também de perseguidores nefastos. Não sei nada sobre seu nascimento, seu verdadeiro nome, sua infância e escolaridade, mas sei que cerca dos vinte anos deu-se conta de que como travesti se sentia melhor. Sua morte repentina e prematura me comoveu, e deu-me conta de quanto teria gostado de entrevistá-la numa conversa aberta e franca.

É verdade que todos nós temos nossos talentos, mas só poucos são capazes de usá-los para influir milhares de pessoas como Ygona fez na internet, e mesmo tornando-se a rainha dos memes, a mamãe Ygona, a travesti de longas perucas coloridas, com lentes de contato esverdeadas e maquiagem pesada, não era ela nenhuma modelo da Heide Klum, pelo contrário seus 100 quilos de peso foram comemorados num ambiente cintilante de princesa, com balões dourados e bolo de calórica cobertura cor de rosa, o que reitera o que já tinha afirmado: „Não nasci para ser adulto“.

Ah, esses corpos! Corpos grotescos, balofos, barrigas penduradas nos coses das saias, traseiros enormes que se mexem eroticamente rítmicos para frente e para trás. Corpos que emanam gordofobia em muitos, mas também corpos estuprados, ou que se vendem por algo e que não querem só dar prazer, mas também tê-lo. Corpos que atravessam as emergências do dia a dia, saturados de vivências e, que, feitos pelo que dizem deles, significam pelas suas práticas. Ygona Moura usou seu corpo como demonstração de sua identidade e para confirmar suas preferências sexuais, travestiu-se daquilo que não lhe foi assinado – o sexo feminino – o exagero de sua aparência correspondeu a seus desejos de cobrar o prazer, mas não só isso, descobriu que podia aparecer como ela mesma, postando fotos, gravando memes e vídeos .

Numa entrevista de Youtube com a famosa cantora e conhecida na web, Inês Brasil, falou de seu início na mídia; ela ficou conhecida por ataques de gordofobia – „é inveja“, assinalou Inês Brasil – mas Ygona seguiu sem ligar para as críticas, sempre „batia de frente“, até que verificou que também havia aceitação: sua resistência e insistência em prosseguir lhe garantiu mais e mais seguidores – Ygona estava fascinada. Quando o número de impressões superou o de um milhão, não entendeu o que aquilo significava – seria o total de seguidores? Não. Ela deixou-se esclarecer, o que contava eram as mensagens positivas que ela recebia: „Muita gente aprendeu a se amar mais, a se aceitar mais“, quando começou a acompanhá-la na internet. Isto foi o positivo de suas incursões como influenciadora; seus deboches frente ao perigo de contaminação com o vírus da covid-19 não devem ser apagados em nome de deixar intacta sua memória, nem justificá-los com a sua morte como dívida pagada. Ygona Moura também vai ser sempre lembrada pela sua libertinagem, sem que seja, porém esquecido o que a conduziu a isso. Como sobreviver em meio às restrições impostas pelas medidas sanitárias como prevenção de infecção pelo coronavírus? Os que dependem da rua e de clientela que o digam. Esses corpos, cuja existência é minimizada, cobram vida; e se aglomerações não são recomendadas, ao mesmo tempo que a proibição delas nunca foi meta do governo federal de Jair Bolsonaro, pelo contrário; esses corpos estão desprotegidos e descaminhados.

Não acho que essas festas referidas por Ygona sejam só pelo prazer gratuito de diversão. Não. Acho que nelas bases de subsistências são expostas aos negócios, não importando o risco. No seu vídeo após ter pernoitado numa dessas festas, disse Ygona que aglomerou mesmo, e movendo os dedos para simbolizar dinheiro, acrescentou: „e ganhei bem pra isso“. Não sei o que ela empreendeu na festa para ter sido paga, nem ninguém perguntou por isso, mas já era sabido de suas dificuldades financeiras e com seu irmão que, segundo um vídeo desesperado, conta ela, tentou matá-la, ficando Ygona sem ter para onde ir. Pessoas como Ygona, desempregadas, evitadas no mercado de trabalho, têm muito pouca chance de manter-se por si mesmas, assim todo tipo de favor prestado pode ser fonte de um dinheirinho. O corpo não só é fonte de capital, mas também centro de produção sexual, enquanto é dado a ser visto, desejado, invejado, ou até repelido. Espero que seus seguidores fiéis, os que se entretiveram-se e aprenderam com ela, tenham feito alguma merecida doação pelos seus vídeos – um arquivo de inúmeras horas de exibição, onde ela expõe seu corpo, sua vida, seus memes e suas emoções nas plataformas das redes sociais. E observando alguns deles, dei-me conta da precariedade do ambiente onde vivia, das paredes frágeis e da composição básica dos elementos presentes. Ygona não encobriu sua pobreza.

A permissão da própria privacidade ao público como produto de consumo sempre me chocou, mas para Ygona isso era como rotina de trabalho, pois quem elege uma ou mais redes sociais como plataforma para autopromover-se, tem que ter tempo para a labor, estar disponível e ativo para entrar em ação. Vi uma aparição de Ygona no banheiro – parecia mais que o que tinha a dizer era mais importante que o lugar onde estava – tomando banho, a água do chuveiro escorrendo atrás de seus ombros e o peito quase todo à mostra. Pedi a Deus que a câmara do celular não mostrasse mais que isso – Ygona apenas escovou os dentes a seguir. Ela se dava a esse luxo de jogar com o não convencional e encontrar seu lugar na mídia, adorava aparecer e afirmar-se como travesti – pelo menos não percebi em seus vídeos o descontento e o desejo de mudar materialmente de sexo – e esse passo era sua vez de dizer, sem vergonha, que queria um macho, „ou um amigo“.

Não constatei um olhar maldoso, nem sarcástico em Ygona – que também devem ter ocorrido – mas bem a necessidade de afirmar-se, – como diva? – de exibir uma beleza, sua beleza travesti, de poder superar-se, mas também sensível e grato a todos que a seguiam e ajudaram-na com vaquinhas para compra de um celular ou arranjar uma moradia. Isso mostra o quanto Ygona era carente, e a chance de participar na mídia, fazer-se conhecida, ganhar um nome era muito importante para ela. Por outro lado que mais poderia esperar, como negra, obesa, travesti, num país de grandes desigualdades sociais e racista como o Brasil? Ela também conheceu o lado cruel das redes sociais, sofreu com as fake news sobre sua vida, mas sobretudo Ygona continuava, tinha paciência, sonhava. Eu imagino que ela sonhava em alcançar o que a tornasse uma influenciadora de milhões, uma travesti adorada e tão independente economicamente que pudesse comprar um apartamento de luxo. Na sua viagem ao Rio de Janeiro em dezembro de 2020, Ygona olhou para edifícios de apartamentos numa zona nobre da Barra da Tijuca, e perguntou-se: „Será que um dia vou ter um desse?“ „Podia ser aquele, ou aquele outro, ou aquele outro“. „Olha gente, sonhar é de graça“. Ygona Moura faleceu no dia 27 de janeiro de 2021 por consequência da covid 19. Ela tinha 22 anos.

REBECCA SOLNIT E OS DOIS LADOS OPOSTOS: O NOSSO LADO E O OUTRO LADO

        

Andava buscando algo para ler que reiterasse o que penso sobre negacionismo e polarização; apesar de existir muito sobre os temas, queria algo que me confirmasse e que falasse por mim; foi quando visitando uma web alemã, Blätter für deutsche und internacionale Politik, que encontrei um artigo cujo título me chamou atenção, algo como, por que não devíamos ser transigentes com nazistas. E para a minha surpresa o artigo era de autoria de Rebecca Solnit, já minha conhecida desde que descobri seu famoso ensaio em 2017 “Os homens explicam tudo para mim“ e escrevi sobre ele um artigo para este blog.

Seu artigo On Not Meeting Nazis Halfway de novembro do ano passado, após as eleições americanas e publicado pela Literary Hub aponta para um tema atual, o dos discursos radicais, dos posicionamentos extremos e das confrontações até fatais e tão presentes na mídia do nosso dia-a-dia. Pelo menos uma vez já pensamos se de súbito poderíamos entrar em tal situação? Eu já pensei muito sobre isso, mas não como um momento de risco de vida, nem por estar querendo me expor a ele, e nem por precisar de um momento desse para extravasar minha raiva, o que seria a opção mais desfavorável e até perigosa, mas sim ao deparar-me com ele numa conversa sem que se esperasse o assunto viria à tona, ou, o mais provável, em público desencadeado por racismo, misoginia, ou – maus-tratos a pessoas, animais e à natureza.

Seu ensaio longe de ser um manual de se como proceder frente ao inimigo, aquele que está do lado oposto ao nosso, apela para a clareza.


O fato é que a sociedade americana em sua grande maioria está dividida, e isso ficou mais nítido desde que Donald Trump candidatou-se a presidente, venceu as eleições em 2016 e seu eleitorado foi mostrado de forma “folclórica”: a maioria branca, nacionalista e sem pudor de exibir suas armas; mas também pessoas desgastadas e sofridas pela perda do status econômico e pelas restrições do desemprego. Essa gente se sentia desprezada, e daí a confiança no presidente, no homem que prometia ressuscitar o país e fazê-lo grande novamente, um projeto nada modesto, mas bem megalomaníaco; para mim impossível, mas condizente com uma mentalidade que se crê no centro do mundo.

De onde vem „a sensação de não ser respeitado“? Rebecca Solnit cita Paul Waldman, do Washington Post, para excluir causas diretas de falas e programas dos democratas – como se crê – apontando para um conteúdo enorme de discursos dirigidos aos brancos, metendo-lhes na cabeça que sem respeito eles são olhados de cima para baixo, e não são levados em conta pelas elites liberais, pelos políticos democratas. Para dar-me conta do que isso significa, vi uns vídeos das manifestações pró impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Também no Brasil a mesma engrenagem funcionava impondo narrativas falsas, disseminando mentiras. Seria descabido aqui querer apagar os erros de Dilma Roussef e os do Partido dos Trabalhadores, mas as consequências daquela campanha imunda foram bem maiores do que os retrocessos políticos do PT, descambando na situação política que ora passamos. Gritos, descargas de repúdio à ex-presidenta e ao seu partido – o ódio estava instalado do outro lado, o país estava dividido e não havia meios-termos conciliadores, o que se fez repetir nas eleições de 2018 para a presidência – a extrema polarização eliminou facilmente candidatos de renome como Ciro Gomes e Marina Silva, mas não eliminou o PT, indo para o segundo turno eleitoral contra o candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, que para nossa incompetência venceu as eleições.

Infelizmente o Trumpismo é maior do que Trump e vai sobreviver na era de Joe Biden como um projeto ideológico de brancos fascistas; negacionistas das investigações científicas quanto às mudanças climáticas e precauções contra o coronavírus; antifeministas; racistas; anti-imigrantes; contra as comunidades LGBT+, e assim vai. Essa gente forma um lado, um lado obscuro, e Rebecca Solnit se coloca do outro lado – eu também. Pois como encontrar meio-termo de conciliação? Como posso aceitar um racista se sou feminista e tenho amigos negros e imigrantes? – Seria como querer servir a dois deuses. Como posso concordar com coisas, nas quais não acredito? E mais: „A verdade não é um compromisso em algum lugar entre verdade e mentira, entre fato e ilusão, entre ciência e propaganda.“ A verdade sobre a forma da terra não pode ser alguma coisa entre um disco e uma esfera; a verdade que ela é uma esfera é um fato comprovado, explica Solnit.

Outrossim, expressar-se como a favor ou contra é puramente democrático e deve permanecer; discutir por opiniões divergentes pode até ser positivo, mas a isso não me refiro, e sim à defesa de princípios, o que muitas pessoas não sabem distinguir. As opiniões podem ser vagas, gerais e até mudarem; os princípios são profundos, arraigados, difíceis de mudar. Se concordo com a opinião de um fascista, só para obter uma conciliação pacífica, estou ferindo meus princípios e iludindo-me ao pensar que o problema foi resolvido porque o respeito venceu ao calar-me. Mas que o tem que ver respeito com a situação? Nada, como também o contrário dele. A situação deve ser encarada por outro ângulo, o do posicionamento honesto para não misturar as coisas e evitar saídas conciliadoras e „terapêuticas“, terminando por legitimar e engrandecer o outro. Aqui Solnit dispõe-se a sugerir melhores discursos, „narrativas que alcancem a todos“, pois „uma atitude amigável e acolhedora tem mais probabilidade de libertar o outro de seus delírios“ do que chamá-lo de burro ou monstro – o objetivo é trazê-lo para o nosso lado, e é aqui onde titubeia nossa capacidade, já que o outro lado fortaleceu sua narrativa e „vangloria-se“ dela – temos que saber nos colocar, apresentar fatos e não „espalhar fantasias“.

Para Rebecca Solnit o problema são as políticas conciliadoras. As medidas governamentais para amenizar os desastres ecológicos e as alterações do clima; a saída tardia da base econômica do carvão é a prova desse descuido. Mesmo assim essas medidas são atacadas pelos do outro lado, só que eles não apresentam fatos em lugar de mentiras, seus moldes são de aplicar correção ao nosso lado.

Uma coisa é enfrentar-se com uma pessoa do outro lado, tendo esta abertura para falar sem que se corra risco moral, e outra é enfrentar-se com um nazista declarado – com este não quero me deparar –, e quaisquer que sejam os sinais de agressão ou violência do outro lado, o melhor a fazer é buscar proteção, e pessoas que não recebem ajuda num momento desses, podem levar a pior. O mesmo para misóginos, machistas, transfóbicos, anti-imigrantes, racistas… A violência não se justifica. Por outro lado não é fazendo concessões que se elimina comportamentos abusivos de maridos, como se pensava; não é se calando que se apazigua um racista, pelo contrário, o engrandece mais; e não é com admitir um assédio por medo das consequências a posteriori que se livra do opressor, ao revés, ele se sentirá mais forte e seguirá assediando. Um nazista nunca passará para o nosso lado, „a não ser que ele deixe de ser nazista“, segundo Rebecca Solnit.

Conquanto as sugestões de Rebecca Solnit parecerem teóricas, pois o momento, o enfrentamento com o outro lado, é muito mais complexo e imprevisto do que se imagina, fica a sua observação inteligente e afiada da situação como contribuição a que aprendamos. Pode-se começar em casa, transmitindo às crianças o valor de economizar elementos da natureza, como a água e a energia; e melhor do que ensinar o quanto está errado deixar vasilhas plásticas na praia é apanhá-las e levá-las a uma lixeira. Com esses pequenos passos crianças e adultos aprendem o que é ter coragem e iniciativa civil, servindo como exemplo para outras situações. E isso não é o nosso projeto de futuro, se queremos um mundo melhor?

        

Próximo post: 16/2/21

A GAROTA DO CONTRA

               

A modo de clichê ela é uma garota de aparência comum para o norte da Alemanha: cabelos louros e longos, pele clara de porcelana como uma Barbie, os olhos azuis salientados pelo espesso rímel – uma cara de boneca. Ou uma figura inspirada numa fada num fundo cor de rosa cintilante com estrelas faiscantes; produto perfeito para entrar em cena; uma confecção sob medidas para sustentar a ilusão da confiança de seus seguidores no youtube, onde tem aparecido desde maio de 2019 relutante, pregando o evangelho do negacionismo, aliás uma nova corrente – um micróbio – das teorias conspiratórias, que afirma, entre outras coisas, que as mudanças climáticas não são consequências da ação do homem sobre o planeta, mas sim um processo contínuo e natural aliado a fatores de influências ligados ao planeta, como o sol e as núvens.

Essas explanações são tentativas de subverter resultados de investigações científicas sobre o aquecimento global e as alterações do clima, apresentando outros dados com base em pesquisas de alguns suspeitosos institutos como o Heartland Institute, uma Think Tank americana, para o qual Naomi Seibt trabalha – um de seus financiadores é a indústria de tabaco e petróleo – o EIKE, Instituto Europeu para o Clima e Enérgia na Alemanha – no fundo é mais uma associação. O Brasil e os EUA são exemplos de incluir essas ideias como versão oficial na pauta do meio ambiente. Donald Trump nos seus quatro anos de gestão não participou dos Acordos de Paris; Jair Bolsonaro o seguiu em linha direta.

E é aqui onde entra em cena a nossa Barbie, acima referida, pois ela – que agora tem um nome: Naomi Seibt – é figura importante em divulgar ideias negacionistas apoiadas por políticos, profissionais, jornalistas, empresários de direita e pseudocientistas, alertando a necessidade de pensar para escapar do pensamento imposto e dominante, e dizendo-se inspiradora para aqueles, que por medo, não são capazes de sustentar uma opinião própria, mesmo estando contrários ao mainstreem, (este sendo principalmente a versão oficial do governo alemão que, mesmo devagar, dá alguns passos na proteção do clima.

Naomi Seibt nasceu em Münster, no oeste da Alemanha na região da Vestfália em 2000. Sua mãe é afiliada ao AfD – Alternativa para a Alemanha – um partido bem de direita que tornou-se mais forte estando contra as medidas da chanceler Angela Merkel ao deixar em 2015 refugiados, sobretudo muçulmanos, entrarem no país. Sua frase-argumento para socorrê-los, que bem lembra Barack Obama com o seu Yes, we can, virou contra-argumento da direita, não só de protestos, mas também de atentados.

Pois é, Naomi Seibt pertence a ala dos que negam, ela se vê como realista do clima, ao mesmo tempo que também é vista como a anti-Greta do clima, a post girl da direita: a crise climática mostrada pela imprensa não é justa, é fake, é produto de falsos dados científicos exagerados para fomentar o pânico e o controle sobre as pessoas, diz. Sem referir-se diretamente a Greta Thunberg, faz sua pergunta de choque: How dare You? – Como ousa? A tônica do discurso de Naomi Seibt ressalta o intento de contrariar o que Thunberg vem afirmando, ela a contradiz, o seu modelo de projeto não parece mais do que uma forte oposição à jovem ativista sueca, é como uma forma de apagá-la, e isso é tudo. Um novo produto lançado faz o negócio florescer se ele aparece com outra cara, em relação aos outros já existentes. Naomi Seibt ganha com isso, ela se reveste do raciocínio de Greta para contradizê-la: I want you to panic; Naomi objeta: I do not you to panic, I want you to think – sobrepondo o racionalismo ao suposto romantismo atribuído a Greta.

Também na aparência elas são bem diferentes. Enquanto Thunberg mostra modéstia no vestir e no arrumar o cabelo com uma trança comprida, Naomi Seibt apela para a sua imagem: em alguns de seus vídeos parece mais uma adolescente interessada em make up e xuxinhas para o cabelo – é claro que ela quer aparecer como qualquer mocinha de sua idade, e isto também faz parte do projeto. Ao ser chamada de a irmã de Beate Zschaepe, – uma dos culpados, envolvida nos assassinatos neonazistas de nove homens de origens não alemã entre 2000 e 2006 na Alemanha, – não se sentiu ferida: „é que as pessoas não me conhecem“, ou seja, se as pessoas se dirigissem a ela, isso não passaria de um engano? Por outro lado insiste em ser perseguida pelas mídias sociais e o quanto falsas declarações e comentários negativos sobre ela a tocam – até lágrimas aparecem – mas claro ela não se deixa aterrorizar por isso. Também a acusam de estimular a polarização do país; seus vídeos são endereçados aos que pensam, ou a aqueles que um dia vão pensar, como ela: „Oi, vocês que pensam diferente! Depende de nós romper o silêncio.“

Romper o silêncio é uma alusão à teoria de Elisabeth Noelle-Neumann – ela trabalhou para o governo fascista de Adolf Hitler – exposta no seu livro A Espiral do Silêncio, na qual a opinião pública e o controle social estão relacionados. Uma vez que o que forma aquela, é o que compõe a sociedade, ou seja, sistema de valores, costumes, tradições – o transmitido e o aprendido – eles desempenham também o papel de um „temido“ controle social na formação das opiniões. Assim as opiniões se espalham e divergem-se, mas o medo faz as pessoas se calarem, se suas opiniões não condizem com as demais. Noelle-Neumann acha até, que opiniões são formadas por observações no convívio entre as pessoas para que elas não se sintam excluídas. O que faz romper a espiral do silêncio é quando pessoas, ditas de vanguarda, agem, saindo do isolamento e da submissão e passam „de forma pioneira“ a fazer mudanças nos contextos de opinião – a opinião pública ganha assim um caráter dinâmico.

Não é para isso que trabalham Naomi Seibt e todos os grupos de negacionistas e partidários das teorias de conspiração com o fim de apoderarem-se de forma sistemática e exclusiva ainda mais de meios que acatem seus interesses? Como medidas políticas de proteção ao clima. É que a faca corta dos dois lados, e uma espiral sobe e desce. O que eles pensam do mainstream como a expressão da histeria, do medo de que os jovens não terão um futuro promissor; eu, que não faço parte do manistream, vejo por outro lado, esse grande número de pessoas que também se referem ao coronavírus como uma gripezinha e acham que a última eleição americana foi uma fraude – como simplesmente medrosos. Há, porém, por trás deles um aparato, um corpo bem construído de interesses financeiros e políticos que não querem perder suas posições de privilegiados em nome de quaisquer que sejam as mudanças sociais que os contrariem. Mesmo assim e apesar de pressões e perseguições as mulheres avançam em seus propósitos de autodeterminação; os negros mostram que resistem e lutam por um lugar digno na sociedade; a comunidade LGBT+… vem ganhando espaços e cientistas de verdade revelam-nos as drásticas condições da terra – são alguns exemplos. Também historiadores afirmam que nós humanos temos alcançado hoje um nível de civilização nunca existido antes – mesmo assim essa notícia não me tranquiliza.

Naomi Seibt com seu QI elevado, seu currículo brilhante, seu inglês impecável, seu talento musical e poético – ela toca harpa e escreve poemas – me deixa inquieta. Como uma menina tão dotada e educada com privilégios que eu não tive, encontra na visão negacionista de fatos tão evidentes seu próprio modo de se afirmar? Ela não só nega dados negativos e comprováveis do meio ambiente, como é contra a política de imigração; chama atenção para o perigo de uma ditadura socialista; é contra a política de cotas para as mulheres, ao mesmo tempo que critica o feminismo; não se diz de direita nem contra o semitismo, mas é simpatizante de um partido alemão muito de direita, o AfD e contribui para ele; se denomina libertária; e quanto ao aborto legalizado, diz que políticas que controlam a natalidade por medo do excesso de nascimentos não são boas. A lista de contras dessa garota parece um pacote feito de antemão e enviado ao destinador, que ao abri-lo encontra nele as instruções de uso do produto. Tenho raiva dessa garota, mas não quero feri-la com palavras – se bem que podia. Quando vejo suas fotos ou assisto a seus vídeos, não sei se seu posicionamento frente à vida mesma é de sua natureza convicta, ou se ela é uma oportunista. Naomi Seibt só tem vinte anos e por pouco li que por enquanto tem planos de ir estudar nos Estados Unidos no próximo ano. Vá com Deus garota.

Próximo post: 19/1/21

Quando a inocência não convence – uma lembrança a Meredith Kercher que não merecia ter morrido tão cedo

           

Amanda Knox, uma jovem americana, estudante de italiano na universidade, tinha 20 anos quando ficou conhecida na mídia, sobretudo a sensacionalista, pela morte de sua companheira de casa, a jovem inglesa e também estudante Meredith Kercher, brutalmente assassinada na noite do primeiro ao dois de novembro de 2007 na cidade italiana de Perugia. Até hoje não há precisão da data, mas é fato que Amanda Knox foi acusada por ter participado do crime juntamente com seu namorado, Raffaelle Sollecito, de 23 anos.

O caso Meredith kercher virou sensação na mídia internacional, mas todos estavam assombrados com Amanda Knox, a moça de aparência singela, mas de olhar frio, sem expressão de compaixão. Esta também foi minha impressão na época desde a primeira vez que vi sua foto – tive medo de seu olhar estancado, ela pareceu-me arrogante e superficial: li que Amanda gostava de estar no centro das atenções como querendo fazer da situação um show para a televisão. Se certo isso, talvez só no início, quando ela ainda não avaliava bem a fundura do poço onde tinha se metido. Depois comecei a ver fotos de Amanda chorando, parecendo mais uma menina desconsolada sem o brinquedo que lhe haviam tirado. Até hoje me pergunto por que Amanda Knox não constituiu um advogado, nem passou por um detentor de mentiras. O primeiro a teria defendido nos interrogatórios, e o segundo teria ajudado a fechar o caso mais objetivamente.

Os muitos artigos que apareceram após sua absolvição final, defendem-na em absoluto enquanto a veem sozinha na Itália e vítima da inescrupulosa e ineficiente polícia italiana – só que todos têm direito a um advogado, não? E onde estava então a família de Amanda? Ela própria afirmou que foi maltratada fisicamente – uma policial lhe bateu na nuca – além dos incansáveis interrogatórios que a deixaram esgotada – uma tortura psíquica para acabar com a sua amnésia: Os políciais de Perugia achavam que Amanda sabia quem era o assassino de Meredith Kercher e alegavam que ela tinha estado presente no momento do crime. Foi nessa fase do inquérito que Amanda Knox se comprometeu com suas próprias palavras: como em transe, perturbada por pensamentos, lembranças e imagens, ela disse que ouviu gritos, acusou seu chefe, Patrick Lumumba, o dono do bar Le Chic, onde ela dava umas horas de garçonete; e confundindo a realidade com sonho, não sabia mais o que dizer, passando a responder as perguntas com constantes „não sei“. O objetivo dos interrogatórios é arrancar a verdade, a confissão da boca do acusado, por isso e para isso existem métodos ilícitos também, nos quais policiais fazem concordatas, negociam com malfeitores por falsos testemunhos, forçam a confissão custe o que custar. O extremo desses procedimentos é abjeto e desonesto, e Amanda Knox sente-se vítima deles por ter sido levada a fazer declarações indevidas – é a sua bandeira – a de vítima de métodos injustos, e não a de ter sido culpada pela polícia de Perugia da morte de Meredith Kercher.

De 2009 a 2015 Amanda Knox e seu então namorado, Raffaele Sollecito foram julgados quatro vezes até chegarem à ultima instância onde foram absolvidos:

– A primeira condenação foi de 26 anos por indícios de culpa no crime;
– em 2011 um tribunal de apelação lhes concedeu liberdade, pois o veredicto contra eles „não estava apoiado em nenhuma evidência objetiva“, e Amanda volta para os Estados Unidos;
– em 2013 a corte suprema lhes retira a absolvição e determina um terceiro processo;
– em 2014 o julgamento termina por culpar os dois e aumenta a pena de Amanda para 28 anos e seis meses;
– em 2015 Amanda Knox e Raffaelle Sollecito finalmente foram declarados inocentes.

Que surpreendente e raro foi este resultado final. É a prova de que o trabalho policial tinha fracassado por não ter apresentado provas limpas que garantissem os resultados dos testes de DNA. Isso faz-me lembrar o caso da menina Madeleine McCann, sequestrada no sul de Portugal, na Praia da Luz também em 2007, e também aí a polícia portuguesa fracassou, perdendo-se em investigações que não conduziram a nada, e até hoje a criança não foi encontrada, e nem seu sequestrador. Entretanto Amanda Knox recebeu 18 mil euros como recompensa pelos desastrosos processos, e Rudy Guede, o terceiro envolvido no crime de Meredith Kercher, foi o único acusado como autor absoluto do homicídio porque seu esperma foi encontrado no corpo da jovem. Apesar disso a verdade não apareceu como triunfante; a inocência de Amanda e Sollecito não pareceu convencer, e eu não deixei de me interessar pelo caso, porque o intuo incompleto e impreciso – é que para mim e para muitos a história ainda não foi contada de verdade.

Amanda Knox voltou à Italia no ano passado para participar de um encontro – o Festival della Giustizia Penale – em Modena, e voltou a ser o foco das atenções da imprensa em geral que tentava captar em minúcias seus gestos. Ela apareceu incômoda em frente à mídia e tanto foi estrela como criticada. Esse evento foi organizado pela faculdade de direito local e o renomado projeto americano Innocence Project da Itália. Este projeto – Non-Profit – atua desde 1992 em favor de encarcerados por erros judiciais, e é conhecido por já ter salvado pessoas de prisão perpétua ou pena de morte. Sem Amanda Knox nesse encontro, este estaria reduzido a um pequeno público. Elena Ranzini, do comitê de organização explicou que Amanda “é um símbolo de um processo feito pela mídia de massa.” Eu assisti por vídeo a sua apresentação: lá estava Amanda Knox sentada imóvel, as mãos bem arrumadas – parecendo mais uma membra de uma família real – de frente para o público, mas sem encará-lo, apenas absorta todo o tempo no apresentador enquanto ele fazia a sua introdução. Quando começou a falar teve que se interromper pelo choro. Armada de um lenço, perguntei-me por quem chorava Amanda? Pela tragédia passada ou por ela mesma? No fundo a vítima foi Meredith Kercher que perdeu a vida, e sua família a perdeu, enquanto Amanda depois de ser aplaudida pôde recomeçar seu discurso. Falou em italiano, com voz áspera e trêmula que a dramatizou como num perfeito cenário italiano, e para mim mais grotesco que comovente de verdade. Por que ela não me sensibilizou? É que Amanda só falou dela mesma e de todas as injustiças que passou e ainda passa; de Meredith, sua única menção a ela foi para defender-se de que só com a sua presença na Itália, ela estava traumatizando a família Kercher e profanando a memória de Meredith. “Estas pessoas estão erradas. Há pessoas que gostam dessa estória, que sou psicopata, Foxy-Knoxy.” – Nada mais. A família Kercher já disse que não permitiria a visita de Amanda à tumba de Meredith – tem razão. Para quê? Para promover mais a sua própria versão usando a memória de Meredith? – Isso pareceria mais uma conveniência para o ego do que respeito mesmo.

Por outro lado seria demais esperar de Amanda que ela tivesse feito lá em Modena um paralelo entre dois destinos: o dela – marcado por um passado que a persegue, mas mesmo assim ela segue jovem e com vida; e o de Meredith, que por intenções e atos assassinos perdeu muito jovem a sua vida? Acho que sim, e é neste ponto que ela me decepciona, não me convence de sua inocência total e não me dá chance de ser compassiva.

Amanda Knox amadureceu desde que saiu da prisão em 2011; ela continuou os estudos, escreveu livros, entrou para trabalhar num jornal, casou e goza de sua liberdade. Contudo sua absolvição não a salvou: „ O mundo decidiu que eu sou culpada, e assim ficou“; o passado é a sua pesada cruz carregada como um carma quando é perguntada se foi ela quem matou Meredith: „ É que me desagrada sempre ter que repetir isso como se toda vez que sou perguntada, a minha resposta não vale“. – Se a ela desagrada ter sempre que dar respostas e explicações, não devia esquecer que a tragédia da família de Meredith é ter a sua morte sempre na lembrança.

A inocência não é algo concreto, é o estado da pessoa sem culpa de algo cometido anteriormente; por isso a inocência deve ser provada tanto pela pessoa já acusada, como pelos que a defendem. E assim começa o grande teatro dos julgamentos, como um palco estruturado e encenado por diversas partes, cada uma com o seu papel. Eu acho que Amanda Knox foi absolvida mais por inocência presumida que por falta de evidências nas provas. Segundo Renato Brasileiro de Lima no Manual de Processo Penal „ Não havendo certeza, mas dúvida sobre os fatos em discussão em juízo, inegavelmente é preferível a absolvição de um culpado à condenação de um inocente, pois em juízo de ponderação, o primeiro erro acaba sendo menos grave que o segundo.“ Isto é o que se chama de O Princípio da Presunção de Inocência, adequando-se muito bem ao seu caso.

Amanda fez uma introdução para o documentário sobre ela e o caso Meredith no Netflix – não gostei nada. É sempre a mesma posição dela implacável de defesa: ou se acredita nela ou não, pois não há nada entre as duas coisas; sendo culpada, seria ela a pessoa mais atemorizante que existe, justamente porque ela não caberia nos esquemas; mas sendo inocente, significa que isso poderia passar com qualquer pessoa, e por isso as pessoas sentem medo. E concluindo diz que ela ou é uma psicopata disfarçada, ou ela é nós; ou seja, qualquer um de nós. Pergunto-me se isso poderia realmente passar com qualquer um de nós, pois soa até como uma ameaça.

No fundo eu acho que Amanda Knox teve muita sorte por não ter perdido sua juventude na prisão em comparação com Meredith Kercher que perdeu sua vida. Contudo sua inocência no crime não a salvou, pois sua culpa não foi provada por meio de „evidências objetivas“ e portanto ainda a persegue; e como eu já disse, a história do assassinato de Meredith Kercher deve ser recontada, e quem sabe vamos conhecer ainda a verdade.

Próximo texto: 8/12/20