LICENÇA PARA MATAR

Há exatamente um mês passou em Campinas a morte de doze pessoas enquanto comemoravam a entrada do ano novo. Este post é uma forma de lembrar esta tragédia. Também  pretendo com ele promover uma reflexão mais aberta, aproveitando a vantagem que uma certa distância de tempo nos dá para entender melhor este sucedido já tão discutido.

“Agora na rua onde moro / há uma mulher sentada / e enquanto a noite vai entrando calmamente / ela diz: quem vai tirar dele a licença para matar? “ („Now, there’s a women on my block/ She just sit there as the night grows still./ She say who gonna take away his license to kill?)
São palavras que descrevem um quadro difícil, abstruso, como se fosse um sonho, que nos deixa sem saber o que dizer diante de formas que por serem tão insociáveis, se tornam tão incompreensíveis. Este quadro insólito e onírico está expresso nos versos de Bob Dylan da canção “License To Kill”. Ele os escreveu compondo um ambiente vago, minimalista, formado por poucos elementos – por mais que as palavras tenham conteúdo concreto, ainda assim nos é difícil abarcar o que significam – como ao mesmo tempo irritante, porque não sabemos quem é essa mulher que fala, sentada lá. O título da letra já nos incomoda pela audácia e pela falta de um dispositivo moral – matar pode ser justificado por uma licença? Com esta pode-se matar pura e simplesmente, o que falta é só um motivo, não importando este qual seja? – o que nos leva até a pensar que assim o título seja uma confirmação ou mesmo uma ordem de matar, sem a leitura e a compreensão do poema.
Neste poema Bob Dylan se refere ao orgulho desmesurado numa sociedade materialista e dirigida ao egocentrismo, onde as pessoas foram preparadas desde cedo para seguirem um caminho destrutivo que, com certeza, lhes trará danos futuros, ou seja, uma sociedade, na qual o homem está condenado a ser destruído por ele mesmo, mas bem por não ter podido ver além de si mesmo: “ele se venera num altar de uma piscina inerte/ e quando vê seu reflexo, sente-se realizado”: („Now he workships at an altar of a stagnant pool/ And when he sees his reflection , he’s fulfilled.“);  por não ter podido ouvir palavras que não tenham sido as suas: “Ele só acredita nos seus olhos/ E seus olhos só dizem mentiras”: („ All he belives are his eyes/ And his eyes, they just tell him lies.“);  e assim por não possuir outro mundo fora este, onde já se sente ameaçado e em vez de ir para o céu, vai ser enterrado com estrelas: “Aí o conduzem para um caminho que só lhe trará danos/ Aí o enterram com estrelas”/: („And they set him on a path where he’s bound to get ill,/Then they bury him with stars,“ …).
Bob Dylan, que ganhou o prêmio Nobel de literatura de 2016, veio-me à tona com este
poema, exatamente pelo título “Licença Para Matar”, quando horrorizada me inteirei do terrível ocorrido em Campinas na noite da passagem para o ano novo. As feministas brasileiras têm razão: é o momento de gritar, acusar e reivindicar direitos que permitam às mulheres, em suas últimas instâncias, pelo menos o direito à vida. Quem lhe deu licença para matar a sua ex-mulher, seu próprio filho, mais dez pessoas e depois a si mesmo?  Infelizmente é verdade dizer que licença para matar, a receberam e ainda a recebem muitos, se lhes convêm que crimes sejam praticados. No entanto se procurarmos as fontes deste homicídio nas páginas da bíblia, podemos explicar esta chacina pela falta de fé em Deus? E com tudo o que a falta de um discernimento espiritual pode ser maléfico na nossa vida? Não quero me prender a questões de fé religiosa, pois até em nome de Deus ou de Cristo ou de Alá muitas pessoas foram mortas, e já se fizeram muitas guerras como ainda se fazem, embora suas causas no fundo, dizem muito mais respeito a outras questões: ideológicas por exemplo. E também porque tal explanação não caberia dentro dos ditames feministas, ora fortemente removidos e empregados com razão a defender suas causas, o que torna este crime  em nossos dias tomar outra dimensão com respeito a ser questionado. No século passado teria sido diferente… o ocorrido teria ficado nas mãos da polícia; o povo teria estado mais assustado e menos aclarado; a opinião pública teria estado mais dividida – não escapando as acusações à mãe: “como é possível que uma mulher impeça o pai de ver o seu filho!” – E as mulheres? Mais vulneráveis e mais temerosas. Entretanto não estamos mais no século passado, já estamos esclarecidas de muitas coisas e aprendemos com nossas próprias experiências para afirmar que o trabalho e a luta de conscientização da mulher no seu papel de esposa, mãe, companheira, trabalhadora, amante …  foi e é produtivo; mas nem por isso deixa-lhe incólume à ataques e até riscos de vida. É quando nos perguntamos se o fato de termos lutado para estar mais conscientes e seguras do que queremos  é suficiente para nos garantir um futuro promissor. Não é. E pode até ser perigoso, porque toda luta implica em combater os inimigos, e estes tendem a se revoltarem.
O machismo como ideologia  é uma afronta narcisista, não só contra as mulheres, mas também  a outros seres considerados pelo machista como inferiores, e crianças também podem ser um exemplo disso. Já sabemos que ele é despótico; tanto abusa, principalmente das mulheres, como as oprime por não aceitar que junto com elas poderia ser criada uma relação fundada no amor e em valores morais, tais como, o respeito, a lealdade, a fidelidade, a confiança, a justiça e outros mais. É neste ponto onde o machista mais fracassa, pois considerando o seu comportamento como um lema institucionalizado de vida, carece por isso mesmo da capacidade de amar, como bem diz Rómulo Sánchez Leytón no seu artigo “Machismo na América Latina”: “Como o machismo menospreza o amor natural, abre assim o caminho para violação ou gravidez indesejável” … , ou seja, todo ato de violência de um homem contra uma mulher tem como princípio a sujeição dela a ele, como necessidade de provar seu domínio e autoridade frente a ela. Como todavia esperar que ele a ame ou que ela o ame?
As feministas ainda têm razão quando denunciam essa pretensa superioridade do machismo, com o fim de deslegitimar  a discriminação contra as mulheres, como também com o fim de parar com coações, humilhações e mortes, como vemos no Brasil em proporções consideradas bem avançadas.
Por outro lado como reagem  machistas frente ao empenho sem pausa de feministas em acusá-los de seus atos infames? Em confrontá-los com a sua tirania e em mostrar-lhes seu caos interior? Sob a influência da emancipação da mulher numa sociedade, como a brasileira, por exemplo,  e a consequente aquisição de mais direitos em seu favor – embora alguns destes ainda não funcionem de forma integral – muitos homens podem descambar numa total desorientação, e em se tratando de machos, podem reagir ainda com mais violência por se sentirem fortemente atacados. É o nosso caso em questão?  Ele – que ao sentir-se desamparado, excluído de um mundo em vias de rebelar-se contra às suas convicções, fazendo suas colunas estremecerem – procurou com as suas próprias mãos „fazer justiça“: no fundo um ato solitário e cruel de um macho indignado, movido pelo medo e desespero de perder seus direitos, e também seu trono? Não sei. No entanto ao ler trechos de sua carta esclarecedora dos motivos do seu crime, não me pareceu que ele tivesse tido um, mas bem dei-me conta de um homem extremamente revoltado, isolado e fechado em si mesmo, encontrando na vingança o meio de descarregar seu ódio contra familiares de sua ex-mulher, na maioria mulheres, que para ele, eram elas a causa de seu desespero pela separação do seu tão”amado” filho. A meu ver no convívio entre pai e filho se encontra o que ainda não temos conhecimento ou nunca vamos tê-lo: que tipo de relação, na verdade, tinham os dois, chegando o filho a afirmar que quando crescesse mataria o pai? E embora nutrindo grande afeto pelo filho, por que escolheu o pai como forma de matá-lo uma verdadeira execução?
Também observei sua incapacidade de refletir sobre a situação, a que o conduziu a estruturas reduzidas de pensamento, formulando-as em categorias de causa e efeito ou de bem e de mal. É o que vemos em suas frases quando divide as mulheres entre boas e más, sendo estas tachadas de vadias; quando as vadias são feministas e ardilosas, ou quando diz que o feminismo é um sistema – desconhecendo assim de fato que esse „sistema“ é um movimento político e social? – Não importa se a sua definição de feminismo esteja correta ou não, e aqui não pretendo julgá-lo, mas sim ressaltar uma expressão movida por sentimentos de inferioridade, ira e vingança: uma vingança que o levou a sacrificar não só a sua vida, como também a de outras pessoas . Para mim sua falha trágica foi a de não ter sabido usar suas fronteiras. Mas isto não é o que implica o fenômeno da violência machista?
Levando em conta que a violência – também existindo entre as mulheres, embora em  proporções menores – é um fenômeno muito complexo hoje em dia, pergunto-me o que nos falta acrescentar a mais à parte das acusações, das denúncias e até das leis às arbitrariedades do machismo? Está a nossa linguagem já equipada suficiente de intenções que favoreçam um diálogo? Ou, como muitos acreditam, é impossível homens e mulheres dialogarem? Acho que não, mas para isto é imprescindível que as duas partes estejam preparadas, e foi o que faltou a Isamara Filier e a Sidnei Ramis de Araújo.

Um Natal Diferente

Desde setembro já sabia que iria passar este ano um Natal diferente. Esta claridade rápida como um relâmpago não me veio nem como um protesto, nem por aborrecimento ou preguiça, mas bem por uma forte intenção, desencadeando  em mim atitudes e decisões claras que me levaram já em pleno mês de dezembro, mês de estresse pelas super-compras, a sentir-me aliviada e leve, sem a pressão das listas de presentes de antes, das várias idas ao supermercado -porque sempre se esquece de algo – e da obsessão pela ceia de Natal. É que vivo num país, no qual o Natal é uma grande celebração familiar onde as comidas e os presentes estão no centro e são até mais importantes do que o seu próprio sentido cristão. Considerando    isto, parti não querendo desejar nada: roupa nova, sapatos da moda, um perfume sedutor, a bolsa que sempre quis ter… “Nada disto”, disse-me categórica, sem medo de assumir o meu novo “outfit”, cujo modelo me cabia muito bem pelo momento e continuei assim segura de minha decisão até ao ponto em que comecei a perguntar-me inquieta: “mudei tanto assim que cheguei ao ponto de não querer saber nada de Natal?”, “É o peso da idade ou não estou mais segura?”
Toda decisão envolve tanto aspectos emocionais como racionais, podendo ser os primeiros até bem mais fortes do que a imposição de uma cabeça fria. Para reiterar isto posso lembrar o caso de Elliot, um paciente do famoso neurologista e neurocientista português Antônio Damásio, que o operou de um tumor na parte pré-frontal do córtex, ou seja, bem atrás da testa nos anos 80. Após inúmeras conversações com o seu paciente, Damásio verificou que Elliot, apesar de não ter perdido a memória nem a inteligência, não nutria sentimentos; tudo lhe dava a mesma impressão e não podia tomar decisões: „Não captei emoções e sentimentos nele, como tristeza, frustração e impaciência“, afirmou. Era que o tumor de Elliot, embora pequeno, estava localizado na parte do cérebro responsável pelos sentimentos e pelas emoções. Damásio deu-se conta de que o problema de Elliot em não poder decidir era porque lhe faltava  a capacidade de sentir, ou seja, ele precisava de um tempo quase interminável só para escolher um prato do cardápio.
Até então, ainda o século vinte, dominava o pensamento cartesiano que separava corpo e mente; se julgava que a nossa capacidade de decidir com acerto residia na razão; as emoções e os sentimentos só atrapalhavam; mas não para  Damásio que já pensava o contrário: „sem sentimentos estamos desamparados“ e escreveu um livro que o deixou famoso internacionalmente em 1995: O Erro de Descartes – Emoção, Razão e o Cérebro Humano.
Voltando a mim e as perguntas que me fiz quanto à minha resolução, elas só me ajudaram a contemplar melhor a minha situação e ver-me como agente de uma decisão bem devida, mas que tomada a priori, só pelo lado da vontade. O fato de que as perguntas me inquietaram foi porque faltaram na minha decisão os elementos racionais e de conhecimento; no fundo eu não sabia bem em que iria resultar esse boicote, apesar de ele só me favorecer em poupar-me  estresse. „Então, por que é  que estou boicotando as festas natalinas?“ „ Acho que você está muito negativa.“, me disse uma pessoa ao acabar de ouvir o som de minha trombeta, sem que esta tivesse anunciado a entrada do Natal. Boicotar ou estar negativa são etiquetas que nada valem se não procuramos a razão da nossa insegurança. Acho que não sou a única „neste mundinho de meu Deus“, como canta a Rita Lee, procurando outra alternativa, tentando encontrar-me a mim mesma sem ferir os outros – o que é muito difícil – usando a intenção para explorar outras vivências; e não por estar envelhecendo – como pensei – pois isto é algo natural, acontece independentemente do meu querer. O que tentava era, por outro lado, algo individual, dependente de um processo consciente. Queria amadurecer. E para amadurecer é preciso fazer alguma coisa, concluí.
Festejar o Natal é um fato; deixar de fazê-lo como é mister, também é um fato, e mesmo assim o Natal não deixa de existir para aqueles que o boicotam; continua existindo sim,  mas fora da onda, e esta, impregnada de apelos do comércio, leva as pessoas a cumprir o que a publicidade manda, instituindo uma fórmula de como ter boas festas. Dar ao Natal, hoje em dia, seu tom religioso não é mais natural; esta festa cristã foi transformada em festa do consumo que já  traz de ante-mão um modelo estilizado de alegria, quanto ao que se deve cumprir para encaixar-se bem no espírito dele. Normalmente as mulheres estão no centro desta festa e sentem-se responsáveis, às vezes sozinhas, por toda a festividade, incluindo as comidas, a decoração… Quem pensa melhor do que elas na roupa das crianças e nos presentes? E não só isso, embrulhá-los também.
Como tradição o Natal é antônimo de solidão e querer afastar-se de tudo aquilo que o compõe como uma festividade forçada é difícil e pode até ser visto isto como uma traição, pois a sua celebração é um ritual que implica sobretudo em estar em harmonia com o outro – é a festa do amor – mas que também pode ser um suplício para muitos  -ou a data ideal para provocar brigas entre  as pessoas, talvez por se dar à harmonia mais um sentido de imposição do que deixá-la fluir naturalmente.
E agora conforme às minhas intenções e fiel à minha decisão o meu Natal vai ser ir à missa às 22 horas – que nem é a missa do galo, pois este não canta tão cedo assim – e ainda mais: sem pôr roupa nova e sem ter ido ao cabeleireiro, mas segura de que é assim que quero passá-lo.

Sempre Elza

Imóvel como uma rainha no seu trono, as luzes refletiam sobre a sua cabeça majestosa, ” à la Black Power”, dando-lhe cores cintilantes entre o azul e o rosa. Os lábios cobertos por uma cor escura, bem pintados, salientavam uma expressão altiva de “femme fatale”; as mãos e os braços enluvados por um material brilhante – latex? – ela movia com cuidado só a mão que segurava o microfone. Séria, imponente, nos seus quase 80 anos de idade, assim encontrei a Elza Soares no palco, cantando sentada, a voz já gastada, sem os gritos rasgados de antes, quando ela já deixava louco o Brasil com o seu gingado.  Lá no palco a vi como uma soma de presenças fortes:  como uma política, uma dominadora, uma ativista … no entanto era só ela, a Elza sentada e cantando, exuberante, como disse o Lenine.
Este show fora do Brasil levou muitos brasileiros, como eu fora do país, a querer reviver o que faz parte do nosso patrimônio cultural – a música, a nossa MPB, o samba – e Elza Soares é uma divulgadora deste patrimônio, mas não só isto, ela é a voz negra, gritante e acusadora, que não deixa escapar a verdade – uma verdade cruel, mas que também encoraja o público a cantar repetidas vezes até que o refrão fique na memória de cada um como emblema de uma denúncia:Elza Soares,jpg.jpg
“ A carne mais barata do mercado é a carne negra / A minha carne é negra.”
Senti-me orgulhosa por estar no seu show, vê-la com respeito e admirá-la. Lembrei-me de que a minha mãe não gostava da Elza porque não a considerava uma mulher respeitável pelo fato de ter ido viver com Mané Garrincha – homem casado – e de ter destruído uma família. Eu ainda não tinha dez anos na época, minha mãe estava na faixa dos quarenta e mesmo com todo o seu conservadorismo e noção de pecado, ela não podia criticar o Garrincha por ter saído de casa, mas sim a Elza, como causadora do escândalo. Mulheres como a Elza Soares em experiências similares também sofreram acusações e insultos de forma unilateral, pois as convenções da sociedade por essa altura consistiam em não criticar o homem, não tocá-lo como guardador da tradição; à mulher, porém, não se evitavam as críticas, pois ela era o motivo de ele ter ferido essa tradição, o que no fundo a culpa era dela. Isto explica que a separação entre os papéis na sociedade, onde o lugar do homem visto como provedor era incólume às censuras, tendo a liberdade de poder dar escapadas fora do matrimônio, ficando assim tolerada a infidelidade masculina, mas nunca a da mulher por ser motivo de preconceitos e passá-la imediatamente a receber a insígnia de puta, não só de homens, como também de outras mulheres.
Mulheres contra mulheres quando estas quebravam convenções de uma herança cultural que lhes impunham aceitar, menos os determinados modos de guardar a dignidade, mas muito mais o peso de suportar o destino de ser mulher. Era dramático, mas apesar disso era o modo de minha mãe (a minha mãe aqui é só um exemplo para ilustrar o quadro da época) entender o seu lugar de mulher na sociedade, em vez de conceder apoio moral. Também o senso moral, contudo, que vincula as pessoas às suas causas não era de se esperar de uma sociedade já quase sucumbida no conservadorismo de uma ditadura, como a brasileira nos anos sessenta. Apesar de ter criticado a Elza Soares, acho que bem no fundo, minha mãe sentia-se solidária a ela, por ser mulher e poder compreender seu sofrimento, mas nunca defendê-la, pois isto supunha ter tido coragem de eleger a expressão em vez de calar-se – e isto era perigoso – como também proibido? –  Pois sim, nesta época a maioria das mulheres não pôde chegar a tanto, por não estarem ligadas pela responsabilidade social e os mesmos interesses. O silêncio ainda não tinha sido quebrado dando lugar à expressão e a solidariedade, muito mais, fazendo dessa experiência uma atitude política. Nem por isso culpo a minha mãe por não ter sido mais forte e corajosa, pelo contrário posso compreendê-la e aceitar suas restrições que também  foram as restrições de minha avó, de suas irmãs, de suas primas, de suas conhecidas, etc., etc..
Hoje ainda me pergunto até que ponto isso é coisa do passado? Certamente que sim. Assevero que sim. Levando em conta quando Elza e Garrincha começaram a ter uma relação – melhor do que a expressão “ter um caso” – em 1962, isto já faz 54 anos, ou seja, entre três ou quatro gerações estão formadas de lá para cá. Já superamos os séculos retrógrados de antes, quando o casamento era mais uma necessidade da mulher para não ficar solteira e a de ter um homem que a sustentasse em troca de dar-lhe filhos e conforto familiar. Esta estabilidade material era melhor do que ser vista socialmente como uma pessoa inútil e ser tratada com desdém por ter ficado sem casar. As mães instruíam as filhas para a vida sexual: “feche os olhos e não imponha resistência, com o tempo você se acostumará e não será mais penoso”. Abnegação ou uma chance ao desfrute? No fundo é uma forma de procurar o amor fora da regulamentação familiar pelo matrimônio e homens aproveitaram-se muito bem dessa brecha para o seu próprio bem-estar, passando a viver o amor de duas formas, uma dentro da relação oficial e a outra fora dela. Uma solução prática, mas cheia de hipocrisia e descaro que, infelizmente, ainda funciona.
Garrincha encontrou outra solução e casou-se com a Elza que ainda foi alvo de críticas, mesmo já estando casada com ele. Por que ainda a discriminação? No fundo ele foi o infiel e o que abandonou a família. É que a sociedade daquela época não estava esclarecida o suficiente para saber julgar formas de infidelidade masculina com o aparato da psicologia, como temos hoje, e isto é muito bom.

Auto-ajuda e os livros

Tenho aprendido que quanto mais sou flexível comigo mesma, quando tenho reações indevidas – às vezes sou passiva demais, em outras reajo excessivamente – posso aceitar-me melhor e até manter uma atitude modesta e compenetrada. Nossas reações são como um motor que impulsiona energia, e essa energia, dependendo de sua força, que pode ser fraca ou forte, é a resposta que damos frente às peripécias da vida. No fundo podemos resumir que tudo, ou quase tudo, depende da forma de como reagimos aos problemas; tudo se resume em reações. É daí que vêm os livros de auto-ajuda, mentores exclusivos que nos ensinam o que é a vida e mostram-nos como devemos reagir frente às suas vicissitudes. Como é bom ler um livro assim capaz de nos dar receitas cabíveis e que nos deixa positiva, otimista e que nos faz acreditar ter encontrado soluções ideais para nossos problemas. Segundo seus ensinamentos, a vida parece ser encantadora, leve e fácil de viver. Contudo a vida é mais do isso e, por mais que o livro seja bom e sério, a nossa história particular e única falta no conteúdo dele. Um livro de auto-ajuda que bastante me impressionou foi o de uma mulher norte-americana famosíssima por ter vendido milhares de exemplares e já ter sido traduzida em muitas línguas, entre elas o português. A autora é extraordinária e benevolente, seus ensinamentos provêm de suas vivências, ou seja, sua história real é a base de onde sai seu conhecimento e sendo fiel a ela, como mesma escreve, acho que é séria. No fundo seus princípios podem ser reunidos num só livro – a sua extensa publicação tem que ver mais com as exigências da procura: uma vez que se obtém êxito de vendas, publica-se mais e mais para satisfazer às necessidades do mercado. Li o seu livro principal, fazendo anotações e marcando o que caía bem com as minhas fraquezas; tentei aplicar de cheio as suas instruções aos meus problemas, mas para o meu espanto, não funcionou: não me sentia verdadeira quando tentava me impor seus ensinamentos; parecia mais uma impostora, inimiga de mim mesma sob o esforço de querer me superar. Ao dar-me conta de minha decepção e incapacidade, parei farta, afastei-me da leitura e liberei-me da  pressão de querer repetir em mim o êxito dos outros. Foi o melhor que fiz e deu certo, pois adquiri mais clareza e auto-respeito; reconheci que a minha história não era a da autora e que a minha vida com acertos e desacertos estava nas minhas mãos a partir do momento em que eu mesma decidia como reagir. Resolvi então ser a minha própria autora, dando pequenos passos, mas significativos, concentrando-me mais em mim mesma  e aceitando-me tal e qual. Assim nesse processo de auto-ajuda me deparei com a pergunta capital: o que quero de verdade? Sabemos o que queremos? No fundo acho que sim, o que nos falta é querer acreditar nisso, pois até saber o que não se quer, já é um caminho para saber o que se quer. Mesmo assim para muitas pessoas responder esta pergunta chega a ser quase impossível, sobretudo para aquelas que nunca se perguntaram, apesar de que a vida já as tenha oferecido umas e outras vezes oportunidades convincentes de respondê-la.
Conheço pessoas que leem livros de auto-ajuda; leem e sentem-se bem e fortes os lendo, como se só o fato de lê-los fosse suficiente para resolver seus problemas e até acreditam  tê-los  resolvido, se não de repente não se deparassem com as velhas situações “críticas”. E? Os problemas ainda estão lá, intactos, à flor da pele. É um momento de decepção ao darem-se conta de que os seus problemas são maiores e mais fortes do que os ensinamentos dos livros e que muitas vezes nem cabem neles. Mesmo assim é aconselhável não resignar nem individualizar, pois se todo o esforço empregado não levou a resultados esperados, isto não é  prova de incapacidade, supondo que outras pessoas puderam ter sido ajudadas. É mais inteligente pensar que por mais que um livro de auto-ajuda ofereça soluções aos problemas, estas nunca são as únicas, há outros caminhos a encontrar, como fazendo uma pausa para se distanciar do problema e assim poder vê-lo com mais clareza ou procurando amigos ou mesmo buscando ajuda profissional. Entretanto o estar só comigo mesma e concentrada, procurando meu próprio caminho foi o que me levou a auto-ajudar-me, e … sem livros.

Defeitos: como é difícil aceitá-los!

Aprender a aceitar os nossos defeitos não é tarefa fácil e requer exercício árduo e constante, por isso é mais fácil e mais frequente  permanecer com uma atitude crítica e negativa frente a eles, julgando-nos como incapazes e imperfeitas, em vez de  aceitar-nos assim como somos.
Nós mulheres somos vítimas fáceis, tanto da imposição da publicidade exibindo padrões de beleza e de moda, quanto das projeções masculinas de modelos ideais femininos. De uma forma ou de outra um defeito é tido até como um corpo estranho, que não nos pertence, geralmente quando se refere a um aspecto físico, alguma coisa no corpo indesejada. Seríamos mais felizes e teríamos mais êxitos na vida se fôssemos mais altas ou mais baixas? Mais magras ou mais musculosas? Com um busto maior ou menor?  Assim uma parte do corpo não querida é considerada como defeituosa porque não está de acordo com os padrões vigentes do tipo ideal a condizer, que para serem cumpridos, recorre-se a uma avalancha de intervenções, desde aos programas de como livrar-se das “imperfeições” até às cirurgias plásticas. Aqui não me refiro aos casos de cirurgias plásticas que são para o bem da saúde e melhor que não sejam evitadas, quando por exemplo, a diminuição do busto é para o bem-estar da coluna vertebral ou quando uma plástica intervém para restaurar o que foi danificado por acidente ou enfermidade. Refiro-me ao que se considera como defeito e que, no fundo, é até  uma característica pessoal: o nariz é grande demais, os lábios bem que podiam ser mais volumosos e…  a lista de “defeitos” vai aumentando e eles são tidos como a causa de nossos insucessos na vida.
Psicólogos já falam que aceitar o nosso corpo é afirmar uma verdade absoluta, a qual diz que ele é o guardador de nossa identidade – com ele nascemos e entramos para este mundo e com ele também morreremos e deixaremos este mundo – ele nos pertence e, se o amamos ou não, ele estará sempre conosco, sem que possamos trocá-lo por outro.
Um dia enquanto esperava o metrô, ouvi sem querer duas mocinhas conversando: uma estava sendo amavelmente elogiada (pelo nariz que tinha) e por mais agradecida que se mostrasse ao elogio da outra, não podia evitar de demonstrar seu descontentamento com o seu lindo nariz e quanto mais o grau de elogios da outra aumentava, mais ela se derramava de dor por esse nariz tão feio, até chegando ao ponto de confessar que já tinha consultado um especialista que, confirmando sua crença, a aconselhou a fazer uma cirurgia plástica. Ao pronunciar meramente “cirurgia plástica” seu semblante mudou, passando para uma expressão de esperança e vitoria. Vitória contra o que ela tanto enjeitava e que no fundo era ela mesma. Para mim este é um caso absoluto de extrema rejeição, até mesmo de repúdio a si mesma. Aceitar os nossos defeitos ou o que se considera como defeitos, porque muitas vezes não são, é tarefa primordial para estar em paz consigo mesma. Segundo Colette Dowling no seu livro “Perfect Women”,  nós mulheres estamos sempre em estado de guerra contra nós mesmas; essa tendência a não nos deixar em paz e a estar sempre à caça de imperfeições que nos leva continuamente a  examinar-nos  em frente do espelho, a viver fazendo regimes para emagrecer, a mudar várias vezes a cor do cabelo, enfim estamos sempre preocupadas como nos mostramos aos outros e que efeito a nossa aparência surtirá publicamente em vez de promover uma relação de paz e amor com o corpo através de respeito, cuidado, aceitação e prazer, pois desta positiva e consciente relação com o nosso corpo é que tiramos as fórmulas de como nos relacionamos com outras pessoas.
Vejo como um passo muito importante que hoje nós mulheres já nos aceitamos muito mais em comparação com os séculos passados de forte dominação masculina. É aqui neste ponto de busca de harmonia e auto-aceitação com o corpo onde ponho minhas expectativas e esperanças como mulher em favor de nosso poder de auto-determinação.