„OLHA GENTE, SONHAR É DE GRAÇA“

   

Era uma vez uma influenciadora digital chamada Ygona Moura que contava com mais de 170 mil seguidores nas redes sociais, entre positivos, assim como o contrário – também de perseguidores nefastos. Não sei nada sobre seu nascimento, seu verdadeiro nome, sua infância e escolaridade, mas sei que cerca dos vinte anos deu-se conta de que como travesti se sentia melhor. Sua morte repentina e prematura me comoveu, e deu-me conta de quanto teria gostado de entrevistá-la numa conversa aberta e franca.

É verdade que todos nós temos nossos talentos, mas só poucos são capazes de usá-los para influir milhares de pessoas como Ygona fez na internet, e mesmo tornando-se a rainha dos memes, a mamãe Ygona, a travesti de longas perucas coloridas, com lentes de contato esverdeadas e maquiagem pesada, não era ela nenhuma modelo da Heide Klum, pelo contrário seus 100 quilos de peso foram comemorados num ambiente cintilante de princesa, com balões dourados e bolo de calórica cobertura cor de rosa, o que reitera o que já tinha afirmado: „Não nasci para ser adulto“.

Ah, esses corpos! Corpos grotescos, balofos, barrigas penduradas nos coses das saias, traseiros enormes que se mexem eroticamente rítmicos para frente e para trás. Corpos que emanam gordofobia em muitos, mas também corpos estuprados, ou que se vendem por algo e que não querem só dar prazer, mas também tê-lo. Corpos que atravessam as emergências do dia a dia, saturados de vivências e, que, feitos pelo que dizem deles, significam pelas suas práticas. Ygona Moura usou seu corpo como demonstração de sua identidade e para confirmar suas preferências sexuais, travestiu-se daquilo que não lhe foi assinado – o sexo feminino – o exagero de sua aparência correspondeu a seus desejos de cobrar o prazer, mas não só isso, descobriu que podia aparecer como ela mesma, postando fotos, gravando memes e vídeos .

Numa entrevista de Youtube com a famosa cantora e conhecida na web, Inês Brasil, falou de seu início na mídia; ela ficou conhecida por ataques de gordofobia – „é inveja“, assinalou Inês Brasil – mas Ygona seguiu sem ligar para as críticas, sempre „batia de frente“, até que verificou que também havia aceitação: sua resistência e insistência em prosseguir lhe garantiu mais e mais seguidores – Ygona estava fascinada. Quando o número de impressões superou o de um milhão, não entendeu o que aquilo significava – seria o total de seguidores? Não. Ela deixou-se esclarecer, o que contava eram as mensagens positivas que ela recebia: „Muita gente aprendeu a se amar mais, a se aceitar mais“, quando começou a acompanhá-la na internet. Isto foi o positivo de suas incursões como influenciadora; seus deboches frente ao perigo de contaminação com o vírus da covid-19 não devem ser apagados em nome de deixar intacta sua memória, nem justificá-los com a sua morte como dívida pagada. Ygona Moura também vai ser sempre lembrada pela sua libertinagem, sem que seja, porém esquecido o que a conduziu a isso. Como sobreviver em meio às restrições impostas pelas medidas sanitárias como prevenção de infecção pelo coronavírus? Os que dependem da rua e de clientela que o digam. Esses corpos, cuja existência é minimizada, cobram vida; e se aglomerações não são recomendadas, ao mesmo tempo que a proibição delas nunca foi meta do governo federal de Jair Bolsonaro, pelo contrário; esses corpos estão desprotegidos e descaminhados.

Não acho que essas festas referidas por Ygona sejam só pelo prazer gratuito de diversão. Não. Acho que nelas bases de subsistências são expostas aos negócios, não importando o risco. No seu vídeo após ter pernoitado numa dessas festas, disse Ygona que aglomerou mesmo, e movendo os dedos para simbolizar dinheiro, acrescentou: „e ganhei bem pra isso“. Não sei o que ela empreendeu na festa para ter sido paga, nem ninguém perguntou por isso, mas já era sabido de suas dificuldades financeiras e com seu irmão que, segundo um vídeo desesperado, conta ela, tentou matá-la, ficando Ygona sem ter para onde ir. Pessoas como Ygona, desempregadas, evitadas no mercado de trabalho, têm muito pouca chance de manter-se por si mesmas, assim todo tipo de favor prestado pode ser fonte de um dinheirinho. O corpo não só é fonte de capital, mas também centro de produção sexual, enquanto é dado a ser visto, desejado, invejado, ou até repelido. Espero que seus seguidores fiéis, os que se entretiveram-se e aprenderam com ela, tenham feito alguma merecida doação pelos seus vídeos – um arquivo de inúmeras horas de exibição, onde ela expõe seu corpo, sua vida, seus memes e suas emoções nas plataformas das redes sociais. E observando alguns deles, dei-me conta da precariedade do ambiente onde vivia, das paredes frágeis e da composição básica dos elementos presentes. Ygona não encobriu sua pobreza.

A permissão da própria privacidade ao público como produto de consumo sempre me chocou, mas para Ygona isso era como rotina de trabalho, pois quem elege uma ou mais redes sociais como plataforma para autopromover-se, tem que ter tempo para a labor, estar disponível e ativo para entrar em ação. Vi uma aparição de Ygona no banheiro – parecia mais que o que tinha a dizer era mais importante que o lugar onde estava – tomando banho, a água do chuveiro escorrendo atrás de seus ombros e o peito quase todo à mostra. Pedi a Deus que a câmara do celular não mostrasse mais que isso – Ygona apenas escovou os dentes a seguir. Ela se dava a esse luxo de jogar com o não convencional e encontrar seu lugar na mídia, adorava aparecer e afirmar-se como travesti – pelo menos não percebi em seus vídeos o descontento e o desejo de mudar materialmente de sexo – e esse passo era sua vez de dizer, sem vergonha, que queria um macho, „ou um amigo“.

Não constatei um olhar maldoso, nem sarcástico em Ygona – que também devem ter ocorrido – mas bem a necessidade de afirmar-se, – como diva? – de exibir uma beleza, sua beleza travesti, de poder superar-se, mas também sensível e grato a todos que a seguiam e ajudaram-na com vaquinhas para compra de um celular ou arranjar uma moradia. Isso mostra o quanto Ygona era carente, e a chance de participar na mídia, fazer-se conhecida, ganhar um nome era muito importante para ela. Por outro lado que mais poderia esperar, como negra, obesa, travesti, num país de grandes desigualdades sociais e racista como o Brasil? Ela também conheceu o lado cruel das redes sociais, sofreu com as fake news sobre sua vida, mas sobretudo Ygona continuava, tinha paciência, sonhava. Eu imagino que ela sonhava em alcançar o que a tornasse uma influenciadora de milhões, uma travesti adorada e tão independente economicamente que pudesse comprar um apartamento de luxo. Na sua viagem ao Rio de Janeiro em dezembro de 2020, Ygona olhou para edifícios de apartamentos numa zona nobre da Barra da Tijuca, e perguntou-se: „Será que um dia vou ter um desse?“ „Podia ser aquele, ou aquele outro, ou aquele outro“. „Olha gente, sonhar é de graça“. Ygona Moura faleceu no dia 27 de janeiro de 2021 por consequência da covid 19. Ela tinha 22 anos.

REBECCA SOLNIT E OS DOIS LADOS OPOSTOS: O NOSSO LADO E O OUTRO LADO

        

Andava buscando algo para ler que reiterasse o que penso sobre negacionismo e polarização; apesar de existir muito sobre os temas, queria algo que me confirmasse e que falasse por mim; foi quando visitando uma web alemã, Blätter für deutsche und internacionale Politik, que encontrei um artigo cujo título me chamou atenção, algo como, por que não devíamos ser transigentes com nazistas. E para a minha surpresa o artigo era de autoria de Rebecca Solnit, já minha conhecida desde que descobri seu famoso ensaio em 2017 “Os homens explicam tudo para mim“ e escrevi sobre ele um artigo para este blog.

Seu artigo On Not Meeting Nazis Halfway de novembro do ano passado, após as eleições americanas e publicado pela Literary Hub aponta para um tema atual, o dos discursos radicais, dos posicionamentos extremos e das confrontações até fatais e tão presentes na mídia do nosso dia-a-dia. Pelo menos uma vez já pensamos se de súbito poderíamos entrar em tal situação? Eu já pensei muito sobre isso, mas não como um momento de risco de vida, nem por estar querendo me expor a ele, e nem por precisar de um momento desse para extravasar minha raiva, o que seria a opção mais desfavorável e até perigosa, mas sim ao deparar-me com ele numa conversa sem que se esperasse o assunto viria à tona, ou, o mais provável, em público desencadeado por racismo, misoginia, ou – maus-tratos a pessoas, animais e à natureza.

Seu ensaio longe de ser um manual de se como proceder frente ao inimigo, aquele que está do lado oposto ao nosso, apela para a clareza.


O fato é que a sociedade americana em sua grande maioria está dividida, e isso ficou mais nítido desde que Donald Trump candidatou-se a presidente, venceu as eleições em 2016 e seu eleitorado foi mostrado de forma “folclórica”: a maioria branca, nacionalista e sem pudor de exibir suas armas; mas também pessoas desgastadas e sofridas pela perda do status econômico e pelas restrições do desemprego. Essa gente se sentia desprezada, e daí a confiança no presidente, no homem que prometia ressuscitar o país e fazê-lo grande novamente, um projeto nada modesto, mas bem megalomaníaco; para mim impossível, mas condizente com uma mentalidade que se crê no centro do mundo.

De onde vem „a sensação de não ser respeitado“? Rebecca Solnit cita Paul Waldman, do Washington Post, para excluir causas diretas de falas e programas dos democratas – como se crê – apontando para um conteúdo enorme de discursos dirigidos aos brancos, metendo-lhes na cabeça que sem respeito eles são olhados de cima para baixo, e não são levados em conta pelas elites liberais, pelos políticos democratas. Para dar-me conta do que isso significa, vi uns vídeos das manifestações pró impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Também no Brasil a mesma engrenagem funcionava impondo narrativas falsas, disseminando mentiras. Seria descabido aqui querer apagar os erros de Dilma Roussef e os do Partido dos Trabalhadores, mas as consequências daquela campanha imunda foram bem maiores do que os retrocessos políticos do PT, descambando na situação política que ora passamos. Gritos, descargas de repúdio à ex-presidenta e ao seu partido – o ódio estava instalado do outro lado, o país estava dividido e não havia meios-termos conciliadores, o que se fez repetir nas eleições de 2018 para a presidência – a extrema polarização eliminou facilmente candidatos de renome como Ciro Gomes e Marina Silva, mas não eliminou o PT, indo para o segundo turno eleitoral contra o candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, que para nossa incompetência venceu as eleições.

Infelizmente o Trumpismo é maior do que Trump e vai sobreviver na era de Joe Biden como um projeto ideológico de brancos fascistas; negacionistas das investigações científicas quanto às mudanças climáticas e precauções contra o coronavírus; antifeministas; racistas; anti-imigrantes; contra as comunidades LGBT+, e assim vai. Essa gente forma um lado, um lado obscuro, e Rebecca Solnit se coloca do outro lado – eu também. Pois como encontrar meio-termo de conciliação? Como posso aceitar um racista se sou feminista e tenho amigos negros e imigrantes? – Seria como querer servir a dois deuses. Como posso concordar com coisas, nas quais não acredito? E mais: „A verdade não é um compromisso em algum lugar entre verdade e mentira, entre fato e ilusão, entre ciência e propaganda.“ A verdade sobre a forma da terra não pode ser alguma coisa entre um disco e uma esfera; a verdade que ela é uma esfera é um fato comprovado, explica Solnit.

Outrossim, expressar-se como a favor ou contra é puramente democrático e deve permanecer; discutir por opiniões divergentes pode até ser positivo, mas a isso não me refiro, e sim à defesa de princípios, o que muitas pessoas não sabem distinguir. As opiniões podem ser vagas, gerais e até mudarem; os princípios são profundos, arraigados, difíceis de mudar. Se concordo com a opinião de um fascista, só para obter uma conciliação pacífica, estou ferindo meus princípios e iludindo-me ao pensar que o problema foi resolvido porque o respeito venceu ao calar-me. Mas que o tem que ver respeito com a situação? Nada, como também o contrário dele. A situação deve ser encarada por outro ângulo, o do posicionamento honesto para não misturar as coisas e evitar saídas conciliadoras e „terapêuticas“, terminando por legitimar e engrandecer o outro. Aqui Solnit dispõe-se a sugerir melhores discursos, „narrativas que alcancem a todos“, pois „uma atitude amigável e acolhedora tem mais probabilidade de libertar o outro de seus delírios“ do que chamá-lo de burro ou monstro – o objetivo é trazê-lo para o nosso lado, e é aqui onde titubeia nossa capacidade, já que o outro lado fortaleceu sua narrativa e „vangloria-se“ dela – temos que saber nos colocar, apresentar fatos e não „espalhar fantasias“.

Para Rebecca Solnit o problema são as políticas conciliadoras. As medidas governamentais para amenizar os desastres ecológicos e as alterações do clima; a saída tardia da base econômica do carvão é a prova desse descuido. Mesmo assim essas medidas são atacadas pelos do outro lado, só que eles não apresentam fatos em lugar de mentiras, seus moldes são de aplicar correção ao nosso lado.

Uma coisa é enfrentar-se com uma pessoa do outro lado, tendo esta abertura para falar sem que se corra risco moral, e outra é enfrentar-se com um nazista declarado – com este não quero me deparar –, e quaisquer que sejam os sinais de agressão ou violência do outro lado, o melhor a fazer é buscar proteção, e pessoas que não recebem ajuda num momento desses, podem levar a pior. O mesmo para misóginos, machistas, transfóbicos, anti-imigrantes, racistas… A violência não se justifica. Por outro lado não é fazendo concessões que se elimina comportamentos abusivos de maridos, como se pensava; não é se calando que se apazigua um racista, pelo contrário, o engrandece mais; e não é com admitir um assédio por medo das consequências a posteriori que se livra do opressor, ao revés, ele se sentirá mais forte e seguirá assediando. Um nazista nunca passará para o nosso lado, „a não ser que ele deixe de ser nazista“, segundo Rebecca Solnit.

Conquanto as sugestões de Rebecca Solnit parecerem teóricas, pois o momento, o enfrentamento com o outro lado, é muito mais complexo e imprevisto do que se imagina, fica a sua observação inteligente e afiada da situação como contribuição a que aprendamos. Pode-se começar em casa, transmitindo às crianças o valor de economizar elementos da natureza, como a água e a energia; e melhor do que ensinar o quanto está errado deixar vasilhas plásticas na praia é apanhá-las e levá-las a uma lixeira. Com esses pequenos passos crianças e adultos aprendem o que é ter coragem e iniciativa civil, servindo como exemplo para outras situações. E isso não é o nosso projeto de futuro, se queremos um mundo melhor?

        

Próximo post: 16/2/21

A GAROTA DO CONTRA

               

A modo de clichê ela é uma garota de aparência comum para o norte da Alemanha: cabelos louros e longos, pele clara de porcelana como uma Barbie, os olhos azuis salientados pelo espesso rímel – uma cara de boneca. Ou uma figura inspirada numa fada num fundo cor de rosa cintilante com estrelas faiscantes; produto perfeito para entrar em cena; uma confecção sob medidas para sustentar a ilusão da confiança de seus seguidores no youtube, onde tem aparecido desde maio de 2019 relutante, pregando o evangelho do negacionismo, aliás uma nova corrente – um micróbio – das teorias conspiratórias, que afirma, entre outras coisas, que as mudanças climáticas não são consequências da ação do homem sobre o planeta, mas sim um processo contínuo e natural aliado a fatores de influências ligados ao planeta, como o sol e as núvens.

Essas explanações são tentativas de subverter resultados de investigações científicas sobre o aquecimento global e as alterações do clima, apresentando outros dados com base em pesquisas de alguns suspeitosos institutos como o Heartland Institute, uma Think Tank americana, para o qual Naomi Seibt trabalha – um de seus financiadores é a indústria de tabaco e petróleo – o EIKE, Instituto Europeu para o Clima e Enérgia na Alemanha – no fundo é mais uma associação. O Brasil e os EUA são exemplos de incluir essas ideias como versão oficial na pauta do meio ambiente. Donald Trump nos seus quatro anos de gestão não participou dos Acordos de Paris; Jair Bolsonaro o seguiu em linha direta.

E é aqui onde entra em cena a nossa Barbie, acima referida, pois ela – que agora tem um nome: Naomi Seibt – é figura importante em divulgar ideias negacionistas apoiadas por políticos, profissionais, jornalistas, empresários de direita e pseudocientistas, alertando a necessidade de pensar para escapar do pensamento imposto e dominante, e dizendo-se inspiradora para aqueles, que por medo, não são capazes de sustentar uma opinião própria, mesmo estando contrários ao mainstreem, (este sendo principalmente a versão oficial do governo alemão que, mesmo devagar, dá alguns passos na proteção do clima.

Naomi Seibt nasceu em Münster, no oeste da Alemanha na região da Vestfália em 2000. Sua mãe é afiliada ao AfD – Alternativa para a Alemanha – um partido bem de direita que tornou-se mais forte estando contra as medidas da chanceler Angela Merkel ao deixar em 2015 refugiados, sobretudo muçulmanos, entrarem no país. Sua frase-argumento para socorrê-los, que bem lembra Barack Obama com o seu Yes, we can, virou contra-argumento da direita, não só de protestos, mas também de atentados.

Pois é, Naomi Seibt pertence a ala dos que negam, ela se vê como realista do clima, ao mesmo tempo que também é vista como a anti-Greta do clima, a post girl da direita: a crise climática mostrada pela imprensa não é justa, é fake, é produto de falsos dados científicos exagerados para fomentar o pânico e o controle sobre as pessoas, diz. Sem referir-se diretamente a Greta Thunberg, faz sua pergunta de choque: How dare You? – Como ousa? A tônica do discurso de Naomi Seibt ressalta o intento de contrariar o que Thunberg vem afirmando, ela a contradiz, o seu modelo de projeto não parece mais do que uma forte oposição à jovem ativista sueca, é como uma forma de apagá-la, e isso é tudo. Um novo produto lançado faz o negócio florescer se ele aparece com outra cara, em relação aos outros já existentes. Naomi Seibt ganha com isso, ela se reveste do raciocínio de Greta para contradizê-la: I want you to panic; Naomi objeta: I do not you to panic, I want you to think – sobrepondo o racionalismo ao suposto romantismo atribuído a Greta.

Também na aparência elas são bem diferentes. Enquanto Thunberg mostra modéstia no vestir e no arrumar o cabelo com uma trança comprida, Naomi Seibt apela para a sua imagem: em alguns de seus vídeos parece mais uma adolescente interessada em make up e xuxinhas para o cabelo – é claro que ela quer aparecer como qualquer mocinha de sua idade, e isto também faz parte do projeto. Ao ser chamada de a irmã de Beate Zschaepe, – uma dos culpados, envolvida nos assassinatos neonazistas de nove homens de origens não alemã entre 2000 e 2006 na Alemanha, – não se sentiu ferida: „é que as pessoas não me conhecem“, ou seja, se as pessoas se dirigissem a ela, isso não passaria de um engano? Por outro lado insiste em ser perseguida pelas mídias sociais e o quanto falsas declarações e comentários negativos sobre ela a tocam – até lágrimas aparecem – mas claro ela não se deixa aterrorizar por isso. Também a acusam de estimular a polarização do país; seus vídeos são endereçados aos que pensam, ou a aqueles que um dia vão pensar, como ela: „Oi, vocês que pensam diferente! Depende de nós romper o silêncio.“

Romper o silêncio é uma alusão à teoria de Elisabeth Noelle-Neumann – ela trabalhou para o governo fascista de Adolf Hitler – exposta no seu livro A Espiral do Silêncio, na qual a opinião pública e o controle social estão relacionados. Uma vez que o que forma aquela, é o que compõe a sociedade, ou seja, sistema de valores, costumes, tradições – o transmitido e o aprendido – eles desempenham também o papel de um „temido“ controle social na formação das opiniões. Assim as opiniões se espalham e divergem-se, mas o medo faz as pessoas se calarem, se suas opiniões não condizem com as demais. Noelle-Neumann acha até, que opiniões são formadas por observações no convívio entre as pessoas para que elas não se sintam excluídas. O que faz romper a espiral do silêncio é quando pessoas, ditas de vanguarda, agem, saindo do isolamento e da submissão e passam „de forma pioneira“ a fazer mudanças nos contextos de opinião – a opinião pública ganha assim um caráter dinâmico.

Não é para isso que trabalham Naomi Seibt e todos os grupos de negacionistas e partidários das teorias de conspiração com o fim de apoderarem-se de forma sistemática e exclusiva ainda mais de meios que acatem seus interesses? Como medidas políticas de proteção ao clima. É que a faca corta dos dois lados, e uma espiral sobe e desce. O que eles pensam do mainstream como a expressão da histeria, do medo de que os jovens não terão um futuro promissor; eu, que não faço parte do manistream, vejo por outro lado, esse grande número de pessoas que também se referem ao coronavírus como uma gripezinha e acham que a última eleição americana foi uma fraude – como simplesmente medrosos. Há, porém, por trás deles um aparato, um corpo bem construído de interesses financeiros e políticos que não querem perder suas posições de privilegiados em nome de quaisquer que sejam as mudanças sociais que os contrariem. Mesmo assim e apesar de pressões e perseguições as mulheres avançam em seus propósitos de autodeterminação; os negros mostram que resistem e lutam por um lugar digno na sociedade; a comunidade LGBT+… vem ganhando espaços e cientistas de verdade revelam-nos as drásticas condições da terra – são alguns exemplos. Também historiadores afirmam que nós humanos temos alcançado hoje um nível de civilização nunca existido antes – mesmo assim essa notícia não me tranquiliza.

Naomi Seibt com seu QI elevado, seu currículo brilhante, seu inglês impecável, seu talento musical e poético – ela toca harpa e escreve poemas – me deixa inquieta. Como uma menina tão dotada e educada com privilégios que eu não tive, encontra na visão negacionista de fatos tão evidentes seu próprio modo de se afirmar? Ela não só nega dados negativos e comprováveis do meio ambiente, como é contra a política de imigração; chama atenção para o perigo de uma ditadura socialista; é contra a política de cotas para as mulheres, ao mesmo tempo que critica o feminismo; não se diz de direita nem contra o semitismo, mas é simpatizante de um partido alemão muito de direita, o AfD e contribui para ele; se denomina libertária; e quanto ao aborto legalizado, diz que políticas que controlam a natalidade por medo do excesso de nascimentos não são boas. A lista de contras dessa garota parece um pacote feito de antemão e enviado ao destinador, que ao abri-lo encontra nele as instruções de uso do produto. Tenho raiva dessa garota, mas não quero feri-la com palavras – se bem que podia. Quando vejo suas fotos ou assisto a seus vídeos, não sei se seu posicionamento frente à vida mesma é de sua natureza convicta, ou se ela é uma oportunista. Naomi Seibt só tem vinte anos e por pouco li que por enquanto tem planos de ir estudar nos Estados Unidos no próximo ano. Vá com Deus garota.

Próximo post: 19/1/21

Quando a inocência não convence – uma lembrança a Meredith Kercher que não merecia ter morrido tão cedo

           

Amanda Knox, uma jovem americana, estudante de italiano na universidade, tinha 20 anos quando ficou conhecida na mídia, sobretudo a sensacionalista, pela morte de sua companheira de casa, a jovem inglesa e também estudante Meredith Kercher, brutalmente assassinada na noite do primeiro ao dois de novembro de 2007 na cidade italiana de Perugia. Até hoje não há precisão da data, mas é fato que Amanda Knox foi acusada por ter participado do crime juntamente com seu namorado, Raffaelle Sollecito, de 23 anos.

O caso Meredith kercher virou sensação na mídia internacional, mas todos estavam assombrados com Amanda Knox, a moça de aparência singela, mas de olhar frio, sem expressão de compaixão. Esta também foi minha impressão na época desde a primeira vez que vi sua foto – tive medo de seu olhar estancado, ela pareceu-me arrogante e superficial: li que Amanda gostava de estar no centro das atenções como querendo fazer da situação um show para a televisão. Se certo isso, talvez só no início, quando ela ainda não avaliava bem a fundura do poço onde tinha se metido. Depois comecei a ver fotos de Amanda chorando, parecendo mais uma menina desconsolada sem o brinquedo que lhe haviam tirado. Até hoje me pergunto por que Amanda Knox não constituiu um advogado, nem passou por um detentor de mentiras. O primeiro a teria defendido nos interrogatórios, e o segundo teria ajudado a fechar o caso mais objetivamente.

Os muitos artigos que apareceram após sua absolvição final, defendem-na em absoluto enquanto a veem sozinha na Itália e vítima da inescrupulosa e ineficiente polícia italiana – só que todos têm direito a um advogado, não? E onde estava então a família de Amanda? Ela própria afirmou que foi maltratada fisicamente – uma policial lhe bateu na nuca – além dos incansáveis interrogatórios que a deixaram esgotada – uma tortura psíquica para acabar com a sua amnésia: Os políciais de Perugia achavam que Amanda sabia quem era o assassino de Meredith Kercher e alegavam que ela tinha estado presente no momento do crime. Foi nessa fase do inquérito que Amanda Knox se comprometeu com suas próprias palavras: como em transe, perturbada por pensamentos, lembranças e imagens, ela disse que ouviu gritos, acusou seu chefe, Patrick Lumumba, o dono do bar Le Chic, onde ela dava umas horas de garçonete; e confundindo a realidade com sonho, não sabia mais o que dizer, passando a responder as perguntas com constantes „não sei“. O objetivo dos interrogatórios é arrancar a verdade, a confissão da boca do acusado, por isso e para isso existem métodos ilícitos também, nos quais policiais fazem concordatas, negociam com malfeitores por falsos testemunhos, forçam a confissão custe o que custar. O extremo desses procedimentos é abjeto e desonesto, e Amanda Knox sente-se vítima deles por ter sido levada a fazer declarações indevidas – é a sua bandeira – a de vítima de métodos injustos, e não a de ter sido culpada pela polícia de Perugia da morte de Meredith Kercher.

De 2009 a 2015 Amanda Knox e seu então namorado, Raffaele Sollecito foram julgados quatro vezes até chegarem à ultima instância onde foram absolvidos:

– A primeira condenação foi de 26 anos por indícios de culpa no crime;
– em 2011 um tribunal de apelação lhes concedeu liberdade, pois o veredicto contra eles „não estava apoiado em nenhuma evidência objetiva“, e Amanda volta para os Estados Unidos;
– em 2013 a corte suprema lhes retira a absolvição e determina um terceiro processo;
– em 2014 o julgamento termina por culpar os dois e aumenta a pena de Amanda para 28 anos e seis meses;
– em 2015 Amanda Knox e Raffaelle Sollecito finalmente foram declarados inocentes.

Que surpreendente e raro foi este resultado final. É a prova de que o trabalho policial tinha fracassado por não ter apresentado provas limpas que garantissem os resultados dos testes de DNA. Isso faz-me lembrar o caso da menina Madeleine McCann, sequestrada no sul de Portugal, na Praia da Luz também em 2007, e também aí a polícia portuguesa fracassou, perdendo-se em investigações que não conduziram a nada, e até hoje a criança não foi encontrada, e nem seu sequestrador. Entretanto Amanda Knox recebeu 18 mil euros como recompensa pelos desastrosos processos, e Rudy Guede, o terceiro envolvido no crime de Meredith Kercher, foi o único acusado como autor absoluto do homicídio porque seu esperma foi encontrado no corpo da jovem. Apesar disso a verdade não apareceu como triunfante; a inocência de Amanda e Sollecito não pareceu convencer, e eu não deixei de me interessar pelo caso, porque o intuo incompleto e impreciso – é que para mim e para muitos a história ainda não foi contada de verdade.

Amanda Knox voltou à Italia no ano passado para participar de um encontro – o Festival della Giustizia Penale – em Modena, e voltou a ser o foco das atenções da imprensa em geral que tentava captar em minúcias seus gestos. Ela apareceu incômoda em frente à mídia e tanto foi estrela como criticada. Esse evento foi organizado pela faculdade de direito local e o renomado projeto americano Innocence Project da Itália. Este projeto – Non-Profit – atua desde 1992 em favor de encarcerados por erros judiciais, e é conhecido por já ter salvado pessoas de prisão perpétua ou pena de morte. Sem Amanda Knox nesse encontro, este estaria reduzido a um pequeno público. Elena Ranzini, do comitê de organização explicou que Amanda “é um símbolo de um processo feito pela mídia de massa.” Eu assisti por vídeo a sua apresentação: lá estava Amanda Knox sentada imóvel, as mãos bem arrumadas – parecendo mais uma membra de uma família real – de frente para o público, mas sem encará-lo, apenas absorta todo o tempo no apresentador enquanto ele fazia a sua introdução. Quando começou a falar teve que se interromper pelo choro. Armada de um lenço, perguntei-me por quem chorava Amanda? Pela tragédia passada ou por ela mesma? No fundo a vítima foi Meredith Kercher que perdeu a vida, e sua família a perdeu, enquanto Amanda depois de ser aplaudida pôde recomeçar seu discurso. Falou em italiano, com voz áspera e trêmula que a dramatizou como num perfeito cenário italiano, e para mim mais grotesco que comovente de verdade. Por que ela não me sensibilizou? É que Amanda só falou dela mesma e de todas as injustiças que passou e ainda passa; de Meredith, sua única menção a ela foi para defender-se de que só com a sua presença na Itália, ela estava traumatizando a família Kercher e profanando a memória de Meredith. “Estas pessoas estão erradas. Há pessoas que gostam dessa estória, que sou psicopata, Foxy-Knoxy.” – Nada mais. A família Kercher já disse que não permitiria a visita de Amanda à tumba de Meredith – tem razão. Para quê? Para promover mais a sua própria versão usando a memória de Meredith? – Isso pareceria mais uma conveniência para o ego do que respeito mesmo.

Por outro lado seria demais esperar de Amanda que ela tivesse feito lá em Modena um paralelo entre dois destinos: o dela – marcado por um passado que a persegue, mas mesmo assim ela segue jovem e com vida; e o de Meredith, que por intenções e atos assassinos perdeu muito jovem a sua vida? Acho que sim, e é neste ponto que ela me decepciona, não me convence de sua inocência total e não me dá chance de ser compassiva.

Amanda Knox amadureceu desde que saiu da prisão em 2011; ela continuou os estudos, escreveu livros, entrou para trabalhar num jornal, casou e goza de sua liberdade. Contudo sua absolvição não a salvou: „ O mundo decidiu que eu sou culpada, e assim ficou“; o passado é a sua pesada cruz carregada como um carma quando é perguntada se foi ela quem matou Meredith: „ É que me desagrada sempre ter que repetir isso como se toda vez que sou perguntada, a minha resposta não vale“. – Se a ela desagrada ter sempre que dar respostas e explicações, não devia esquecer que a tragédia da família de Meredith é ter a sua morte sempre na lembrança.

A inocência não é algo concreto, é o estado da pessoa sem culpa de algo cometido anteriormente; por isso a inocência deve ser provada tanto pela pessoa já acusada, como pelos que a defendem. E assim começa o grande teatro dos julgamentos, como um palco estruturado e encenado por diversas partes, cada uma com o seu papel. Eu acho que Amanda Knox foi absolvida mais por inocência presumida que por falta de evidências nas provas. Segundo Renato Brasileiro de Lima no Manual de Processo Penal „ Não havendo certeza, mas dúvida sobre os fatos em discussão em juízo, inegavelmente é preferível a absolvição de um culpado à condenação de um inocente, pois em juízo de ponderação, o primeiro erro acaba sendo menos grave que o segundo.“ Isto é o que se chama de O Princípio da Presunção de Inocência, adequando-se muito bem ao seu caso.

Amanda fez uma introdução para o documentário sobre ela e o caso Meredith no Netflix – não gostei nada. É sempre a mesma posição dela implacável de defesa: ou se acredita nela ou não, pois não há nada entre as duas coisas; sendo culpada, seria ela a pessoa mais atemorizante que existe, justamente porque ela não caberia nos esquemas; mas sendo inocente, significa que isso poderia passar com qualquer pessoa, e por isso as pessoas sentem medo. E concluindo diz que ela ou é uma psicopata disfarçada, ou ela é nós; ou seja, qualquer um de nós. Pergunto-me se isso poderia realmente passar com qualquer um de nós, pois soa até como uma ameaça.

No fundo eu acho que Amanda Knox teve muita sorte por não ter perdido sua juventude na prisão em comparação com Meredith Kercher que perdeu sua vida. Contudo sua inocência no crime não a salvou, pois sua culpa não foi provada por meio de „evidências objetivas“ e portanto ainda a persegue; e como eu já disse, a história do assassinato de Meredith Kercher deve ser recontada, e quem sabe vamos conhecer ainda a verdade.

Próximo texto: 8/12/20

Bonecas para meninas e carrinhos para meninos: Deve ser sempre assim?

  

Sophia ainda não tinha três anos, quando sua mãe cumpriu o que tinha prometido, caso a menina fizesse, durante um mês, bem direitinho cocô e xixi no peniquinho. Sophia não hesitou na loja de brinquedos o que ia escolher: uma boneca vestida de médica com estetoscópio – ela adorava brincar de médica. Quando a mãe foi pagar, a caixa, depois de olhar para a boneca de cor escura perguntou a Sophia se ela iria para uma festinha de aniversário. Mãe e filha surpreendidas, negaram . A caixa, ainda olhando fixamente para a boneca, insiste: então isso é um presente para uma amiguinha? Sophia sem compreender o porquê das perguntas, deixou a mãe explicar que a boneca era um presente prometido com direito a ser escolhido. Sem desistir a caixa se dirige à menina e pergunta-lhe diretamente: amor, você tem certeza de que essa boneca aí é realmente a boneca que você quer? Sim. Respondeu Sophia com segurança. Mesmo assim a caixa ainda não desistindo, tentou sobressair-se: mas essa boneca não se parece nada com você. Nós temos muitas bonecas aqui que são bem parecidas com você. A essa altura a mãe de Sophia já estava furiosa e pronta para acabar de uma vez com a teima da caixa, quando Sophia mesma se adiantou: ela se parece comigo. Ela é médica e eu sou médica. Sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Vê seu cabelo bonito? E seu estetoscópio?

Situações assim grotescas podem passar não só nos Estados Unidos, mas em quaisquer outros lugares onde o racismo é visível e exacerbado. Sophia é uma garota branca de cabelos louros, e isto não a permite num meio racista declarado, exprimir suas preferências, se estas ferirem a moral estabelecida. É preciso ir contra a corrente, como fez Sophia, dando à senhora do caixa uma lição civil de coragem, enfrentando a situação racista com outra anti-rascista. Se a senhora aprendeu a lição, é pouco provável, como bem menos cogitou sobre ela, e mais possível ainda que não tenha nem compreendido o gosto da menina, nem a sua identificação com a boneca. O caso de Sophia viralizou na internet; sua mãe divulgou no Instagram uma foto da filha com a boneca e um pequeno comentário:

Esse ocorrido só confirma a minha crença de que nós não nascemos com o convencimento de que a cor da pele define um papel (na sociedade). Peles existem de várias cores, assim como as cores de cabelos e olhos, e cada uma delas é bonita.

Entre as relações das crianças com seus brinquedos, outra não é mais discutida por profissionais da área que a da boneca e a do carrinho, até o ursinho perde nessa parada. Por quê? Sem dúvida que os brinquedos acompanham e ajudam no desenvolvimento infantil, são uma parte essencial nele e indispensáveis ao progresso motor e cognitivo e à competência social e emocional. Mesmo que um bebê de poucos meses ainda não distinga um brinquedo, ele é fundamental nessa fase para apalpá-lo, levá-lo à boca, ou ouvir seus ruídos ao batê-lo contra uma superfície; um brinquedo é um puro objeto individual; uma boneca, nessa idade, não tem vida. Só na faixa dos dois e três anos – segundo os psicólogos – as crianças começam a aprender brincando. O que parece só fofinho e engraçadinho nas brincadeiras, já é iniciador de aprendizagem: crianças copiam os adultos, reconhecem sentimentos e sensações, tiram partido dos brinquedos, aprendem a lidar com eles e até a cuidá-los. A boneca que não tinha vida, passa a tê-la, e a criança dá vida à boneca, porque só os que vivem, podem comer, chorar, ser levados para passear e participar de conversas. A boneca também passa a ser um meio de contato com o social; com ela as crianças aprendem a relacionar-se e diferenciar relações nas brincadeiras de faz de conta, onde os adultos são representados em diversos papéis, tanto familiares como sociais: a mãe, o pai, os filhos, os irmãos, os amigos, os médicos, os educadores – cria-se um núcleo familiar e social muito vivo e sério, embora sob a base do faz de conta.

Nesse mundo de brincadeiras, sentimentos e emoções afloram, e as crianças aprendem a relacionar-se com eles. É na alegria da festinha de aniversário da boneca, que também podem passar decepção e raiva; mas também a empatia, se a boneca caiu ou teve uma perna quebrada; o cuidado de trocar a roupa, dar de comer ou botar pra dormir ou até dormir junto com ela. Aí não importa se a boneca é de pano ou de silicone, barata ou cara, uma Barbie ou um bebê. Não. O que conta é aprender habilidades brincando. Dizem especialistas que se às crianças fosse dada uma profissão, esta seria a de brincar, e já estimam
que uma criança deveria brincar 15 mil horas até os seis anos de idade, isto é, sete ou oito horas por dia – como um dia de trabalho normal e regularizado, incluindo – claro – sábados e domingos.

Contudo a boneca pode ter seus lados negativos quando ela é marcadora de desigualdade entre os sexos – iniciando uma questão de gênero – e passa a ser exclusiva das meninas, sendo malvista e evitada para os meninos porque ela pode afeminá-los. Essa crença é avassaladora; as investigações e discussões que a combatem são recentes, e ela aspira a permanecer resistindo em muitas culturas. Ela se fundamenta em que a escolha – clichê – de bonecas para meninas e carrinhos para meninos é algo natural nascido da diferença de sexos – os garotos, pelo seu físico, preferem brincadeiras ativas e, por isso, escolhem brinquedos que se adaptam a elas. A verdade é que essa escolha é bem mais feita pelos pais.

Li num artigo de carácter científico com base nos estudos de duas psicólogas (1) que nas crianças pequenas os hormônios e os impulsos para mover-se não são os responsáveis pela escolha do brinquedo preferido. Elas demonstraram que com bebês de um ano e seis meses, independente do sexo, a intensidade de movimentos é a mesma ao estarem eles ocupados com brinquedos ditos para meninos ou para meninas. Os níveis de testosterona, aos quais os bebês foram expostos na fase pré-natal, também não comprovam como biológica a causa de tais predileções, apesar de que eles possam influenciar depois nas atividades físicas. Quanto maior for a exposição de hormônios masculinos no útero materno para a criança, mais movimentos ela demonstrará ao brincar, não importando se com carrinhos ou bonecas, ou seja, o que se argumenta como ser o nível alto de testosterona, impulsor de movimentos, o que leva os meninos a terem brinquedos exclusivos, foi contrariado pelas investigações das duas psicólogas. Se realmente existe uma predileção nata na escolha dos brinquedos, a pergunta fica sem resposta, segundo as psicólogas.

Pais sentem-se aliviados com a „lógica“ distinção de brinquedos e não querem ver que dessa distinção se cria comportamentos arraigados ao diferenciar papeis sociais opostos, porque acham que os sexos devem estar em oposição preservando uma performance pré-estabelecida para seus filhos. Quanto mais se separa brincadeiras e atividades entre meninos e meninas, maior é a distância entre eles, e isso ainda é o papel da escola tradicional. A questão de gênero – gender em inglês – que deve ser levada a sério – é sair dos estritos parâmetros diferenciadores, na maioria baseados na biologia, e conscientizar-se que – aqui cito a definição da OMS – Organização Mundial da Saúde – gênero „refere-se a papeis socialmente construídos, atividades e atributos que uma sociedade considera como apropriados para homens e mulheres“… – e tudo isso, claro, com o fim de promover diferenças e desigualdades sociais entre eles. A OMS está pronta a ajudar os governantes que consideram prioritária a questão de gênero no desenvolvimento educacional e social de seus países. Tem o Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro interesse nesse projeto?

Pais influenciam na escolha dos brinquedos dos filhos, mais do que eles se dão conta; e a pergunta que fica para eles é: meninos também devem brincar com bonecas? Se eles quiserem, por quê não? Por que dividir os brinquedos? Por que reservar características de ternura, delicadeza e carinho só para as meninas? Junto com os pais, os brinquedos são portas para a vida adulta, para o mundo, e meninos e meninas serão pais no futuro e precisarão de habilidades como ser cuidadoso, carinhoso, paciente e saber brincar. Por que não ir aprendendo isso já desde cedo?

Há uns anos atrás – quando ainda não sabia nada sobre gênero, nem me preocupava com o feminismo – conheci um casal com dois filhos; a menina era mais velha que seu irmão uns quatro anos, mas mesmo assim o pai só se dirigia de forma doce a ela: benzinho, amorzinho. O menino – mais novo – era MEU FILHO, falado alto e forte. Esta experiência me tocou e foi meu ponto de partida para dar-me conta de quanto o papel da mulher na sociedade está envolvido com imagens preconcebidas e simplificadas.

(1) Artigo: Mädchen spielen mit Puppen – aber warum?
As duas psicólogas são: Gerianne Alexander e Janet Saenz

Próxima postagem: 1/10/20

MULHERES NÃO NASCERAM PARA SEREM SUBJUGADAS

 

Una mujer nunca está mejor sola – Quantas mães já não afirmaram isto às filhas como verdade absoluta? São poucas as que não o fizeram – sem incluir a minha que me deixava acreditar nisso por longo tempo como um fato comprovado. Só que a frase não é um fato. Ela é uma invenção carregada de patriarcalismo, dando ao homem o poder sobre a mulher no seu papel de marido, pai de seus filhos e provedor do lar; repetida pelas gerações, e mesmo com o avanço dos debates feministas, ela ainda é crida por mulheres de diversas classes sociais, culturas, religiões, nacionalidades, formação escolar e idades.

Que nunca o melhor para uma mulher é que ela esteja sozinha (em português) diz uma mãe às duas filhas para atingir àquela que no casamento sofre de violência doméstica num filme espanhol da cineasta Iciar Bollaín de 2003, cujo título Te doy mis ojos – não entendido por mim até ver o filme todo – refere-se a uma cena sexual de intensa entrega entre o casal, onde num diálogo íntimo ela dá ao marido partes de seu corpo que ele deseja: Ele: Quero teu braço. Ela: Te dou meu braço. Ele: Quero teus olhos. Ela: Te dou meus olhos. E assim vai ela cedendo seu corpo, vivendo o ato com profunda emoção, sentindo-se completa com aquele, com quem ela encontra fusão. O momento é sagrado, é metafísico. Isto e a esperança de que esse homem, esse tudo (1) a faça feliz, se desencanta quando ele volta a espancá-la, e ela, por fim, compreende que a vida a dois não é só na cama, e separa-se dele.

A violência contra a mulher é multilateral, também atinge os filhos e outros membros da família, mesmo que eles não sejam tocados. O atual ou o ex, o importante é que haja um relacionamento em vigor, ou que este está por se acabar, ou já acabou, e o local das investidas é comumente em casa, sem negar outros possíveis. Por conta da pandemia, o consequente confinamento em casa contudo, não é a causa da violência de homens já propensos, bem sim a causa de seu aumento, pois os casais permanecem mais tempo juntos que o necessário – perder a rotina é perder sua estrutura. O uso excessivo de bebidas alcoólicas para aguentar a quarentena, ou qualquer outra coisa podem levar a situações inflamáveis, como diferenças de opinião e, sobretudo, os medos: de perder o emprego, a autonomia, ou arruinar-se – condições que ferem bastante a masculinidade e canalizam-se contra os entes próximos mais vulneráveis. A situação tem piorado em todo o mundo; as estatísticas são tão alarmantes, que se um país como o Brasil pudesse trocar seus índices de violência e feminicídio contra a mulher com o índice de diminuição da pobreza, teríamos alcançado uma posição exemplar no mundo, pois o Brasil ocupa o quinto lugar, no ranking mundial de violência contra a mulher. Se podemos afirmar, segundo dados oficiais de 2019, que uma mulher é assassinada a cada duas horas, imaginemos quantas não são espancadas em duas horas?

Contudo não só de pancadarias vive a violência doméstica, ainda assim muitas mulheres creem que não são vítimas dela, por não serem espancadas; elas não levam em conta que as humilhações, intimidações, ameaças, trabalhos domésticos excessivos e não reconhecidos, que lhes roubam tempo livre também são formas de violência em casa – a violência física só é uma dos cinco tipos descritas pela lei Maria da Penha. Elas também acreditam que quando suas necessidades não são atendidas, são culpadas disso, sentem-se inferiores e não se acham à altura de ser a mulher, a mãe, ou a amante. Daí vem o esforço de querer agradar e ser merecida custe o que custe, deixando-se levar por mentiras, fazendo acordos, para elas, desfavoráveis, perdendo amigos e oportunidades de trabalho. Mulheres que escutam a miúdo: Você é fraca e burra, você é louca e tem a cabeça oca, ou, lá vem você de novo com depressão, sua doente. Só com muito esforço e devida ajuda sairão dessa, e após terem passado por isso afirmarão com certeza: Eu me sentia mesmo burra; eu estava cega; como pude passar tudo aquilo? As histórias dessas mulheres têm que ver umas com as outras, há padrões repetidos, sintomas que sempre aparecem. Por que mulheres não se separam facilmente desse tipo de homens? Superficialmente olhando, parece até que elas se acomodaram a essa sorte – mas não é assim. A autoestima da mulher, claro, se reduz consideravelmente se ela recebe por muito tempo humilhações moral e psicológica do parceiro – mesmo que ela não tenha passado isso antes. A capacidade, porém, de com suas próprias forças restaurar sua autoestima e criar mudanças na sua vida, é sua via crucis e uma das causas mais difíceis que lhe impede de liberar-se.

No vídeo – Conectar Fortalece – (2) diz uma mulher, que conhece os horrores do lar: O mais complicado, eu acredito que é entender as opressões que a gente sofre por ser mulher. A violência contra a mulher é estritamente violência de gênero, onde os arraigados papéis marcados pelo sexo biológico foram construídos para gerar desigualdades entre homens e mulheres, estabelecendo autoridade e domínio, criando poderes. Dessa separação saiu o silêncio, não só o do jugo, mas o de seres que não só sabem se comunicar, como não sabem o que dizer. O que é gritado e esbravejado nas brigas, nas disputas pela razão, no fundo é sempre o mesmo – o discurso repetitivo dele e dela; o que leva, porém, a extrapolar o quadro é a voz mais alta – que faz estremecer; é a mão ou o pé mais pesados – que faz doer e sangrar. Mulheres que não se deixam amedrontar, partem para a confrontação; é a guerra, e aqui o vencedor é o mais forte fisicamente – a solução? Claro que não. A melhor solução muitas vezes não está disponível, por mais que se tenha os números de emergência180 e 100, e que os vizinhos possam ajudar chamando a polícia, e que já haja algumas poucas casas, abrigos temporários para as mulheres fugitivas de seus algozes. A violência contra a mulher, seja qual for a sua cara: física, psíquica, moral, sexual e patrimonial (Lei 1340/06) tem a mesma base: o pensamento, ou a idéia – que é uma representação mental figurativa – profundamente enraizados na cabeça masculina de que as mulheres são seres inferiores em relação a eles, e que por meio dessa noção eles se orientam e agem. Daí eles tiram o fictício „direito“ de maltratarem e até matarem mulheres e meninas.

É sabido que toda forma de agressão e violência contra as mulheres são formas de defender o machismo. Machos que chegam a tanto, além de serem aptos para o mal, têm suas fraquezas, carregam por muito tempo um desequilíbrio emocional que lhes forçam a construir uma fachada. Não são poucos os espantos e a surpresa de pessoas conhecidas por quase não acreditarem que „o tal“ no fundo tinha um potencial de violência: Mas ele parecia tão simpático e amável! Nunca pude imaginar que ele fosse assim – é que o cara tem muitas caras, e ainda há aqueles que espancam suas mulheres e ainda têm a petulância de as levarem para o hospital.

Por que o Estado não pode proteger melhor suas mulheres? Já se faz algo, mas ainda não o suficiente para erradicar o problema. Todo esforço é louvável desde que este se concentre nas causas e dê prioridade as mulheres de se livrarem de seus agressores, protegendo-as – o afastamento é imprescindível – pois não é uma terapia que vai acabar com os maus-tratos deles. Muitos homens se submetem a um tratamento psicológico, ou por imposição da justiça, ou para dividirem sua culpa com as parceiras, alegando que se há problemas na relação, estes também são por culpa delas – é a necessidade desses homens de permanecerem como são por não terem outras alternativas.

E no Brasil? O problema é assustador pelos elevados índices de ocorrência, o que nos põe numa posição degradante frente a outros países. Pergunto-me o que a ministra Damares Alves, responsável por assuntos da mulher e da família, vai fazer para melhorar as condições das meninas – ela não incluiu a condição das mulheres vítimas de violências na 63. Sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher na ONU:

„Num relatório de 2016 aponta que o Brasil é o pior país
do mundo para se criar meninas, e isto nos entristece.
Nós vamos virar este quadro, estamos buscando inú-
meras alternativas de proteção das meninas.
Nós vamos voltar aqui, nesta comissão pra dizer que
nós somos uma das melhores nações pra ser mulher.“
(3)

Já estou aguardando Damares Alves.


(1) Refiro-me à letra Essa Mulher da compositora Joyce.

(2) A web Revista AZMina: Penhas: Criando Conexões Contra A Violência.

(3) Palavras de Damares Alves na sede da ONU em 12.3.19

O QUE NOS SALVARÁ? UM NOVO HUMANISMO?

 

Queria ter escrito sobre outro assunto, até tinha me preparado para isso, mas com a ainda disseminação do coronavírus matando pessoas pelo mundo inteiro, dei-me conta de que meu assunto atrás era insignificante, nesse momento, e senti-me até como egoísta e traidora da realidade se não me debruçasse mais uma vez nos fatos que continuavam na ordem dos dias; e naquilo que pensava escrever, ficaria para depois – e assim vai ficar.

Pepe Escobar, o conhecido analista geopolítico brasileiro ao ser entrevistado recentemente por Leonardo Attuch, editor da web 247-Brasil, falou sobre o que poderia nos salvar frente às mudanças, que com certeza passarão, pelas consequências desastrosas que a pandemia deixará no mundo – o que me fez pensar: ou não vão haver mudanças visíveis? Seguirá a máquina do capitalismo como nunca vista antes de vento em popa? Será o tempo de uma desenfreada reposição do capital, custe o que custar? Contudo uma coisa é certa: a economia neoliberal implantada por grandes países – principalmente ocidentais – revelou que o modelo de sobrecarga de capital entrou em dificuldades. Um tapa na cara do capitalismo industrial que se viu forçado a sair de seus moldes de produção e acumulação em favor de necessidades extras? Seria então a chance para os grandes capitalistas, os donos das riquezas do mundo tornarem-se um pouquinho mais socialistas. Aqui não me refiro às famosas doações de pelo menos um por cento de suas fortunas às vítimas da pandemia. Não. Mas já um abrangente olhar atento às suas injustas arbitrariedades, ou um leve prenúncio de mudanças em favor dos injustiçados – para não dizer claramente: é hora de pensar numa outra ordem econômica mundial, e não mais aquela errônea forma de distribuição de capital. É hora de admitir que a sua avidez é responsável pela exploração física e psíquica de homens, mulheres, crianças de todas as idades, no mundo todo. Estou sendo utópica? Não gosto desta palavra, soa-me mais que uma irrealidade, uma impossibilidade. Prefiro crer que estou sendo humanista – uma nova humanista.

Sopa de Wuhan, assim se chama uma coletânea de artigos de publicação independente e online sobre o que pensam diversos intelectuais, filósofos, analistas políticos como Slavoj Zizek, Byung-Chul Han, Giorgio Agamben, Judith Butler, David Harvey, Paul B. Preciado e outros sobre a crise atual do coronavírus. Slavoj Zizek – filósofo esloveno – referiu-se a esse momento como uma abertura de vias ao surgimento de uma nova versão do comunismo. Pepe Escobar, que tinha recomendado essas leituras, disse que ele errou – também acho, apesar de entendê-lo. Mais crítico com Zizek foi Byung-Chul Han, filósofo coreano-alemão, residente e professor universitário em Berlim disse: Não é que o vírus foi como um tapa no capitalismo, evocando já um comunismo, e que o vírus até poderia provocar uma queda no regime chinês. Nada disso vai acontecer e Zizek está enganado, escreveu Byung-Chul Han. Compreendo Zizek, sua profunda veia marxista o leva a sonhar, apesar de que ele tenha apresentado dados concretos como as medidas emergenciais de governantes, ajuda financeira, produção de implementos hospitalários, como também o ter-se dado conta da necessidade de um sistema de saúde eficaz e global, – mas será que essas medidas vão continuar mesmo depois de passada a pandemia?

Eu já me perguntei muitas vezes de onde teria vindo esse coronavírus capaz de mutações. Não o faço mais; dou-me conta porém, do quanto ele passa ileso de ter sido um castigo de Deus. O vírus HIV ou HIV que causou o síndrome da AIDS, aparecido na década de 80 do século passado, pelo contrário foi também, para os fanáticos religiosos, uma punição do Divino a aqueles que praticavam aberrações sexuais de natureza sobretudo homossexuais e vícios com drogas. À sífilis dos séculos XVI ao XX também foram atribuídas causas por procedimentos indecentes e indecorosos, principalmente as práticas de relações sexuais fora do matrimônio, a procura de prostitutas de rua e as visitas exacerbadas aos prostíbulos, apesar de que as locomoções de soldados durante as guerras, as condições sanitárias e de higiene e mais a falta de um medicamento eficaz foram o que disseminou a sífilis na época. Mas agora desta vez não fizemos nada de errado para ser castigados por Deus? Talvez tenhamos desenvolvido tantas tecnologias cibernéticas de controle e de inteligência artificial capazes até de nos substituir, e acessado tanto de forma digital informações que merecemos ser vigiados como punição?

Paul B. Preciado, um filósofo espanhol, transgênero diz, com base em Miichel Focault, que as epidemias são formas de materializar nos corpos dos indivíduos as obsessões que dominam a gestão política da vida e da morte das populações num período determinado. Eu entendo que as epidemias tornam visíveis em cada corpo que tipos de preocupação e empreendimento geram as políticas de vida e de morte de uma população num certo período. Assim segundo Preciado, a sífilis de então materializou nos corpos de cada um as formas de repressão e exclusão social que dominavam na política patriarcal e colonial da época – as obsessões pela pureza racial, e a proibição das chamadas uniões mistas, entre pessoas de raças e classes sociais distintas; e as restrições que pesavam sobre as relações sexuais.

Então, como entender, a partir da pandemia do coronavírus que ora passamos, as medidas que nos impõem para seguir durante essa crise? Como entender as contradições dessas medidas com base numa visão histórica e crítica política? Se por um lado sabemos que se os governantes nos mandam voltar às ruas, ao trabalho, à „vida normal“, isto leva a correr risco de infecção e até morrer, contudo o mercado não pára e os homens voltam a ser máquinas subordinados à produção. Por outro lado os dirigentes da saúde pública nos aconselham a permanecer em casa, nos obrigam ao isolamento em detrimento da maioria dos meios de produção e de consumo – é uma situação paradoxal, a qual nos enfrentamos, e o que nos ajudam são só os fatos de ambos os lados. Mesmo assim sabemos que a imunidade não vem do fechamento das fronteiras, nem de distâncias. Esta vem, como bem diz Preciado, de uma nova compreensão do que é comunidade; de um novo equilíbrio entre todos os seres vivos – ele atualiza as palavras „seres vivos“e
sai do político nacionalista e de identidades; evoca um parlamento, mas um parlamento planetário, de corpos vivos, que vivem no planeta terra, e não em países individuais.

Para um futuro mais humanista está em jogo sermos contra ao estado de exceção e vigilância, sermos contra ao implante de nanochips em corpos humanos e sermos contra ao capitalismo destrutivo que só destrui o nosso planeta terra. Assim poderemos enfrentar melhor as epidemias, que com certeza, ainda virão.

A COVID- 19 E EU

 

Meus cafés! Meus lugares preferidos de retiro intelectual, deixei de diariamente frequentá-los há três semanas, onde neles me sentava com uma xícara grande de café com leite, um livro, um caderno, um bloquinho de anotações – este está sempre comigo – e várias folhas soltas de papel anotadas, frases ainda não acabadas de pensamentos para revisar.

A Covid-19 me encerrou em casa – só saio para as pequenas necessidades e um passeio num parque perto de casa, se faz sol. Na Europa estamos apenas saindo de um inverno instalado desde dezembro; sem neve; sem quase temperaturas negativas, mas mesmo assim frio e de chuvas. Um inverno diferente dos que conheço desde que vivo no velho continente, e um inverno que desembocou numa pandemia – a dita Coronavírus – quando ele estava prestes a terminar, já cobrando a força da luz da primavera. A pandemia chegou quando já estávamos esgotados desse inverno chato e longo; ela apareceu num cenário que prometia logo mudar – só coisa de semanas – começando a esverdear-se e abrindo a oportunidade de que já começássemos a observar as plantas, os arbustos e a ver a terra salpicada aqui e acolá de flores miúdas e coloridas. Eu gosto de olhar, nos arbustos e nos galhos baixos das árvores, os rebentos, brotos minúsculos – mas que fortes são! – ainda fechadinhos, guardando aquilo que vai explodir na beleza de um sem números de folhas novas e brilhantes. Às vezes penso que devíamos aplaudir a natureza como agradecimento pela alegria que nos dá, e até como ato de contrição pela maldade que fazemos a ela.

Tudo isso está pra chegar, e está por precauções restringido o seu convívio. Os parques e jardins não podem se encher demais, as pessoas não podem sentar na relva em círculos – a distância de no mínimo um metro entre elas é inevitável. Será que em breve deixarei de assistir a tudo isso? Perderei as primeiras quenturas do sol das manhãs de primavera na calçada de um dos meus cafés prediletos? Ele agora está fechado, suas mesas da calçada atadas umas as outras – até elas aderiram à clausura, preservando-se do contato com os humanos.

Não estou nem nostálgica, nem „em busca do tempo perdido“ – nem o tempo está perdido para mim – no presente estou reservada e seca, aguardando o que não sei. Todos nós esperamos o que não sabemos – vai haver mesmo uma mudança pra pior como dizem os analistas políticos? Não queremos crer nisso, evitamos tais esclarecimentos, nos desviamos das distopias – que com certeza virão – como expressou Greta Thunberg em 2018: „Quero que vocês entrem em pânico“, referindo-se, claro, às mudanças climáticas. Estas aparentemente não têm que ver com a Covid-19, mas este tem que ver com exacerbações de medidas políticas, com irresponsabilidades de governantes, as quais também causam as mudanças drásticas no clima – não podemos estar tão apáticos a ponto de não levantarmos conjeturas e questionarmos de onde mesmo esse vírus se originou, embora não tenhamos respostas.

Quando da minha janela vejo de vez em quando adultos e crianças, – às vezes um cachorro os acompanha – tenho a impressão de que tudo está normal e pergunto-me se isso não passa de exagero; mas não está normal quando vejo alguém de máscara num supermercado e a lentidão dos caixas: PREZADOS CLIENTES MANTENHAM, POR FAVOR, AS DISTÂNCIAS MARCADAS NO CHÃO NAS FILAS DAS CAIXAS. Aí entro na realidade e sinto que estou suspensa no tempo, que um elevador me levou a um andar superior, sem que eu ainda não saiba quando ele me trará de volta à normalidade – como também à normalidade dos meus cafés. É que em casa a pandemia me chega pela mídia de forma virtual, por estatísticas de infectados e mortos pelo vírus, cenas muito rápidas de hospitais inundados de gente, médicos e enfermeiros esgotados. Mesmo com todo esse desconcerto não me deixo levar pela melancolia e afastar-me das coisas, estou até mais afiada, procuro concentrar-me naquilo que me interessa, mas não loucamente dar conta de tudo só porque estou mais tempo em casa. Não. Estou em passo de valsa procurando me harmonizar com as imposições impostas; não estou atrás das grades, mas até usufruo de minha semi-cadeia.

Assisti recentemente ao Pepe Escobar entrevistado por Leonardo Atuch no 247. Respeito muito suas análises géo-políticas, mas ele também flutua nas opiniões sobre a crise do coronavírus, ele não é o dono da verdade. A verdade nos chegará? O que está implícito aqui é quem tem a culpa e por quê, e não justificativas e explicações que se dizem verdadeiras: Tudo começou na China – mas será mesmo, ou o vírus foi levado pra lá? O vírus escapou de um laboratório americano, o Fort Detrick, que agora se encontra fechado, e foi levado pra China, e para isto existem explicações – mas, não há provas contundentes. E o que mais me irrita: por que o isolamento de todos, e não só daqueles mais susceptíveis é defendido como certo? E quanto às medidas de providência à população: de repente, em duas semanas de pandemia, certos governos liberaram trilhões em dinheiro, tornaram-se bondosos, prestativos e mandaram a uma grande parte da população ficar em casa; de repente apareceram reservas financeiras, intenções de dar créditos e criar dívidas – são partes do PIB anual à disposição – mas como restituir esse saco de dinheiro aos cofres das nações? Quem vai pagar isso de volta? Ou, a quem mandarão a conta? Por outro lado muitas pessoas acreditam que dessa reviravolta será a entrada no socialismo, – sobretudo nos países do dito terceiro mundo elas pensam que os governantes, por conta da pandemia, começarão a priorizar às necessidades do povo. Será assim? Claro que não.

Fala-se de uma vacina. Também será ela uma exigência das fronteiras, dos portos e aeroportos? Como não. Antes as vacinas eram prevenções às doenças ditas típicas dos trópicos, para que os viajantes não se contagiassem com elas lá encontradas. Agora antevejo que vamos a passar a ser tratados como animais que são vacinados por lei antes de entrarem em outros países. A ordem é que o viajante não leve o vírus aonde for. Mas teremos que comprar essa vacina? Ou será grátis para aqueles que não podem pagar? São perguntas e dúvidas que alimentam o nosso dia-a-dia; e até quando estivermos a salvos dessa pandemia, vamos esperar.

 

Próxima postagem: 28/4/2020

APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO? POR QUÊ NÃO?

 

Yuval Harari, historiador israelense e autor do Best Seller Homo Deus: Uma breve história do amanhã, disse numa de suas entrevistas que o sentimento de satisfação dos seres humanos não depende exclusivamente de condições objetivas, mas, depende também do que eles imaginam produzindo expectativas com relação ao presente e ao futuro. Segundo ele, as condições objetivas melhoraram muito a partir das últimas gerações, não significando isto que as pessoas estejam mais satisfeitas que antes – suas expectativas é que aumentaram – e, paradoxalmente, a História mostra que até quando há crescimento social e econômico, as pessoas podem estar mais insatisfeitas porque suas expectativas se tornam maiores; e o que gera uma crise é quando as expectativas estão muito altas e o crescimento não prossegue, pois nenhum crescimento é ilimitado, disse Harari.

As expectativas não são sentimentos, são projeções cognitivas que atuam como variáveis, advindas geralmente de experiências passadas, que se dirigem ao presente, ou bem melhor ao futuro, como forma de antecipá-lo; ou seja, as expectativas têm que ver com resultados imaginados – desejados ou não – quer o contexto seja positivo, quer negativo. Alguma coisa vai acontecer, e se não há certeza ou garantia de como será, aparecem as expectativas alimentadas pela incerteza. Se num contexto positivo as expectativas não se efetivam, o resultado será uma decepção, e os exemplos, onde se as põem, são inúmeros: um concurso, uma eleição, uma viagem, ou conhecer uma pessoa. Aqui as expectativas podem assumir um caráter exigente e de demandas, prejudicando o anterior encanto do relacionamento. Quem vê o outro como aquele que deva ser como se espera dele, é isto enfocar-se só numa possibilidade que, sem dúvida, levará à frustração como produto de uma ilusão. Um dos grandes fardos da vida é querer ou ser forçado a corresponder às expectativas dos outros quanto à conduta de como se comportar; no fundo ninguém está no direito de corresponder ao que se espera dele, e aquele que espera mais do que o outro pode dar, cai sempre em decepção.

Eu, que tenho a tendência de sempre buscar fundamentos nos fatos, aonde quero chegar com esses conceitos que me custaram leituras e reflexão? Ao fato bastante comum hoje em dia de se usar as redes sociais como um meio de conhecer pessoas para um eventual relacionamento. Antes – quando por meio de cartas – esse meio era visto como não confiável e negativo; hoje, porém, estamos na era em que os meios digitais comandam nossa vida; meu Smartphone mede apenas treze centímetros – e não é um dos últimos modelos, – mas com ele posso abarcar o mundo, e se não o faço, preferindo ir ao computador, é pelo elementar prazer de não me sujeitar a uma coisa pequena e tão poderosa. Eu sou uma exceção; a maioria das pessoas usa o celular de modo generalizado, e por que não para conhecer alguém? Sim, por meio de aplicativos específicos, e um deles de alcance internacional é o Tinder. Este aplicativo é fácil de ser manejado e grátis numa de suas utilizações; nele homens e mulheres têm acesso a uma imensa galeria de pessoas, como um álbum de fotografias infinito, por que sempre aparecem mais ofertas, mais possibilidades, mais chances. Muitos podem encontrar nele seus parceiros, mas não acho que por sorte ou garantia dada pelo aplicativo; é que essa forma de conhecer pretendentes já se proliferou tanto que ela leva a que as formas clássicas fiquem um tanto desleixadas – quem passa muito tempo por dia com a cabeça afundada nesses tais aplicativos, deixa de ver o que passa ao redor – e isto tem que ver com expectativas. Se não fossem estas somadas às esperanças, os tais aplicativos não teriam tantos seguidores. Refiro-me aqui menos ao seu uso visando uma paquera inconsequente, mais ao uso daqueles que querem conhecer uma pessoa com o fim de um relacionamento pra valer, como sendo esse até o último recurso para encontrar o companheiro de vida.
Conhecer alguém fora desse formato é o que hoje me surpreende; ele é muito simples – tudo se faz com as mãos como se uma varinha mágica fosse um coração verde e movendo-o para a direita quando a foto de alguém junto a uma curta descrição dela agradam. E o melhor é quando esse alguém vendo a foto, também move a varinha mágica, ou seja, o coração verde, para a direita: aí acontece um match – bingo! – os dois sozinhos poderão paquerar virtualmente, conversar e marcar encontro. Nem sempre a varinha mágica funciona, nem sempre há match, por isso é tentador continuar buscando. Outra coisa é a comodidade e flexibilidade de uso para conhecer alguém, – em casa onde seja, nos intervalos de trabalho, antes de dormir, – é suficiente a existência de WI-FI no lugar para se entrar na rede virtual de buscas. Também poder selecionar a busca por idade é para aqueles na faixa dos 50 ou 60+ a oportunidade de se concentrar neste grupo e fazer da busca algo bem especial.
Fato é que o número de solteiros em geral vem aumentando no Brasil, e com ele mudanças se revelam criando uma forma de cultura. Uma mulher jovem de classe média que vive de seu trabalho e podendo morar sozinha, ainda pensa em casar nos moldes de sua mãe ou avó? Menos viável. Melhor ela tenta harmonizar seu estilo de vida a um relacionamento e a uma futura família adequados, porque seus parâmetros que definem um marido, um parceiro não só são bem diferentes de antes, como mais exigentes, e aí está o problema – mulheres que impõem pré-requisitos, dão prioridade a seus interesses e não se deixam levar pelas aparências, também querem determinar sua vida a dois, mas sem perder o encanto do amor. É possível? Essas mulheres não são compreendidas por homens bitolados em seus esquemas retrógrados – por outro lado, espero que elas também não precisem deles, mas nem por isso é simples assim. Por mais que mulheres tenham lutado pelos seus direitos na sociedade, não significa isso que elas tenham deixado de sonhar e idealizar modelos impossíveis.
O Tinder garante um espaço secreto nos chats, já que muitos dos participantes preferem não se alongar em seus perfis, mas priorizar nas fotos. Estas procuram satisfazer às tendências das redes sociais: as pessoas devem aparecer bonitas, atraentes, alegres e sociais, o que esta padronização leva a um anonimato para proteger a identidade. O que ele espera de mim? O que ela quer de mim? O que eu quero? Acho que só poucos se perguntam; o importante é ter expectativas e estar ligado no aplicativo como tantas outras pessoas – este aspecto dá conforto e segurança, apesar de conhecer, encontrar alguém por meio de um aplicativo de relacionamento é uma aventura, pois a pessoa aparece como algo isolado, pouco ou nada relacionado com outros aspectos da vida, saída de repente não se sabe de onde. Isto me faz lembrar dos flertes de minha juventude, – apenas nos olhávamos, talvez só uma vez por dia no ponto de ônibus, mas isso provocava ânsia e desejo de rever a pessoa. O tempo até que nós chegássemos a falar um com o outro nos enchia de expectativas e esperança, assim como dava a chance de averiguar sobre a pessoa, procurar saber quem ela é. Era muito bom.

MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.