O CASO DO MENINO HENRY BOREL E OS VALORES BURGUESES ACIMA DE SUA VIDA

O menino Henry Borel sofreu tantas ações violentas contra seu corpinho de apenas quatro anos que não aguentou mais ser socorrido por médicos – chegou morto ao hospital, melhor dizendo: foi levado já morto ao hospital, nos braços de sua mãe, Monique Medeiros da Costa e Silva acompanhada de seu parceiro, um médico e vereador do Rio de Janeiro, Jairo Souza Santos Júnior, conhecido por dr. Jairinho. Não houve dúvidas para a polícia que o menino foi assassinado, restando esclarecer o grau de responsabilidade de cada um dos dois na sua morte.

Falsos depoimentos, mentiras, tentativas de atrapalhar a investigação, tudo isso foi apelado para contradizer a verdade sobre o que realmente eles fizeram com Henry na noite do 7 para o 8 de março deste ano. Segundo li, o dr. Jairinho, usando de seus poderes de político por meio de gente influente, depressa tentou liberar o corpo do menino do hospital na Barra da Tijuca, sem que o cadáver fosse levado ao IML – Instituto de Medicina Legal – para exame e emissão do atestado de óbito de Henry com causa de morte definida. Achava o vereador que o caso iria ficar por isso mesmo? – Grande estupidez sua. Monique pediu falsos testemunhos da babá e da empregada para reafirmar a tese de acidente dos dois na causa da morte do filho e encobrir seu conhecimento dos maus-tratos que recebia o menino do padrasto. Por quê? Para quê? Para que, como um acidente, tudo voltasse ao normal mesmo com Henry morto? Para enfim poder viver a vida de luxo oferecida pelo parceiro sem o incômodo do filho? Ou porque sua escolha de ir viver com o dr. Jairinho foi prioritária, e fazer vista grossa para o terror que havia em casa foi a melhor forma de manter o que tinha alcançado vivendo com um político num condomínio de alto padrão da Barra da Tijuca? O dr. Jairinho é tido como psicopata e como o único agente da violência física causadora da morte de Henry, contudo Monique não fica livre de participação do homicídio, mesmo que ela tenha tomado soníferos sem saber ou por vontade na noite do ocorrido, ela consentiu de certa forma consciente que seu filho fosse vítima de uma barbárie.

Quem é Monique? Quem é essa mulher de Bangu, no Rio de Janeiro, professora, diretora de uma escola, ex-mulher de Leniel Borel, com um filho pequeno, e que em poucos meses faz uma mudança radical em sua vida: separando-se do marido, começando a viver com outro homem, o dr. Jairinho, num bairro de classe média alta e até aumentando seu ordenado por passar a trabalhar no tribunal de contas do município? Ter mais e mais sempre foi seu fraco; sua ganância era clara para seu ex-marido: „Imagino que o que a gente tinha não era bom para ela. A Monique queria muito mais e eu dei carro, dei cartão de crédito. Dei tanta coisa para Monique nessa vida.“ Também seu narcisismo é mostrado nas fotos, nos selfies, „ela sempre aparece na frente, Henry atrás. Eu sempre estava em último plano. Em dez anos de casamento era ela sempre na frente e todo o resto para trás“, disse Leniel Borel. O selfie que ela fez na delegacia no dia do seu primeiro depoimento, exibindo – como a Monalisa – um leve sorriso de satisfação ao ver-se na câmara do celular ojerizou-me, foi a revelação de uma pessoa superficial e centrada não mais que em suas próprias prioridades. Assim como sua ida a um cabeleireiro no dia seguinte ao sepultamento de Henry, sua obsessão por roupas, sua posta em cena me irritaram, nos irritaram a todos nós sabendo que sua concentração narcisista a impedia de defender seu filho, de sentir por ele. É que a falha trágica de Monique foi esse enorme narcisismo carregado de valores burgueses decadentes; e a sua culpa foi ter consentido indiretamente o parceiro cobrar o conforto que lhe dava – pois nada foi de graça e por amor – com agressões físicas no menino, e isto já tinha sido constatado antes de sua morte pela babá e pelo próprio Henry que chorava, não queria viver na casa da mãe e do „tio“, falava que a cabeça lhe doía e das rasteiras que recebia. Havia um clima de violência na casa, mas até ela ser desmascarada e acusada, já foi tarde demais, pois Henry já estava morto.

Henry, segundo o que pude apurar, era um garoto sensível, muito apegado à mãe. Transtornado e nervoso – acho eu – ficou com a mudança do lar, com o novo estilo de vida, a presença de um outro homem na vida de sua mãe, uma nova escola, diversas atividades e as idas e vindas para ficar com o pai. Monique não pôde avaliar isso, como não pôde proteger o menino, ou pelo menos acreditar nele quando contava que o „tio“ o machucava. Do seu laudo de óbito foram constatadas 23 lesões, sendo a laceração do fígado e a hemorragia interna de força incisiva, penetrante. O algoz, como médico, sabia bem onde estava pisando, chutando, dilacerando.

Não posso esquecer o Henry; todos os dias reviso notícias, procuro saber como anda o caso tendo a mãe e seu parceiro acusados de sua morte, mas no fundo há muito mais gente indiretamente responsável, que com suas intervenções precisas e de antemão poderiam ter evitado a tragédia. Aqui incluo o pai, os avós, a empregada temerosa, a irmã do acusado, que o conhece tão bem. Sem embargo, para isso, seria preciso ter coragem, uma coragem ética que abarcasse o valor da vida da criança e fosse além das relações familiares, dos mitos religiosos, da indiferença de todos, porque por trás das aparências todos sabiam que o menino Henry estava sofrendo, e só a babá comunicou isso à mãe e à avó materna, o que ainda não foi suficiente e levado como „mentiras“ de criança, só que criança nessa idade não mente.

Espero que o dr. Jairinho e a Monique assumam o mal que fizeram ao Henry levando-o a perder sua vida tão cedo. Mas não é que eu esteja esperando demais de um psicopata já declarado e de uma mãe extremamente narcisista?

Próximo artigo: 25/5/2021

ATENÇÃO MULHERES, FUJAM DOS HOMENS QUE…


 
    

Lendo sobre porque a agressão, a violência e os homicídios são quase exclusivos dos homens, deparei-me com uma pesquisa de cientistas canadenses da Brock University St. Catharines, a qual diz que há uma relação de largura e comprimento da forma do rosto como um grave índice marcador de comportamentos agressivos, raivosos e violentos. Homens que têm o formato do rosto mais largo que comprido, mostram já nesse aspecto mais potencial para agressividade que outros.

Ora, não vamos sair por aí medindo a cara dos homens, e mesmo que na opção de procurar parceiros por aplicativos apresente-se a chance de observar bem a forma do rosto dos candidatos como eventual prevenção, não é isto o que quero me deter aqui neste texto, pois tais pesquisas são importantes, mas também relativas, e servem sobretudo às investigações policiais de crimes e homicídios. Critérios pessoais devem entrar na escolha do parceiro, e os pressupostos são tão variáveis como as necessidades de querer ter alguém, ficar com alguém ao lado. Minha mãe não conhecia a palavra misógino, este para ela era um homem ruim, malvado, que fazia sua mulher sofrer. Dizia minha mãe que aquele que tinha outras mulheres ou uma amante era um safado ou um cachorro – e todo homem era cachorro, menos seu pai, ou seja, meu avô. Dentro dessa moldura vi quadros horríveis de casamentos malogrados, mulheres sofridas, infelizes e abnegadas, umas coitadas cujos valores próprios estavam na dependência, no amor aos filhos e ao lar e no poder de suportar as dores. Essas mulheres não tinham como se separarem de seus maridos, se isso acontecia era porque os maridos tinham deixado a casa com elas e as crianças. Ouvi muitas vezes que o casamento era coisa muito mais de sorte do que de amor; este era do empenho delas, aquela era a loteria, na qual elas tinham de jogar.

Hoje as coisas têm nome. Mesmo estando mais divulgado entre as mulheres o que é misoginia, que o patriarcalismo é uma estrutura de poder que só favorece aos homens e que o sexismo é uma forma de discriminar mulheres só porque estas são mulheres – entram então estes fatores como alertas de perigo em seus pretendidos relacionamentos? Acredito que ainda é difícil para uma mulher jovem começar um relacionamento pretendendo que ele seja duradouro. Assim como é difícil para todas como terminá-lo. A dificuldade está em que precisamente hoje vivemos em plena divulgação do feminismo, dos esclarecimentos, do MeToo e dos protestos ao patriarcalismo, ao machismo, ao racismo e, sobretudo, ao feminicídio – o que faz com que homens se sintam mais inseguros. Será que tudo isso é considerado e prioritário na escolha do parceiro? Ou são eles esvaídos pela mera paixão do início ou das necessidades intrínsecas? Acho que quanto mais o feminismo avança em defesa – entre outras coisas – da igualdade de direitos, o trabalho de conscientização de uma mulher tem que ver com seu meio, suas experiências e a sua disposição de ser um agente de demandas para ela mesma, daí que tudo concorre quando uma mulher quer se relacionar com um homem.

Vi com interesse influenciadoras jovens em canais do Youtube falando do que se deve ou não fazer para se ter um relacionamento feliz; ou passos para conhecer o amor de sua vida; ou mesmo os tipos de homens que afastam as mulheres. Estes temas antes eram mais escritos e cobertos de moral; hoje elas falam deles com muito humor e quebrando sua seriedade para torná-los alcançáveis. Letícia Lecato é uma dessas jovens bravas que no seu canal do Youtube fala com temperamento sobre diu, mamilos, clítoris, pompoarismo e até de temas existenciais como „E se eu não me casar?“ Em seus últimos vídeos pareceu-me ela mais amadurecida, mais concentrada e já não rindo tanto, até tocando de leve, mas explícita em questão de gênero: Um dos sinais do homem maduro é que „ele não rotula aquilo que é coisa de homem e aquilo que é coisa de mulher“. Quando ouvi isso, vibrei, pensei: agora ela vai disparar e chegar no nó da coisa. Não. Letícia Cecato disse apenas que nem precisava falar sobre aquilo. É que o problema é tão óbvio e repetido que se pensa não valer a pena discuti-lo. Errado. Ele agora tem um nome – problema de gênero – e espero que ele seja tão abordado quanto o racismo, o trabalho forçado de pessoas, os crimes contra a humanidade e o meio ambiente.

Como Letícia Cecato fala de sinais, homens deixam sinais que por mais sutis que sejam ao início, serão cada vez mais desvendados ao passo que trabalhemos contra relacionamentos abusivos, onde agressões e violência contra as mulheres são o topo dos problemas. Esta é a pauta. Hoje não só sabemos mais que antes da existência deles, como temos construído um manancial que nos ilustra e nos fundamenta. Ocorrências diárias contra mulheres levam a protestos de ruas e nas redes sociais, #hashtags, estatísticas alarmantes – estamos vivendo o tempo de dizer BASTA: – Homens, basta de tratar as mulheres como se elas fossem estúpidas e seus pertences; basta de impedir ou distorcer a expressão das mulheres, como se elas não tivessem o que dizer; basta de ter as mulheres sob seus controles, tolhendo-lhes a liberdade de serem o que são e o que quiserem. E mulheres, basta de acreditarem em amores vazios, achando que o amor tudo vence; basta de se iludirem por promessas não cumpridas e basta de achar de que só com um homem poderão ser realizadas.

É que os relacionamentos têm de sair da esfera única emocional e egoísta de querer ser amados incondicionalmente e de que a vida a dois existe com o fim de trazer felicidade. O relacionamento existe para que os dois se conheçam, se desenvolvam, cresçam como seres juntos e separados ao mesmo tempo. Isto é muito maior do que os obsoletos happy end „ dos filmes e a ilusão do “assim serão felizes para sempre“.

Como é bom e fácil teorizar! Mas se não tomamos isso como uma receita, podemos pelo menos entender como uma proposta, um antecedente já em curso e impossível de voltar atrás. O feminismo com suas interseccionalidades trabalham pela igualdade dos seres humanos e são tão fortes, corajosos e humanitários, que nem é preciso viver teorizando – o feminismo, no qual eu acredito, existe para que vivamos melhor uns com os outros.

Próximo post: 30/4/2021