MÃES QUE NÃO SÃO MÃES?

          

Quando um homem comete um crime de homicídio ou um assassinato, e sendo até esse contra a sua própria família, toda nossa indignação e aversão a ele não se compara com a nossa reação de pesar e comoção dirigida às vítimas. Sabemos que o número de mortes cometido por homens é maior que o de mulheres, por isso à simples pergunta quem matou, nos vem sempre acompanhada de uma imagem masculina, não está na nossa cabeça de maneira automática realizar que foi uma mulher a autora do crime. Além dos presídios, os documentários, filmes e livros policiais também nos mostram a elevada presença masculina como perpetradores sozinhos ou em gangues. É um fato que homens matam mais, e por quê deveras o fazem é o mesmo que perguntar por que mulheres têm menos incidências criminais, e isto tem que ver com fatores tanto biológicos como sociais: homens estão mais expostos a situações de risco; o aumento do hormônio testosterona nos rapazes pode influir nas suas ações e os distintos papéis sociais dos dois, se levarmos em conta a predominância do machismo e do patriarcado que relegou as mulheres a seres passivos e obedientes demonstram que homens costumam resolver seus conflitos exteriorizando-os e até incluíndo outras pessoas neles. Já mulheres aprenderam a interiorizá-los, a serem mais meditativas e a solucioná-los sozinhas. É conhecido que mulheres podem ser capazes de acabar ou separar brigas de machos, se estes, então cegos de ira, não as golpearem primeiro – o que é raro.

Por outro lado mulheres agressoras e como fazedoras de delitos e de crimes contra a vida de outros, nos deixam pensar nisso como exceções. Casos de mulheres assassinas em série são raríssimos, pois geralmente quando elas matam é dentro do seu espaço domiciliar, não escondem o crime e deixam-se capturar facilmente pela polícia. E se uma mulher mata o marido ou companheiro, até aí podemos compreender seu drama se nos vem de pronto pensarmos na legítima defesa, ou para livrar-se ela e os filhos de abusos físicos e psíquicos dele, ou como vingança por infidelidade, ou por ter sido aproveitada e explorada sua confiança nele. Mas se ela mata um ser nascido dela, nossa reação é bem diferente: primeiro é um choque, ficamos sem fala, e sem que percamos o interesse pelo caso, o horror se propaga, sentimos ódio, ficamos indignados, queremos justiça, e tudo isso dirigido a ela, só a ela que rompeu o tabu sagrado de ser mãe.

Em setembro de 2020 na Alemanha, uma mãe de família matou cinco de seus seis filhos, um por um numa banheira, e depois de mandar o mais velho de oito anos à avó, jogou-se contra um trem numa estação de Dusseldorfia, na Vestefália, tendo sobrevivido a muito custo. Se ela foi capaz disso, posso imaginar sua depressão, o tamanho e a força de suas imagens conduzindo-a a tal ato. Ela não foi a primeira, e como ela todas têm uma história possivelmente marcada na infância ou adolescência com maus-tratos e abusos sexuais. No seu caso foi por um conhecido de seus avós quando tinha 12 anos; aos 15 anos engravidou pela primeira vez, e da relação com o pai só restou a criança. Com 19 anos ela é mãe pela segunda vez sem que daí o pai cuidasse do filho, ficando a jovem mãe solteira e sozinha com os dois filhos. Depois essa mãe se casa com um ex-soldado e com ele tem mais quatro filhos. Numa reportagem de revista vejo uma foto dos noivos, ela à maneira clássica vestida de branco com um buquê de flores brancas e fitas, ele de terno escuro. Os dois filhos dela também vestidos adequados para a ocasião. Atrás deles uma limusine branca a condizer – talvez como símbolo do desejo dela de ter um esposo, uma família e que a partir dali tudo vai dar certo. Mas o casamento também não durou; eles viviam num apartamento de quatro cômodos; o marido ficou desempregado e muitas vezes a deixava sozinha, sobrecarregada com os filhos e a casa, até que ele saiu de casa de vez. Um mês antes do trágico ocorrido, ele tinha postado no facebook uma foto com a sua nova companheira, uma vizinha do bloco residencial. Esse sentimento de abandono a acompanhou sempre – também a fez recusar ajuda do Estado – foi ele, acho, o propulsor de sua trágica decisão mais tarde, fazendo-me lembrar da Medéia de Eurípedes – dramaturgo grego do século V a.C. – que também cometeu um infanticídio por sentir-se traída e abandonada pelo homem que amava e pai de seus filhos.

Bom que casos como esse são raros, e mães separadas de seus parceiros e responsáveis pela custódia e sobrevivência dos filhos não terminam sempre em fatalidade. Contudo os motivos geradores de tragédias familiares, estão na base, prestes a desencadearem desgraças irreparáveis, requerendo atenção e interesse nossos. Uma moradora de um dos blocos de apartamentos perto da mãe falou com tristeza de suas próprias omissões, da sua falta de interesse em furar o gelo e aproximar-se dessa mãe sozinha com seis filhos. Esta seria a nossa participação, pelo menos em compreender sua história em vez de só referir-se a ela como uma pessoa estranha, e julgá-la moralmente.

Cada vez que nos detemos só no crime fica de fora o debate das causas e o avanço de medidas sociais efetivas em situações emergenciais. A pergunta é sempre a mesma: no lugar de pôr a culpa nessas coitadas – pois esta já está prevista no código penal – por que não buscar os quadros sociais e psíquicos exatamente geradores de estados nefastos? Em que condições alarmantes se encontram mães com risco de cometerem delitos graves? Criminalistas alemães já reconhecem algo como uma estrutura capaz de dar oportunidade a um ato de delito, ou seja, quando alguém está muitíssimo metido em uma situação negativa, como uma sobrecarga afetiva e material, e esta ainda relacionada com frustrações e sentimentos de anulação, é muito provável que apareçam daí atos de agressão. A coisa é delimitar esses espaços onde esses possíveis determinantes estão contidos. Uma grande tarefa, um trabalho difícil e pormenorizado, dependente não só do Estado, mas também de nossa responsabilidade social. Garantia absoluta não existe, só avanços em favor de uma solidariedade e justiça sociais.

Voltando à mãe mencionada, ela está por ora vivendo um processo que vai durar onze dias até seu julgamento final. Até agora ela tem negado sua participação no crime de seus filhos, alegando que um homem usando máscara entrou no seu apartamento e matou suas crianças. Uma construção psíquica para se defender da imensa dor, e fugir da realidade, acho.

CRISES DA VIDA PODEM NOS LEVAR LONGE

    

Se não fosse uma forte crise existencial que tive com pouco mais de trinta anos, eu não estaria hoje onde estou vivendo: longe do meu país de nascimento e longe do país que me acolheu quando deixei o Brasil.

Todos nós passamos por crises, sem que por isso estejamos enfermos; eu já passei por algumas de diferentes intensidades – elas também nos ajudam a sair da estagnação de onde nos encontrávamos, por isso precisam as crises de soluções, saídas que deem um rumo diferente a nossa vida daquele que era antes. Aprendi a entender minhas crises como um estado doloroso continuado até um certo ponto, onde eu pude enfim intervir com algo relevante – uma tomada de decisão, ou ter encontrado uma solução para o conflito que me afligia. Realmente se pode representar uma crise com uma linha vertical subindo até um ponto máximo e depois acontecer um declínio. Estudiosos chamam esse momento perigoso de clímax ou inflexão e é aí quando é preciso fazer algo positivo para que essa queda não gere uma catástrofe, ou uma depressão onde a tal linha representativa é para baixo necessitando de uma estabilidade no estado psíquico do paciente. Há muitas alusões às crises: estados psíquicos de liberação de energias, como um orgasmo, e físicos como a luta do sistema de defesas do organismo para vencer uma febre ou a fase crítica de uma infecção, antes do aparecimento dos antibióticos, por exemplo – eram os dias de decisão, dizia Hipócrates, médico da antiga Grécia.

Quando minha mãe faleceu, e eu não me encontrava a seu lado, esta foi a causa da crise mias forte que vivi. O fato de não ter vivenciado sua morte e minha consequente falta no seu enterro, me rendeu uns anos de desconsolo e depressão. Com ajuda de profissionais e boas leituras hoje sinto-me forte para reagir às lembranças, mas sei que a dor pela minha ausência e sua perda, a levarei para a tumba. A perda de um ente querido; a perda de uma base existencial, que é um trabalho, a perda de um lar, de uma moradia, ou acontecimentos repentinos, como uma doença grave, um acidente ou uma catástrofe são as causas mais extremas que levam a crises intensas.

Como uma crise não é uma depressão, mas pode conduzir a esta, podemos usar nossas forças para suplantá-la, antes que entremos num colapso, mas se elas não são suficientes – e muitas vezes não são – a ajuda de outros é imprescindível. Outra forte crise que passei foi ter perdido um emprego quando vivia fora do Brasil. Com ela tive de aprender novas habilidades para sobreviver, conheci mais o país e pessoas, fiz ioga, desenvolvi-me intelectualmente – me virei – e reconheci que o fato de ter perdido um trabalho, não foi tão mau assim, bem mais uma chance de requisitar minhas capacidades. Na sabedoria popular não é à toa dizer que uma crise é como uma porta que se abre, enquanto outra se fecha – sim, abre-se para algo que ainda não está presente, mas que procede no processo de sair por ela, pois crise tem que ver com distanciamento, separação.

Tanto obstáculos que se interpõem à realização de nossos objetivos, podem gerar uma crise por não sabermos como lidar com eles, como a quebra da rotina do dia a dia. Isso é muito comum em situações de visitas entre familiares ou amigos, quando saímos do que é repetição em casa quanto aos afazeres, aos horários, aos modos peculiares e bem determinados. O afastamento de tais práticas conhecidas pode nos trazer conflitos conosco mesmas, e uma vez já metidas neles, não é fácil usar o momento para alargar nossa percepção e questionar nossos valores.

Apesar de ainda não ter visto o filme ganhador dos últimos Oscars, Nomadland, sei que sua estória apresenta uma situação de crise por perdas intensamente marcantes a priori. Fern – que em alemão significa longe, distante, e não acho que seja um acaso – é o nome da protagonista do filme, que ao perder o marido e trabalho, encontra como saída, para garantir sua subsistência, vender seus pertences, comprar uma van e sair on the road como uma nômade em busca de trabalho. Ela, como principiante, se depara com pessoas que por razão da crise imobiliária americana de 2008 perderam o que tinham e vivem agora de empregos periódicos em diversas partes do país. São pessoas – a maioria é de idosos – experientes e estruturadas para esse tipo de vida e que ajudam a inexperiente Fern em detalhes fundamentais para sua sobrevivência na estrada. A diretora do filme, Chloé Zhao, incluiu pessoas reais no elenco – com exceção de uma – mostrando depoimentos verdadeiros, gestos autênticos e lugares originais.

Viver como nômade é o oposto de uma vida sedentária assentada numa residência fixa. Não é nem infundada, nem gratuita a decisão de partir para esse estilo de vida, sequer garante satisfação diária; também não é uma aventura sem precedentes e sem destino em busca de infinita liberdade. Eles não são nem aqueles turistas de mochilas nas costas ou viajantes de vans que mesmo indo de um lugar a outro sempre precisam de uma estrutura já organizada que satisfaça suas necessidades. Essas estruturas em geral não são benéficas ao meio ambiente, pois tendem a crescer para favorecer mais à indústria turística. Não. Ser nômade é deslocar-se de um lugar a outro tendo em vista a subsistência como base de um assentamento temporário, e aí explorar suas condições e formar um modo de viver. Por princípio o nomadismo age conforme ao meio ambiente e consiste em sustentar os recursos, e não degradá-los como faz o turismo. Assim também era na pré-história, como também na época das grandes caravanas e das longas transladações aviadas por necessidade de alimentos, por irregularidades climáticas, catástrofes naturais e até perseguições. Pessoas ou grupos humanos têm seus motivos, suas crises de vida que lhes fizeram nômades; eles têm sempre o que contar nas suas paradas e oferecer ou receber ajuda. Daí a importância do sentido de comunidade, de união, nem que seja por pouco tempo, mas sempre com a certeza de que se encontrarão em outro lugar.

Os tempos modernos com a industrialização diminuíram as ondas nômades, já que nada é mais sedentário do que trabalhar em fábricas. Hoje empresas de porte espalhadas em todos os cantos, tiram proveito dessa gente, dando-lhes trabalho temporários e nem sempre pagando-lhes à altura. E Fern, a nossa protagonista citada acima, segundo li, também participa dessa via neoliberalista por necessidade de dinheiro e, talvez, por gostar de trabalhar, adquirir experiência, mas não para se acomodar, para isso Fern está muito longe. Ela quer seguir, continuar na estrada e, quem sabe, reencontrar seus companheiros de missão.

Esse filme Nomadland que só vi trailers, deu-me interesse em ler e refletir sobre o nomadismo e sua resistência em continuar nos humanos como uma ação eficiente de desenvolvimento sustentável. A vida sedentária exige mais construções e com elas a necessidade de todos tipos de equipamentos, desde móveis e outras coisas necessárias, mas também coisas supérfluas que não cabem mais dentro de uma comodidade modesta. Li muito mais do que expus aqui – é sempre assim – como também sobre o que é uma crise emocional e como se manifesta, apesar de que minhas experiências com elas já seriam suficientes.

Próxima postagem: 17/6/2021

ATENÇÃO MULHERES, FUJAM DOS HOMENS QUE…


 
    

Lendo sobre porque a agressão, a violência e os homicídios são quase exclusivos dos homens, deparei-me com uma pesquisa de cientistas canadenses da Brock University St. Catharines, a qual diz que há uma relação de largura e comprimento da forma do rosto como um grave índice marcador de comportamentos agressivos, raivosos e violentos. Homens que têm o formato do rosto mais largo que comprido, mostram já nesse aspecto mais potencial para agressividade que outros.

Ora, não vamos sair por aí medindo a cara dos homens, e mesmo que na opção de procurar parceiros por aplicativos apresente-se a chance de observar bem a forma do rosto dos candidatos como eventual prevenção, não é isto o que quero me deter aqui neste texto, pois tais pesquisas são importantes, mas também relativas, e servem sobretudo às investigações policiais de crimes e homicídios. Critérios pessoais devem entrar na escolha do parceiro, e os pressupostos são tão variáveis como as necessidades de querer ter alguém, ficar com alguém ao lado. Minha mãe não conhecia a palavra misógino, este para ela era um homem ruim, malvado, que fazia sua mulher sofrer. Dizia minha mãe que aquele que tinha outras mulheres ou uma amante era um safado ou um cachorro – e todo homem era cachorro, menos seu pai, ou seja, meu avô. Dentro dessa moldura vi quadros horríveis de casamentos malogrados, mulheres sofridas, infelizes e abnegadas, umas coitadas cujos valores próprios estavam na dependência, no amor aos filhos e ao lar e no poder de suportar as dores. Essas mulheres não tinham como se separarem de seus maridos, se isso acontecia era porque os maridos tinham deixado a casa com elas e as crianças. Ouvi muitas vezes que o casamento era coisa muito mais de sorte do que de amor; este era do empenho delas, aquela era a loteria, na qual elas tinham de jogar.

Hoje as coisas têm nome. Mesmo estando mais divulgado entre as mulheres o que é misoginia, que o patriarcalismo é uma estrutura de poder que só favorece aos homens e que o sexismo é uma forma de discriminar mulheres só porque estas são mulheres – entram então estes fatores como alertas de perigo em seus pretendidos relacionamentos? Acredito que ainda é difícil para uma mulher jovem começar um relacionamento pretendendo que ele seja duradouro. Assim como é difícil para todas como terminá-lo. A dificuldade está em que precisamente hoje vivemos em plena divulgação do feminismo, dos esclarecimentos, do MeToo e dos protestos ao patriarcalismo, ao machismo, ao racismo e, sobretudo, ao feminicídio – o que faz com que homens se sintam mais inseguros. Será que tudo isso é considerado e prioritário na escolha do parceiro? Ou são eles esvaídos pela mera paixão do início ou das necessidades intrínsecas? Acho que quanto mais o feminismo avança em defesa – entre outras coisas – da igualdade de direitos, o trabalho de conscientização de uma mulher tem que ver com seu meio, suas experiências e a sua disposição de ser um agente de demandas para ela mesma, daí que tudo concorre quando uma mulher quer se relacionar com um homem.

Vi com interesse influenciadoras jovens em canais do Youtube falando do que se deve ou não fazer para se ter um relacionamento feliz; ou passos para conhecer o amor de sua vida; ou mesmo os tipos de homens que afastam as mulheres. Estes temas antes eram mais escritos e cobertos de moral; hoje elas falam deles com muito humor e quebrando sua seriedade para torná-los alcançáveis. Letícia Lecato é uma dessas jovens bravas que no seu canal do Youtube fala com temperamento sobre diu, mamilos, clítoris, pompoarismo e até de temas existenciais como „E se eu não me casar?“ Em seus últimos vídeos pareceu-me ela mais amadurecida, mais concentrada e já não rindo tanto, até tocando de leve, mas explícita em questão de gênero: Um dos sinais do homem maduro é que „ele não rotula aquilo que é coisa de homem e aquilo que é coisa de mulher“. Quando ouvi isso, vibrei, pensei: agora ela vai disparar e chegar no nó da coisa. Não. Letícia Cecato disse apenas que nem precisava falar sobre aquilo. É que o problema é tão óbvio e repetido que se pensa não valer a pena discuti-lo. Errado. Ele agora tem um nome – problema de gênero – e espero que ele seja tão abordado quanto o racismo, o trabalho forçado de pessoas, os crimes contra a humanidade e o meio ambiente.

Como Letícia Cecato fala de sinais, homens deixam sinais que por mais sutis que sejam ao início, serão cada vez mais desvendados ao passo que trabalhemos contra relacionamentos abusivos, onde agressões e violência contra as mulheres são o topo dos problemas. Esta é a pauta. Hoje não só sabemos mais que antes da existência deles, como temos construído um manancial que nos ilustra e nos fundamenta. Ocorrências diárias contra mulheres levam a protestos de ruas e nas redes sociais, #hashtags, estatísticas alarmantes – estamos vivendo o tempo de dizer BASTA: – Homens, basta de tratar as mulheres como se elas fossem estúpidas e seus pertences; basta de impedir ou distorcer a expressão das mulheres, como se elas não tivessem o que dizer; basta de ter as mulheres sob seus controles, tolhendo-lhes a liberdade de serem o que são e o que quiserem. E mulheres, basta de acreditarem em amores vazios, achando que o amor tudo vence; basta de se iludirem por promessas não cumpridas e basta de achar de que só com um homem poderão ser realizadas.

É que os relacionamentos têm de sair da esfera única emocional e egoísta de querer ser amados incondicionalmente e de que a vida a dois existe com o fim de trazer felicidade. O relacionamento existe para que os dois se conheçam, se desenvolvam, cresçam como seres juntos e separados ao mesmo tempo. Isto é muito maior do que os obsoletos happy end „ dos filmes e a ilusão do “assim serão felizes para sempre“.

Como é bom e fácil teorizar! Mas se não tomamos isso como uma receita, podemos pelo menos entender como uma proposta, um antecedente já em curso e impossível de voltar atrás. O feminismo com suas interseccionalidades trabalham pela igualdade dos seres humanos e são tão fortes, corajosos e humanitários, que nem é preciso viver teorizando – o feminismo, no qual eu acredito, existe para que vivamos melhor uns com os outros.

Próximo post: 30/4/2021

„OLHA GENTE, SONHAR É DE GRAÇA“

   

Era uma vez uma influenciadora digital chamada Ygona Moura que contava com mais de 170 mil seguidores nas redes sociais, entre positivos, assim como o contrário – também de perseguidores nefastos. Não sei nada sobre seu nascimento, seu verdadeiro nome, sua infância e escolaridade, mas sei que cerca dos vinte anos deu-se conta de que como travesti se sentia melhor. Sua morte repentina e prematura me comoveu, e deu-me conta de quanto teria gostado de entrevistá-la numa conversa aberta e franca.

É verdade que todos nós temos nossos talentos, mas só poucos são capazes de usá-los para influir milhares de pessoas como Ygona fez na internet, e mesmo tornando-se a rainha dos memes, a mamãe Ygona, a travesti de longas perucas coloridas, com lentes de contato esverdeadas e maquiagem pesada, não era ela nenhuma modelo da Heide Klum, pelo contrário seus 100 quilos de peso foram comemorados num ambiente cintilante de princesa, com balões dourados e bolo de calórica cobertura cor de rosa, o que reitera o que já tinha afirmado: „Não nasci para ser adulto“.

Ah, esses corpos! Corpos grotescos, balofos, barrigas penduradas nos coses das saias, traseiros enormes que se mexem eroticamente rítmicos para frente e para trás. Corpos que emanam gordofobia em muitos, mas também corpos estuprados, ou que se vendem por algo e que não querem só dar prazer, mas também tê-lo. Corpos que atravessam as emergências do dia a dia, saturados de vivências e, que, feitos pelo que dizem deles, significam pelas suas práticas. Ygona Moura usou seu corpo como demonstração de sua identidade e para confirmar suas preferências sexuais, travestiu-se daquilo que não lhe foi assinado – o sexo feminino – o exagero de sua aparência correspondeu a seus desejos de cobrar o prazer, mas não só isso, descobriu que podia aparecer como ela mesma, postando fotos, gravando memes e vídeos .

Numa entrevista de Youtube com a famosa cantora e conhecida na web, Inês Brasil, falou de seu início na mídia; ela ficou conhecida por ataques de gordofobia – „é inveja“, assinalou Inês Brasil – mas Ygona seguiu sem ligar para as críticas, sempre „batia de frente“, até que verificou que também havia aceitação: sua resistência e insistência em prosseguir lhe garantiu mais e mais seguidores – Ygona estava fascinada. Quando o número de impressões superou o de um milhão, não entendeu o que aquilo significava – seria o total de seguidores? Não. Ela deixou-se esclarecer, o que contava eram as mensagens positivas que ela recebia: „Muita gente aprendeu a se amar mais, a se aceitar mais“, quando começou a acompanhá-la na internet. Isto foi o positivo de suas incursões como influenciadora; seus deboches frente ao perigo de contaminação com o vírus da covid-19 não devem ser apagados em nome de deixar intacta sua memória, nem justificá-los com a sua morte como dívida pagada. Ygona Moura também vai ser sempre lembrada pela sua libertinagem, sem que seja, porém esquecido o que a conduziu a isso. Como sobreviver em meio às restrições impostas pelas medidas sanitárias como prevenção de infecção pelo coronavírus? Os que dependem da rua e de clientela que o digam. Esses corpos, cuja existência é minimizada, cobram vida; e se aglomerações não são recomendadas, ao mesmo tempo que a proibição delas nunca foi meta do governo federal de Jair Bolsonaro, pelo contrário; esses corpos estão desprotegidos e descaminhados.

Não acho que essas festas referidas por Ygona sejam só pelo prazer gratuito de diversão. Não. Acho que nelas bases de subsistências são expostas aos negócios, não importando o risco. No seu vídeo após ter pernoitado numa dessas festas, disse Ygona que aglomerou mesmo, e movendo os dedos para simbolizar dinheiro, acrescentou: „e ganhei bem pra isso“. Não sei o que ela empreendeu na festa para ter sido paga, nem ninguém perguntou por isso, mas já era sabido de suas dificuldades financeiras e com seu irmão que, segundo um vídeo desesperado, conta ela, tentou matá-la, ficando Ygona sem ter para onde ir. Pessoas como Ygona, desempregadas, evitadas no mercado de trabalho, têm muito pouca chance de manter-se por si mesmas, assim todo tipo de favor prestado pode ser fonte de um dinheirinho. O corpo não só é fonte de capital, mas também centro de produção sexual, enquanto é dado a ser visto, desejado, invejado, ou até repelido. Espero que seus seguidores fiéis, os que se entretiveram-se e aprenderam com ela, tenham feito alguma merecida doação pelos seus vídeos – um arquivo de inúmeras horas de exibição, onde ela expõe seu corpo, sua vida, seus memes e suas emoções nas plataformas das redes sociais. E observando alguns deles, dei-me conta da precariedade do ambiente onde vivia, das paredes frágeis e da composição básica dos elementos presentes. Ygona não encobriu sua pobreza.

A permissão da própria privacidade ao público como produto de consumo sempre me chocou, mas para Ygona isso era como rotina de trabalho, pois quem elege uma ou mais redes sociais como plataforma para autopromover-se, tem que ter tempo para a labor, estar disponível e ativo para entrar em ação. Vi uma aparição de Ygona no banheiro – parecia mais que o que tinha a dizer era mais importante que o lugar onde estava – tomando banho, a água do chuveiro escorrendo atrás de seus ombros e o peito quase todo à mostra. Pedi a Deus que a câmara do celular não mostrasse mais que isso – Ygona apenas escovou os dentes a seguir. Ela se dava a esse luxo de jogar com o não convencional e encontrar seu lugar na mídia, adorava aparecer e afirmar-se como travesti – pelo menos não percebi em seus vídeos o descontento e o desejo de mudar materialmente de sexo – e esse passo era sua vez de dizer, sem vergonha, que queria um macho, „ou um amigo“.

Não constatei um olhar maldoso, nem sarcástico em Ygona – que também devem ter ocorrido – mas bem a necessidade de afirmar-se, – como diva? – de exibir uma beleza, sua beleza travesti, de poder superar-se, mas também sensível e grato a todos que a seguiam e ajudaram-na com vaquinhas para compra de um celular ou arranjar uma moradia. Isso mostra o quanto Ygona era carente, e a chance de participar na mídia, fazer-se conhecida, ganhar um nome era muito importante para ela. Por outro lado que mais poderia esperar, como negra, obesa, travesti, num país de grandes desigualdades sociais e racista como o Brasil? Ela também conheceu o lado cruel das redes sociais, sofreu com as fake news sobre sua vida, mas sobretudo Ygona continuava, tinha paciência, sonhava. Eu imagino que ela sonhava em alcançar o que a tornasse uma influenciadora de milhões, uma travesti adorada e tão independente economicamente que pudesse comprar um apartamento de luxo. Na sua viagem ao Rio de Janeiro em dezembro de 2020, Ygona olhou para edifícios de apartamentos numa zona nobre da Barra da Tijuca, e perguntou-se: „Será que um dia vou ter um desse?“ „Podia ser aquele, ou aquele outro, ou aquele outro“. „Olha gente, sonhar é de graça“. Ygona Moura faleceu no dia 27 de janeiro de 2021 por consequência da covid 19. Ela tinha 22 anos.

REBECCA SOLNIT E OS DOIS LADOS OPOSTOS: O NOSSO LADO E O OUTRO LADO

        

Andava buscando algo para ler que reiterasse o que penso sobre negacionismo e polarização; apesar de existir muito sobre os temas, queria algo que me confirmasse e que falasse por mim; foi quando visitando uma web alemã, Blätter für deutsche und internacionale Politik, que encontrei um artigo cujo título me chamou atenção, algo como, por que não devíamos ser transigentes com nazistas. E para a minha surpresa o artigo era de autoria de Rebecca Solnit, já minha conhecida desde que descobri seu famoso ensaio em 2017 “Os homens explicam tudo para mim“ e escrevi sobre ele um artigo para este blog.

Seu artigo On Not Meeting Nazis Halfway de novembro do ano passado, após as eleições americanas e publicado pela Literary Hub aponta para um tema atual, o dos discursos radicais, dos posicionamentos extremos e das confrontações até fatais e tão presentes na mídia do nosso dia-a-dia. Pelo menos uma vez já pensamos se de súbito poderíamos entrar em tal situação? Eu já pensei muito sobre isso, mas não como um momento de risco de vida, nem por estar querendo me expor a ele, e nem por precisar de um momento desse para extravasar minha raiva, o que seria a opção mais desfavorável e até perigosa, mas sim ao deparar-me com ele numa conversa sem que se esperasse o assunto viria à tona, ou, o mais provável, em público desencadeado por racismo, misoginia, ou – maus-tratos a pessoas, animais e à natureza.

Seu ensaio longe de ser um manual de se como proceder frente ao inimigo, aquele que está do lado oposto ao nosso, apela para a clareza.


O fato é que a sociedade americana em sua grande maioria está dividida, e isso ficou mais nítido desde que Donald Trump candidatou-se a presidente, venceu as eleições em 2016 e seu eleitorado foi mostrado de forma “folclórica”: a maioria branca, nacionalista e sem pudor de exibir suas armas; mas também pessoas desgastadas e sofridas pela perda do status econômico e pelas restrições do desemprego. Essa gente se sentia desprezada, e daí a confiança no presidente, no homem que prometia ressuscitar o país e fazê-lo grande novamente, um projeto nada modesto, mas bem megalomaníaco; para mim impossível, mas condizente com uma mentalidade que se crê no centro do mundo.

De onde vem „a sensação de não ser respeitado“? Rebecca Solnit cita Paul Waldman, do Washington Post, para excluir causas diretas de falas e programas dos democratas – como se crê – apontando para um conteúdo enorme de discursos dirigidos aos brancos, metendo-lhes na cabeça que sem respeito eles são olhados de cima para baixo, e não são levados em conta pelas elites liberais, pelos políticos democratas. Para dar-me conta do que isso significa, vi uns vídeos das manifestações pró impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Também no Brasil a mesma engrenagem funcionava impondo narrativas falsas, disseminando mentiras. Seria descabido aqui querer apagar os erros de Dilma Roussef e os do Partido dos Trabalhadores, mas as consequências daquela campanha imunda foram bem maiores do que os retrocessos políticos do PT, descambando na situação política que ora passamos. Gritos, descargas de repúdio à ex-presidenta e ao seu partido – o ódio estava instalado do outro lado, o país estava dividido e não havia meios-termos conciliadores, o que se fez repetir nas eleições de 2018 para a presidência – a extrema polarização eliminou facilmente candidatos de renome como Ciro Gomes e Marina Silva, mas não eliminou o PT, indo para o segundo turno eleitoral contra o candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, que para nossa incompetência venceu as eleições.

Infelizmente o Trumpismo é maior do que Trump e vai sobreviver na era de Joe Biden como um projeto ideológico de brancos fascistas; negacionistas das investigações científicas quanto às mudanças climáticas e precauções contra o coronavírus; antifeministas; racistas; anti-imigrantes; contra as comunidades LGBT+, e assim vai. Essa gente forma um lado, um lado obscuro, e Rebecca Solnit se coloca do outro lado – eu também. Pois como encontrar meio-termo de conciliação? Como posso aceitar um racista se sou feminista e tenho amigos negros e imigrantes? – Seria como querer servir a dois deuses. Como posso concordar com coisas, nas quais não acredito? E mais: „A verdade não é um compromisso em algum lugar entre verdade e mentira, entre fato e ilusão, entre ciência e propaganda.“ A verdade sobre a forma da terra não pode ser alguma coisa entre um disco e uma esfera; a verdade que ela é uma esfera é um fato comprovado, explica Solnit.

Outrossim, expressar-se como a favor ou contra é puramente democrático e deve permanecer; discutir por opiniões divergentes pode até ser positivo, mas a isso não me refiro, e sim à defesa de princípios, o que muitas pessoas não sabem distinguir. As opiniões podem ser vagas, gerais e até mudarem; os princípios são profundos, arraigados, difíceis de mudar. Se concordo com a opinião de um fascista, só para obter uma conciliação pacífica, estou ferindo meus princípios e iludindo-me ao pensar que o problema foi resolvido porque o respeito venceu ao calar-me. Mas que o tem que ver respeito com a situação? Nada, como também o contrário dele. A situação deve ser encarada por outro ângulo, o do posicionamento honesto para não misturar as coisas e evitar saídas conciliadoras e „terapêuticas“, terminando por legitimar e engrandecer o outro. Aqui Solnit dispõe-se a sugerir melhores discursos, „narrativas que alcancem a todos“, pois „uma atitude amigável e acolhedora tem mais probabilidade de libertar o outro de seus delírios“ do que chamá-lo de burro ou monstro – o objetivo é trazê-lo para o nosso lado, e é aqui onde titubeia nossa capacidade, já que o outro lado fortaleceu sua narrativa e „vangloria-se“ dela – temos que saber nos colocar, apresentar fatos e não „espalhar fantasias“.

Para Rebecca Solnit o problema são as políticas conciliadoras. As medidas governamentais para amenizar os desastres ecológicos e as alterações do clima; a saída tardia da base econômica do carvão é a prova desse descuido. Mesmo assim essas medidas são atacadas pelos do outro lado, só que eles não apresentam fatos em lugar de mentiras, seus moldes são de aplicar correção ao nosso lado.

Uma coisa é enfrentar-se com uma pessoa do outro lado, tendo esta abertura para falar sem que se corra risco moral, e outra é enfrentar-se com um nazista declarado – com este não quero me deparar –, e quaisquer que sejam os sinais de agressão ou violência do outro lado, o melhor a fazer é buscar proteção, e pessoas que não recebem ajuda num momento desses, podem levar a pior. O mesmo para misóginos, machistas, transfóbicos, anti-imigrantes, racistas… A violência não se justifica. Por outro lado não é fazendo concessões que se elimina comportamentos abusivos de maridos, como se pensava; não é se calando que se apazigua um racista, pelo contrário, o engrandece mais; e não é com admitir um assédio por medo das consequências a posteriori que se livra do opressor, ao revés, ele se sentirá mais forte e seguirá assediando. Um nazista nunca passará para o nosso lado, „a não ser que ele deixe de ser nazista“, segundo Rebecca Solnit.

Conquanto as sugestões de Rebecca Solnit parecerem teóricas, pois o momento, o enfrentamento com o outro lado, é muito mais complexo e imprevisto do que se imagina, fica a sua observação inteligente e afiada da situação como contribuição a que aprendamos. Pode-se começar em casa, transmitindo às crianças o valor de economizar elementos da natureza, como a água e a energia; e melhor do que ensinar o quanto está errado deixar vasilhas plásticas na praia é apanhá-las e levá-las a uma lixeira. Com esses pequenos passos crianças e adultos aprendem o que é ter coragem e iniciativa civil, servindo como exemplo para outras situações. E isso não é o nosso projeto de futuro, se queremos um mundo melhor?

        

Próximo post: 16/2/21

Bonecas para meninas e carrinhos para meninos: Deve ser sempre assim?

  

Sophia ainda não tinha três anos, quando sua mãe cumpriu o que tinha prometido, caso a menina fizesse, durante um mês, bem direitinho cocô e xixi no peniquinho. Sophia não hesitou na loja de brinquedos o que ia escolher: uma boneca vestida de médica com estetoscópio – ela adorava brincar de médica. Quando a mãe foi pagar, a caixa, depois de olhar para a boneca de cor escura perguntou a Sophia se ela iria para uma festinha de aniversário. Mãe e filha surpreendidas, negaram . A caixa, ainda olhando fixamente para a boneca, insiste: então isso é um presente para uma amiguinha? Sophia sem compreender o porquê das perguntas, deixou a mãe explicar que a boneca era um presente prometido com direito a ser escolhido. Sem desistir a caixa se dirige à menina e pergunta-lhe diretamente: amor, você tem certeza de que essa boneca aí é realmente a boneca que você quer? Sim. Respondeu Sophia com segurança. Mesmo assim a caixa ainda não desistindo, tentou sobressair-se: mas essa boneca não se parece nada com você. Nós temos muitas bonecas aqui que são bem parecidas com você. A essa altura a mãe de Sophia já estava furiosa e pronta para acabar de uma vez com a teima da caixa, quando Sophia mesma se adiantou: ela se parece comigo. Ela é médica e eu sou médica. Sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Vê seu cabelo bonito? E seu estetoscópio?

Situações assim grotescas podem passar não só nos Estados Unidos, mas em quaisquer outros lugares onde o racismo é visível e exacerbado. Sophia é uma garota branca de cabelos louros, e isto não a permite num meio racista declarado, exprimir suas preferências, se estas ferirem a moral estabelecida. É preciso ir contra a corrente, como fez Sophia, dando à senhora do caixa uma lição civil de coragem, enfrentando a situação racista com outra anti-rascista. Se a senhora aprendeu a lição, é pouco provável, como bem menos cogitou sobre ela, e mais possível ainda que não tenha nem compreendido o gosto da menina, nem a sua identificação com a boneca. O caso de Sophia viralizou na internet; sua mãe divulgou no Instagram uma foto da filha com a boneca e um pequeno comentário:

Esse ocorrido só confirma a minha crença de que nós não nascemos com o convencimento de que a cor da pele define um papel (na sociedade). Peles existem de várias cores, assim como as cores de cabelos e olhos, e cada uma delas é bonita.

Entre as relações das crianças com seus brinquedos, outra não é mais discutida por profissionais da área que a da boneca e a do carrinho, até o ursinho perde nessa parada. Por quê? Sem dúvida que os brinquedos acompanham e ajudam no desenvolvimento infantil, são uma parte essencial nele e indispensáveis ao progresso motor e cognitivo e à competência social e emocional. Mesmo que um bebê de poucos meses ainda não distinga um brinquedo, ele é fundamental nessa fase para apalpá-lo, levá-lo à boca, ou ouvir seus ruídos ao batê-lo contra uma superfície; um brinquedo é um puro objeto individual; uma boneca, nessa idade, não tem vida. Só na faixa dos dois e três anos – segundo os psicólogos – as crianças começam a aprender brincando. O que parece só fofinho e engraçadinho nas brincadeiras, já é iniciador de aprendizagem: crianças copiam os adultos, reconhecem sentimentos e sensações, tiram partido dos brinquedos, aprendem a lidar com eles e até a cuidá-los. A boneca que não tinha vida, passa a tê-la, e a criança dá vida à boneca, porque só os que vivem, podem comer, chorar, ser levados para passear e participar de conversas. A boneca também passa a ser um meio de contato com o social; com ela as crianças aprendem a relacionar-se e diferenciar relações nas brincadeiras de faz de conta, onde os adultos são representados em diversos papéis, tanto familiares como sociais: a mãe, o pai, os filhos, os irmãos, os amigos, os médicos, os educadores – cria-se um núcleo familiar e social muito vivo e sério, embora sob a base do faz de conta.

Nesse mundo de brincadeiras, sentimentos e emoções afloram, e as crianças aprendem a relacionar-se com eles. É na alegria da festinha de aniversário da boneca, que também podem passar decepção e raiva; mas também a empatia, se a boneca caiu ou teve uma perna quebrada; o cuidado de trocar a roupa, dar de comer ou botar pra dormir ou até dormir junto com ela. Aí não importa se a boneca é de pano ou de silicone, barata ou cara, uma Barbie ou um bebê. Não. O que conta é aprender habilidades brincando. Dizem especialistas que se às crianças fosse dada uma profissão, esta seria a de brincar, e já estimam
que uma criança deveria brincar 15 mil horas até os seis anos de idade, isto é, sete ou oito horas por dia – como um dia de trabalho normal e regularizado, incluindo – claro – sábados e domingos.

Contudo a boneca pode ter seus lados negativos quando ela é marcadora de desigualdade entre os sexos – iniciando uma questão de gênero – e passa a ser exclusiva das meninas, sendo malvista e evitada para os meninos porque ela pode afeminá-los. Essa crença é avassaladora; as investigações e discussões que a combatem são recentes, e ela aspira a permanecer resistindo em muitas culturas. Ela se fundamenta em que a escolha – clichê – de bonecas para meninas e carrinhos para meninos é algo natural nascido da diferença de sexos – os garotos, pelo seu físico, preferem brincadeiras ativas e, por isso, escolhem brinquedos que se adaptam a elas. A verdade é que essa escolha é bem mais feita pelos pais.

Li num artigo de carácter científico com base nos estudos de duas psicólogas (1) que nas crianças pequenas os hormônios e os impulsos para mover-se não são os responsáveis pela escolha do brinquedo preferido. Elas demonstraram que com bebês de um ano e seis meses, independente do sexo, a intensidade de movimentos é a mesma ao estarem eles ocupados com brinquedos ditos para meninos ou para meninas. Os níveis de testosterona, aos quais os bebês foram expostos na fase pré-natal, também não comprovam como biológica a causa de tais predileções, apesar de que eles possam influenciar depois nas atividades físicas. Quanto maior for a exposição de hormônios masculinos no útero materno para a criança, mais movimentos ela demonstrará ao brincar, não importando se com carrinhos ou bonecas, ou seja, o que se argumenta como ser o nível alto de testosterona, impulsor de movimentos, o que leva os meninos a terem brinquedos exclusivos, foi contrariado pelas investigações das duas psicólogas. Se realmente existe uma predileção nata na escolha dos brinquedos, a pergunta fica sem resposta, segundo as psicólogas.

Pais sentem-se aliviados com a „lógica“ distinção de brinquedos e não querem ver que dessa distinção se cria comportamentos arraigados ao diferenciar papeis sociais opostos, porque acham que os sexos devem estar em oposição preservando uma performance pré-estabelecida para seus filhos. Quanto mais se separa brincadeiras e atividades entre meninos e meninas, maior é a distância entre eles, e isso ainda é o papel da escola tradicional. A questão de gênero – gender em inglês – que deve ser levada a sério – é sair dos estritos parâmetros diferenciadores, na maioria baseados na biologia, e conscientizar-se que – aqui cito a definição da OMS – Organização Mundial da Saúde – gênero „refere-se a papeis socialmente construídos, atividades e atributos que uma sociedade considera como apropriados para homens e mulheres“… – e tudo isso, claro, com o fim de promover diferenças e desigualdades sociais entre eles. A OMS está pronta a ajudar os governantes que consideram prioritária a questão de gênero no desenvolvimento educacional e social de seus países. Tem o Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro interesse nesse projeto?

Pais influenciam na escolha dos brinquedos dos filhos, mais do que eles se dão conta; e a pergunta que fica para eles é: meninos também devem brincar com bonecas? Se eles quiserem, por quê não? Por que dividir os brinquedos? Por que reservar características de ternura, delicadeza e carinho só para as meninas? Junto com os pais, os brinquedos são portas para a vida adulta, para o mundo, e meninos e meninas serão pais no futuro e precisarão de habilidades como ser cuidadoso, carinhoso, paciente e saber brincar. Por que não ir aprendendo isso já desde cedo?

Há uns anos atrás – quando ainda não sabia nada sobre gênero, nem me preocupava com o feminismo – conheci um casal com dois filhos; a menina era mais velha que seu irmão uns quatro anos, mas mesmo assim o pai só se dirigia de forma doce a ela: benzinho, amorzinho. O menino – mais novo – era MEU FILHO, falado alto e forte. Esta experiência me tocou e foi meu ponto de partida para dar-me conta de quanto o papel da mulher na sociedade está envolvido com imagens preconcebidas e simplificadas.

(1) Artigo: Mädchen spielen mit Puppen – aber warum?
As duas psicólogas são: Gerianne Alexander e Janet Saenz

Próxima postagem: 1/10/20

MULHERES NÃO NASCERAM PARA SEREM SUBJUGADAS

 

Una mujer nunca está mejor sola – Quantas mães já não afirmaram isto às filhas como verdade absoluta? São poucas as que não o fizeram – sem incluir a minha que me deixava acreditar nisso por longo tempo como um fato comprovado. Só que a frase não é um fato. Ela é uma invenção carregada de patriarcalismo, dando ao homem o poder sobre a mulher no seu papel de marido, pai de seus filhos e provedor do lar; repetida pelas gerações, e mesmo com o avanço dos debates feministas, ela ainda é crida por mulheres de diversas classes sociais, culturas, religiões, nacionalidades, formação escolar e idades.

Que nunca o melhor para uma mulher é que ela esteja sozinha (em português) diz uma mãe às duas filhas para atingir àquela que no casamento sofre de violência doméstica num filme espanhol da cineasta Iciar Bollaín de 2003, cujo título Te doy mis ojos – não entendido por mim até ver o filme todo – refere-se a uma cena sexual de intensa entrega entre o casal, onde num diálogo íntimo ela dá ao marido partes de seu corpo que ele deseja: Ele: Quero teu braço. Ela: Te dou meu braço. Ele: Quero teus olhos. Ela: Te dou meus olhos. E assim vai ela cedendo seu corpo, vivendo o ato com profunda emoção, sentindo-se completa com aquele, com quem ela encontra fusão. O momento é sagrado, é metafísico. Isto e a esperança de que esse homem, esse tudo (1) a faça feliz, se desencanta quando ele volta a espancá-la, e ela, por fim, compreende que a vida a dois não é só na cama, e separa-se dele.

A violência contra a mulher é multilateral, também atinge os filhos e outros membros da família, mesmo que eles não sejam tocados. O atual ou o ex, o importante é que haja um relacionamento em vigor, ou que este está por se acabar, ou já acabou, e o local das investidas é comumente em casa, sem negar outros possíveis. Por conta da pandemia, o consequente confinamento em casa contudo, não é a causa da violência de homens já propensos, bem sim a causa de seu aumento, pois os casais permanecem mais tempo juntos que o necessário – perder a rotina é perder sua estrutura. O uso excessivo de bebidas alcoólicas para aguentar a quarentena, ou qualquer outra coisa podem levar a situações inflamáveis, como diferenças de opinião e, sobretudo, os medos: de perder o emprego, a autonomia, ou arruinar-se – condições que ferem bastante a masculinidade e canalizam-se contra os entes próximos mais vulneráveis. A situação tem piorado em todo o mundo; as estatísticas são tão alarmantes, que se um país como o Brasil pudesse trocar seus índices de violência e feminicídio contra a mulher com o índice de diminuição da pobreza, teríamos alcançado uma posição exemplar no mundo, pois o Brasil ocupa o quinto lugar, no ranking mundial de violência contra a mulher. Se podemos afirmar, segundo dados oficiais de 2019, que uma mulher é assassinada a cada duas horas, imaginemos quantas não são espancadas em duas horas?

Contudo não só de pancadarias vive a violência doméstica, ainda assim muitas mulheres creem que não são vítimas dela, por não serem espancadas; elas não levam em conta que as humilhações, intimidações, ameaças, trabalhos domésticos excessivos e não reconhecidos, que lhes roubam tempo livre também são formas de violência em casa – a violência física só é uma dos cinco tipos descritas pela lei Maria da Penha. Elas também acreditam que quando suas necessidades não são atendidas, são culpadas disso, sentem-se inferiores e não se acham à altura de ser a mulher, a mãe, ou a amante. Daí vem o esforço de querer agradar e ser merecida custe o que custe, deixando-se levar por mentiras, fazendo acordos, para elas, desfavoráveis, perdendo amigos e oportunidades de trabalho. Mulheres que escutam a miúdo: Você é fraca e burra, você é louca e tem a cabeça oca, ou, lá vem você de novo com depressão, sua doente. Só com muito esforço e devida ajuda sairão dessa, e após terem passado por isso afirmarão com certeza: Eu me sentia mesmo burra; eu estava cega; como pude passar tudo aquilo? As histórias dessas mulheres têm que ver umas com as outras, há padrões repetidos, sintomas que sempre aparecem. Por que mulheres não se separam facilmente desse tipo de homens? Superficialmente olhando, parece até que elas se acomodaram a essa sorte – mas não é assim. A autoestima da mulher, claro, se reduz consideravelmente se ela recebe por muito tempo humilhações moral e psicológica do parceiro – mesmo que ela não tenha passado isso antes. A capacidade, porém, de com suas próprias forças restaurar sua autoestima e criar mudanças na sua vida, é sua via crucis e uma das causas mais difíceis que lhe impede de liberar-se.

No vídeo – Conectar Fortalece – (2) diz uma mulher, que conhece os horrores do lar: O mais complicado, eu acredito que é entender as opressões que a gente sofre por ser mulher. A violência contra a mulher é estritamente violência de gênero, onde os arraigados papéis marcados pelo sexo biológico foram construídos para gerar desigualdades entre homens e mulheres, estabelecendo autoridade e domínio, criando poderes. Dessa separação saiu o silêncio, não só o do jugo, mas o de seres que não só sabem se comunicar, como não sabem o que dizer. O que é gritado e esbravejado nas brigas, nas disputas pela razão, no fundo é sempre o mesmo – o discurso repetitivo dele e dela; o que leva, porém, a extrapolar o quadro é a voz mais alta – que faz estremecer; é a mão ou o pé mais pesados – que faz doer e sangrar. Mulheres que não se deixam amedrontar, partem para a confrontação; é a guerra, e aqui o vencedor é o mais forte fisicamente – a solução? Claro que não. A melhor solução muitas vezes não está disponível, por mais que se tenha os números de emergência180 e 100, e que os vizinhos possam ajudar chamando a polícia, e que já haja algumas poucas casas, abrigos temporários para as mulheres fugitivas de seus algozes. A violência contra a mulher, seja qual for a sua cara: física, psíquica, moral, sexual e patrimonial (Lei 1340/06) tem a mesma base: o pensamento, ou a idéia – que é uma representação mental figurativa – profundamente enraizados na cabeça masculina de que as mulheres são seres inferiores em relação a eles, e que por meio dessa noção eles se orientam e agem. Daí eles tiram o fictício „direito“ de maltratarem e até matarem mulheres e meninas.

É sabido que toda forma de agressão e violência contra as mulheres são formas de defender o machismo. Machos que chegam a tanto, além de serem aptos para o mal, têm suas fraquezas, carregam por muito tempo um desequilíbrio emocional que lhes forçam a construir uma fachada. Não são poucos os espantos e a surpresa de pessoas conhecidas por quase não acreditarem que „o tal“ no fundo tinha um potencial de violência: Mas ele parecia tão simpático e amável! Nunca pude imaginar que ele fosse assim – é que o cara tem muitas caras, e ainda há aqueles que espancam suas mulheres e ainda têm a petulância de as levarem para o hospital.

Por que o Estado não pode proteger melhor suas mulheres? Já se faz algo, mas ainda não o suficiente para erradicar o problema. Todo esforço é louvável desde que este se concentre nas causas e dê prioridade as mulheres de se livrarem de seus agressores, protegendo-as – o afastamento é imprescindível – pois não é uma terapia que vai acabar com os maus-tratos deles. Muitos homens se submetem a um tratamento psicológico, ou por imposição da justiça, ou para dividirem sua culpa com as parceiras, alegando que se há problemas na relação, estes também são por culpa delas – é a necessidade desses homens de permanecerem como são por não terem outras alternativas.

E no Brasil? O problema é assustador pelos elevados índices de ocorrência, o que nos põe numa posição degradante frente a outros países. Pergunto-me o que a ministra Damares Alves, responsável por assuntos da mulher e da família, vai fazer para melhorar as condições das meninas – ela não incluiu a condição das mulheres vítimas de violências na 63. Sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher na ONU:

„Num relatório de 2016 aponta que o Brasil é o pior país
do mundo para se criar meninas, e isto nos entristece.
Nós vamos virar este quadro, estamos buscando inú-
meras alternativas de proteção das meninas.
Nós vamos voltar aqui, nesta comissão pra dizer que
nós somos uma das melhores nações pra ser mulher.“
(3)

Já estou aguardando Damares Alves.


(1) Refiro-me à letra Essa Mulher da compositora Joyce.

(2) A web Revista AZMina: Penhas: Criando Conexões Contra A Violência.

(3) Palavras de Damares Alves na sede da ONU em 12.3.19

A COVID- 19 E EU

 

Meus cafés! Meus lugares preferidos de retiro intelectual, deixei de diariamente frequentá-los há três semanas, onde neles me sentava com uma xícara grande de café com leite, um livro, um caderno, um bloquinho de anotações – este está sempre comigo – e várias folhas soltas de papel anotadas, frases ainda não acabadas de pensamentos para revisar.

A Covid-19 me encerrou em casa – só saio para as pequenas necessidades e um passeio num parque perto de casa, se faz sol. Na Europa estamos apenas saindo de um inverno instalado desde dezembro; sem neve; sem quase temperaturas negativas, mas mesmo assim frio e de chuvas. Um inverno diferente dos que conheço desde que vivo no velho continente, e um inverno que desembocou numa pandemia – a dita Coronavírus – quando ele estava prestes a terminar, já cobrando a força da luz da primavera. A pandemia chegou quando já estávamos esgotados desse inverno chato e longo; ela apareceu num cenário que prometia logo mudar – só coisa de semanas – começando a esverdear-se e abrindo a oportunidade de que já começássemos a observar as plantas, os arbustos e a ver a terra salpicada aqui e acolá de flores miúdas e coloridas. Eu gosto de olhar, nos arbustos e nos galhos baixos das árvores, os rebentos, brotos minúsculos – mas que fortes são! – ainda fechadinhos, guardando aquilo que vai explodir na beleza de um sem números de folhas novas e brilhantes. Às vezes penso que devíamos aplaudir a natureza como agradecimento pela alegria que nos dá, e até como ato de contrição pela maldade que fazemos a ela.

Tudo isso está pra chegar, e está por precauções restringido o seu convívio. Os parques e jardins não podem se encher demais, as pessoas não podem sentar na relva em círculos – a distância de no mínimo um metro entre elas é inevitável. Será que em breve deixarei de assistir a tudo isso? Perderei as primeiras quenturas do sol das manhãs de primavera na calçada de um dos meus cafés prediletos? Ele agora está fechado, suas mesas da calçada atadas umas as outras – até elas aderiram à clausura, preservando-se do contato com os humanos.

Não estou nem nostálgica, nem „em busca do tempo perdido“ – nem o tempo está perdido para mim – no presente estou reservada e seca, aguardando o que não sei. Todos nós esperamos o que não sabemos – vai haver mesmo uma mudança pra pior como dizem os analistas políticos? Não queremos crer nisso, evitamos tais esclarecimentos, nos desviamos das distopias – que com certeza virão – como expressou Greta Thunberg em 2018: „Quero que vocês entrem em pânico“, referindo-se, claro, às mudanças climáticas. Estas aparentemente não têm que ver com a Covid-19, mas este tem que ver com exacerbações de medidas políticas, com irresponsabilidades de governantes, as quais também causam as mudanças drásticas no clima – não podemos estar tão apáticos a ponto de não levantarmos conjeturas e questionarmos de onde mesmo esse vírus se originou, embora não tenhamos respostas.

Quando da minha janela vejo de vez em quando adultos e crianças, – às vezes um cachorro os acompanha – tenho a impressão de que tudo está normal e pergunto-me se isso não passa de exagero; mas não está normal quando vejo alguém de máscara num supermercado e a lentidão dos caixas: PREZADOS CLIENTES MANTENHAM, POR FAVOR, AS DISTÂNCIAS MARCADAS NO CHÃO NAS FILAS DAS CAIXAS. Aí entro na realidade e sinto que estou suspensa no tempo, que um elevador me levou a um andar superior, sem que eu ainda não saiba quando ele me trará de volta à normalidade – como também à normalidade dos meus cafés. É que em casa a pandemia me chega pela mídia de forma virtual, por estatísticas de infectados e mortos pelo vírus, cenas muito rápidas de hospitais inundados de gente, médicos e enfermeiros esgotados. Mesmo com todo esse desconcerto não me deixo levar pela melancolia e afastar-me das coisas, estou até mais afiada, procuro concentrar-me naquilo que me interessa, mas não loucamente dar conta de tudo só porque estou mais tempo em casa. Não. Estou em passo de valsa procurando me harmonizar com as imposições impostas; não estou atrás das grades, mas até usufruo de minha semi-cadeia.

Assisti recentemente ao Pepe Escobar entrevistado por Leonardo Atuch no 247. Respeito muito suas análises géo-políticas, mas ele também flutua nas opiniões sobre a crise do coronavírus, ele não é o dono da verdade. A verdade nos chegará? O que está implícito aqui é quem tem a culpa e por quê, e não justificativas e explicações que se dizem verdadeiras: Tudo começou na China – mas será mesmo, ou o vírus foi levado pra lá? O vírus escapou de um laboratório americano, o Fort Detrick, que agora se encontra fechado, e foi levado pra China, e para isto existem explicações – mas, não há provas contundentes. E o que mais me irrita: por que o isolamento de todos, e não só daqueles mais susceptíveis é defendido como certo? E quanto às medidas de providência à população: de repente, em duas semanas de pandemia, certos governos liberaram trilhões em dinheiro, tornaram-se bondosos, prestativos e mandaram a uma grande parte da população ficar em casa; de repente apareceram reservas financeiras, intenções de dar créditos e criar dívidas – são partes do PIB anual à disposição – mas como restituir esse saco de dinheiro aos cofres das nações? Quem vai pagar isso de volta? Ou, a quem mandarão a conta? Por outro lado muitas pessoas acreditam que dessa reviravolta será a entrada no socialismo, – sobretudo nos países do dito terceiro mundo elas pensam que os governantes, por conta da pandemia, começarão a priorizar às necessidades do povo. Será assim? Claro que não.

Fala-se de uma vacina. Também será ela uma exigência das fronteiras, dos portos e aeroportos? Como não. Antes as vacinas eram prevenções às doenças ditas típicas dos trópicos, para que os viajantes não se contagiassem com elas lá encontradas. Agora antevejo que vamos a passar a ser tratados como animais que são vacinados por lei antes de entrarem em outros países. A ordem é que o viajante não leve o vírus aonde for. Mas teremos que comprar essa vacina? Ou será grátis para aqueles que não podem pagar? São perguntas e dúvidas que alimentam o nosso dia-a-dia; e até quando estivermos a salvos dessa pandemia, vamos esperar.

 

Próxima postagem: 28/4/2020

APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO? POR QUÊ NÃO?

 

Yuval Harari, historiador israelense e autor do Best Seller Homo Deus: Uma breve história do amanhã, disse numa de suas entrevistas que o sentimento de satisfação dos seres humanos não depende exclusivamente de condições objetivas, mas, depende também do que eles imaginam produzindo expectativas com relação ao presente e ao futuro. Segundo ele, as condições objetivas melhoraram muito a partir das últimas gerações, não significando isto que as pessoas estejam mais satisfeitas que antes – suas expectativas é que aumentaram – e, paradoxalmente, a História mostra que até quando há crescimento social e econômico, as pessoas podem estar mais insatisfeitas porque suas expectativas se tornam maiores; e o que gera uma crise é quando as expectativas estão muito altas e o crescimento não prossegue, pois nenhum crescimento é ilimitado, disse Harari.

As expectativas não são sentimentos, são projeções cognitivas que atuam como variáveis, advindas geralmente de experiências passadas, que se dirigem ao presente, ou bem melhor ao futuro, como forma de antecipá-lo; ou seja, as expectativas têm que ver com resultados imaginados – desejados ou não – quer o contexto seja positivo, quer negativo. Alguma coisa vai acontecer, e se não há certeza ou garantia de como será, aparecem as expectativas alimentadas pela incerteza. Se num contexto positivo as expectativas não se efetivam, o resultado será uma decepção, e os exemplos, onde se as põem, são inúmeros: um concurso, uma eleição, uma viagem, ou conhecer uma pessoa. Aqui as expectativas podem assumir um caráter exigente e de demandas, prejudicando o anterior encanto do relacionamento. Quem vê o outro como aquele que deva ser como se espera dele, é isto enfocar-se só numa possibilidade que, sem dúvida, levará à frustração como produto de uma ilusão. Um dos grandes fardos da vida é querer ou ser forçado a corresponder às expectativas dos outros quanto à conduta de como se comportar; no fundo ninguém está no direito de corresponder ao que se espera dele, e aquele que espera mais do que o outro pode dar, cai sempre em decepção.

Eu, que tenho a tendência de sempre buscar fundamentos nos fatos, aonde quero chegar com esses conceitos que me custaram leituras e reflexão? Ao fato bastante comum hoje em dia de se usar as redes sociais como um meio de conhecer pessoas para um eventual relacionamento. Antes – quando por meio de cartas – esse meio era visto como não confiável e negativo; hoje, porém, estamos na era em que os meios digitais comandam nossa vida; meu Smartphone mede apenas treze centímetros – e não é um dos últimos modelos, – mas com ele posso abarcar o mundo, e se não o faço, preferindo ir ao computador, é pelo elementar prazer de não me sujeitar a uma coisa pequena e tão poderosa. Eu sou uma exceção; a maioria das pessoas usa o celular de modo generalizado, e por que não para conhecer alguém? Sim, por meio de aplicativos específicos, e um deles de alcance internacional é o Tinder. Este aplicativo é fácil de ser manejado e grátis numa de suas utilizações; nele homens e mulheres têm acesso a uma imensa galeria de pessoas, como um álbum de fotografias infinito, por que sempre aparecem mais ofertas, mais possibilidades, mais chances. Muitos podem encontrar nele seus parceiros, mas não acho que por sorte ou garantia dada pelo aplicativo; é que essa forma de conhecer pretendentes já se proliferou tanto que ela leva a que as formas clássicas fiquem um tanto desleixadas – quem passa muito tempo por dia com a cabeça afundada nesses tais aplicativos, deixa de ver o que passa ao redor – e isto tem que ver com expectativas. Se não fossem estas somadas às esperanças, os tais aplicativos não teriam tantos seguidores. Refiro-me aqui menos ao seu uso visando uma paquera inconsequente, mais ao uso daqueles que querem conhecer uma pessoa com o fim de um relacionamento pra valer, como sendo esse até o último recurso para encontrar o companheiro de vida.
Conhecer alguém fora desse formato é o que hoje me surpreende; ele é muito simples – tudo se faz com as mãos como se uma varinha mágica fosse um coração verde e movendo-o para a direita quando a foto de alguém junto a uma curta descrição dela agradam. E o melhor é quando esse alguém vendo a foto, também move a varinha mágica, ou seja, o coração verde, para a direita: aí acontece um match – bingo! – os dois sozinhos poderão paquerar virtualmente, conversar e marcar encontro. Nem sempre a varinha mágica funciona, nem sempre há match, por isso é tentador continuar buscando. Outra coisa é a comodidade e flexibilidade de uso para conhecer alguém, – em casa onde seja, nos intervalos de trabalho, antes de dormir, – é suficiente a existência de WI-FI no lugar para se entrar na rede virtual de buscas. Também poder selecionar a busca por idade é para aqueles na faixa dos 50 ou 60+ a oportunidade de se concentrar neste grupo e fazer da busca algo bem especial.
Fato é que o número de solteiros em geral vem aumentando no Brasil, e com ele mudanças se revelam criando uma forma de cultura. Uma mulher jovem de classe média que vive de seu trabalho e podendo morar sozinha, ainda pensa em casar nos moldes de sua mãe ou avó? Menos viável. Melhor ela tenta harmonizar seu estilo de vida a um relacionamento e a uma futura família adequados, porque seus parâmetros que definem um marido, um parceiro não só são bem diferentes de antes, como mais exigentes, e aí está o problema – mulheres que impõem pré-requisitos, dão prioridade a seus interesses e não se deixam levar pelas aparências, também querem determinar sua vida a dois, mas sem perder o encanto do amor. É possível? Essas mulheres não são compreendidas por homens bitolados em seus esquemas retrógrados – por outro lado, espero que elas também não precisem deles, mas nem por isso é simples assim. Por mais que mulheres tenham lutado pelos seus direitos na sociedade, não significa isso que elas tenham deixado de sonhar e idealizar modelos impossíveis.
O Tinder garante um espaço secreto nos chats, já que muitos dos participantes preferem não se alongar em seus perfis, mas priorizar nas fotos. Estas procuram satisfazer às tendências das redes sociais: as pessoas devem aparecer bonitas, atraentes, alegres e sociais, o que esta padronização leva a um anonimato para proteger a identidade. O que ele espera de mim? O que ela quer de mim? O que eu quero? Acho que só poucos se perguntam; o importante é ter expectativas e estar ligado no aplicativo como tantas outras pessoas – este aspecto dá conforto e segurança, apesar de conhecer, encontrar alguém por meio de um aplicativo de relacionamento é uma aventura, pois a pessoa aparece como algo isolado, pouco ou nada relacionado com outros aspectos da vida, saída de repente não se sabe de onde. Isto me faz lembrar dos flertes de minha juventude, – apenas nos olhávamos, talvez só uma vez por dia no ponto de ônibus, mas isso provocava ânsia e desejo de rever a pessoa. O tempo até que nós chegássemos a falar um com o outro nos enchia de expectativas e esperança, assim como dava a chance de averiguar sobre a pessoa, procurar saber quem ela é. Era muito bom.

MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.