Ernest Hemingway e a LGBT


 

À parte do escritor que ele foi, associo Ernest Hemingway ao clichê do homem forte, corajoso, vencedor, dominador e querido por muitas mulheres; um clichê incentivado por ele próprio e mostrado em fotografias que ficaram famosas. Mas era ele assim mesmo, ou já tinha prenúncios feministas? Aceitava já Hemingway, por trás de sua fachada, os homo-e-bissexuais? Pelo menos ele tomou esse tema num dos seus contos de 1931 – Sea Change para o livro Winner Take Nothing (O vencedor não leva nada), (1) um conto curto, entre 5 e 6 páginas, aparentemente não claro, mas bem revelador nas entrelinhas daquilo que ainda era um tabu na época: a bissexualidade. De um homem? Não.

De onde tinha Hemingway experiências nesse campo, ele que passou sua vida acompanhado de mulheres, chegando a casar quatro vezes? De sua própria mãe? De sua primeira esposa? – Como se fala. Em conversas com sua amiga Gertrude Stein, que era lésbica, ele foi nutrido do que é lesbianismo e o que isto significava na época. Por outro lado Hemingway, que cobriu duas guerras como ajudante sanitário e jornalista, tinha muito claro seu interesse nos fatos do presente, nos desafios e ações que movem as pessoas levando-as a perdas e ganhos, encontros e desencontros pela vida. No mais o conto parece ser um exercício de escritura a fim de estabelecer sua marca como autor, pois nele já há claro o rompimento com a estrutura tradicional, enfatizando o diálogo sucinto e dramático que dirige toda a narração; a falta de rodeios; a economia de descrições desnecessárias e a concentração no momento presente com preciso controle de seu desenvolvimento.

Eu que li muitos contos de Anton Tchekhov, e acho que Hemingway também os deve ter lido também, encontrei um paralelo entre os dois, sobressaindo o conto Sea Change do americano. Tanto neste como em Tchekhov não há um final satisfatório nem conclusivo, deixando uma brecha de continuidade que não vem. Assim em Sea Change, ao oposto de Tchekhov em seus contos, não fez Hemingway do seu tema – a bissexualidade – um material de reflexão, apenas o entregou à competência do leitor sem comprometer-se diretamente com ideologias, isso porque o próprio tema está subentendido. Ele não se esforça em analisar seus personagens, nem contar-lhes seus passados, tudo está passando no momento presente guiado pelos diálogos e rasas descrições que nos insinua quem e como os personagens são.

Um rapaz e uma moça, ainda bronzeados do verão, conversam sobre o fim de seu relacionamento à mesa de umbar em Paris. Não sabemos do problema que leva à separação dos dois a não ser sutilmente pelo que eles dizem um ao outro. O rapaz que está contra ao motivo do desenlace, a culpa por isso, e ela para acalmá-lo, tenta fazer com que ele a aceite, assim como ela mesma aceita sua realidade. Após uma breve descrição da moça, o rapaz diz „vou matá-la“, e é aí que sabemos de que se trata de uma mulher na vida dela, um caso amoroso entre as duas e abominado por ele: „Tinha que ser precisamente isso?” “Você não podia ter caído em outra coisa?“ A moça é bissexual, ela ainda quer voltar pra ele, apela pra isso; o rapaz, ao contrário, está metido nos modelos masculinos da época, bem mais fortes e evidentes que hoje – é que nos anos 30 do século passado ainda não havia discussão de gênero e o feminismo apenas apontava levemente. Contudo deixa Hemingway um claro contraste entre os dois quanto à posição de quem está na vanguarda das mudanças sociais: ela, a mulher que defende seu direito de ser o que quer e agir como ela quer. O autor, porém não a destaca em suas prioridades, deixando que o conflito de diferenças entre os dois se estenda em paralelo até que a postura resoluta da moça seja atendida – ela o deixa, mas prometendo voltar.

Assim Hemingway já estaria pincelando o tema para a literatura? Sim e de forma implícita. No fundo dois temas que se correlacionam: a bissexualidade feminina e a questão de gênero. A primeira é denominada e compreendida pelo rapaz como vício e perversão, o que remete à postura da sociedade da época e a incapacidade dele de superar essa crença. Quanto ao gênero, tanto homens como mulheres têm seus papéis moldados e prescritos a modelos que lhes trazem extrema desigualdade. Onde há desigualdades, há diferenças contundentes entre aqueles que são superiores, fortes,mandões, privilegiados e os que não são. No caso, mais as mulheres têm sofrido e até pago com suas próprias vidas por atrozes discriminações. A moça do conto é agente de determinação numa sociedade ainda bem retrógrada, por isso sua fala é mais segura e objetiva, incluindo palavras de conciliação, mas estas não são em detrimento de sua liberdade, e sim como um esforço para ser aceita por ele.

Para mim Hemingway ou deixa o final do conto em aberto para nós leitores refletirmos segundo nossa capacidade, ou ele premeditadamente não quis dar um final claro por não se achar ele mesmo à altura, já que o tema outrora não era tão falado como em nossos dias. Por fim o rapaz consente que a moça se vá e deixa-lhe claro que os dois vão se ver após o caso amoroso ou a aventuradas duas. A partir daí ele se sente aliviado, como um novo homem e até se ver com outra aparência. Ele mudou tanto assim em coisa de minutos? Ele passou a aceitar as diferenças e exigências dela sem constrangimento? Para mim esse final liso e harmônico tanto pode ser uma trampa do autor em não querer se posicionar contrariando a masculinidade que ele tanto exibiu, como uma proposta antevendo que só saindo de convicções falsas, pode-se construir um futuro com mais justiça e igualdade. Para os que vão ler o conto, fica-lhes como entender o final antes e nos nossos dias.

1) Não encontrei o livro de contos Winner Take Nothing de 1931 em português, parece que ele está incluído em várias coletâneas de contos de Hemingway. Também não encontrei tradução em português para o conto Sea Change, eu o li em alemão.

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