O FIM DE EDDY – QUE NÃO FOI UMA TRAGÉDIA



„A dor da gente não sai no jornal“, (1) mas pode sair num livro ou no teatro quando o narrador lírico não se exclui de outros e propõe-se a revelar de si mesmo como liberação e testemunho. Só um olhar objetivo é capaz de reconstruir o que o corpo sentiu de humilhação e medo. E essa dor sofrida pelo outro nos toca se pesarosamente a imaginamos ou se assistimos a representantes dela a reviverem em seus corpos num intento de diluir o real no contado.

O Eddy-Projekt, um trabalho de teatro baseado nos livros autobiográficos O Fim De Eddy de 2014 e Quem Matou Meu Pai de 2018, ambos de Édouard Louis e encenado por atores jovens não profissionais do WABE Berlim, que é um espaço municipal no leste da cidade para realização de eventos culturais. A direção é de Alexander Weise e a música de David Schwarz.

Édouard Bellegueule, aliás Édouard Louis nasceu em 1992 e vivia com sua família no norte da França em condições de pobreza. Sua mãe era dona de casa, seu pai, como tantos outros da localidade, trabalhava numa fábrica e com seu mísero salário mantinha a família. Eddy, como era chamado desde pequeno, sofreu o que é a homofobia. Na escola foi perseguido sobretudo por dois meninos mais velhos que o escarneceram, o golpearam e cuspiram-no, só porque Eddy tinha trejeitos femininos, era frágil, medroso e falava com voz afeminada. Não o podiam aceitar, ele saia dos moldes de como um homem de verdade tinha de ser naquele lugar, e não um maricas, um veado, uma bicha. Estas palavras abjetas referidas a ele o acompanharam pela infância, era o que ele ouvia na escola e no vilarejo. Para sair desse tormento Eddy passou até pelo contrário de sua própria natureza, esforçando-se para corresponder o que esperavam dele. Não foi possível, e teve que seguir sofrendo.

Quatro dos nove atores em círculo recitam devagar o inicio do livro – resumo da via crucis de Eddy, – ele tinha nove anos e era novo na escola. Uma rajada de guitarra como numa abertura de um concerto de rock faz mover a ação, mais cinco atores entram eletrizados, e em frêmito expressam com a voz e o movimento do corpo o ambiente de seu sofrimento. O palco é o espaço do horror e Eddy entra em cena. Vemos e ouvimos sobressaltados uma mistura de vozes, a respiração ofegante de um asmático, uma tentativa de fuga. Era Eddy e seus torturadores, meninos já envoltos em violência – era a crueldade, a inclemência nas mãos de crianças que já começavam no pátio, nas escadas da escola a exercerem poder sobre Eddy. Os jovens atores dão de tudo para reviver nos seus corpos, o que Eddy viveu no seu único corpo, um corpo dolorido, reprimido, ainda sem dono, vivendo dele mesmo. Este – sempre o corpo – tem que encontrar nos atores sua expressão e ressonância, seu suporte e aprovação, e assim as ações deste corpo são variadas e repartidas entre eles, desenhadas em círculos, em passos automatizados, em costas curvadas, ou como um barril que rola e rola até topar-se com o próprio limite. Ou mesmo a inércia do corpo é encenada em corpos.

O grupo de atores forma um coletivo, um coro representando dois lados – todos são o fragmentado e desencontrado Eddy, mas são também seus algozes. As vozes discursivas são multíplices – os pais de Eddy, seus irmãos, seus colegas, seus carrascos e a comunidade – um coletivo de seres que vivem ao seu redor e que falam pelas bocas do coro. Todas as vozes são ainda seus velhos eus traduzidos por esse coro em tons de escárnio por falta até de compaixão: porque esta poderia servir, se não para salvar, pelo menos para aliviar. Mas não, o coro modula suas diversas vozes à mercê do que vem e surpreende o público, fala sem cansar, enfeia o discurso, faz revelações íntimas, e tudo isso em momentos, fatos alternados de ação e reflexão.

Um blogueiro brasileiro disse que o livro O Fim de Eddy está „repleto de gatilhos“ e ele só o recomenda a pessoas fortes psicologicamente. – Os brasileiros e suas obsessões psicológicas – Ele quis dizer que antes de ler o livro é preciso saber do que ele se trata. Os gatilhos são conteúdos sensíveis revelados em cenas de violência, abusos, levando o leitor à aflição. Por outro lado essa aflição, esse desconforto também não seriam uma expressão de indiferença? E esta é o menos que Édouard Louis espera de sua obra, ao contrário, para ele é preciso falar de racismo, homofobia, dominância masculina, abuso de mulheres e crianças e exploração de quem quer que seja, onde e como são produzidos. Também é preciso saber quem é o opressor, ter uma ligação com ele, para poder se livrar dele. Seu livro, menos do que uma confissão, é um depoimento de liberação, sem culpar ninguém, sem vangloriar-se de sua pessoa enfim libertada. Contudo o que levou Eddy à redenção? A vingança? Não. A coragem? Sim, mas não só ela. Entendo mais sua independência como sendo um aparato de disposições, estratégias, oportunidades, sejam quais foram, ditadas pela consciência de que o corpo não podia mais aguentar, pois aquela condição de vida e a dor por humilhações e golpes não podiam ser normalizadas nele como foram interiorizadas e estruturadas na vida de sua mãe, de seu pai, irmã, juntamente com a ira, porque „talvez a ira seja um critério de reconhecimento da verdade“, disse Louis.

A peça é longa, o público continua concentrado, mas também tem que fruir. Quando? Todos sabem que o desfecho é favorável ao autor com a sua saída da casa dos pais, da escola e do vilarejo. Os atores expressam mais ironia e confiança no corpo; a música traz mais estabilidade nos efeitos; o momento não é de autocompaixão, mas sim de liberação. Uma porta é aberta, a saída dos atores é simbólica: o Eddy menino se libera primeiro, enquanto o outro, já em processo de amadurecimento, sai depois. Tudo isso é mostrado na distribuição dos atores: primeiros os mais jovens e depois os adultos.

O que vem a seguir é a reflexão a posteriori, o ajuste de contas consciente com o pai, mas sem vingança e ódio. É a voz única e livre do autor de Quem Matou Meu Pai – Édouard Louis – apresentada em monólogo, mas desta vez por um ator profissional.

(1) da música Notícia de Jornal de Haroldo Barbosa e Luiz Reis. Foi gravada ao vivo por Chico Buarque e Maria Bethânia em1975.

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O CASO DO MENINO HENRY BOREL E OS VALORES BURGUESES ACIMA DE SUA VIDA

O menino Henry Borel sofreu tantas ações violentas contra seu corpinho de apenas quatro anos que não aguentou mais ser socorrido por médicos – chegou morto ao hospital, melhor dizendo: foi levado já morto ao hospital, nos braços de sua mãe, Monique Medeiros da Costa e Silva acompanhada de seu parceiro, um médico e vereador do Rio de Janeiro, Jairo Souza Santos Júnior, conhecido por dr. Jairinho. Não houve dúvidas para a polícia que o menino foi assassinado, restando esclarecer o grau de responsabilidade de cada um dos dois na sua morte.

Falsos depoimentos, mentiras, tentativas de atrapalhar a investigação, tudo isso foi apelado para contradizer a verdade sobre o que realmente eles fizeram com Henry na noite do 7 para o 8 de março deste ano. Segundo li, o dr. Jairinho, usando de seus poderes de político por meio de gente influente, depressa tentou liberar o corpo do menino do hospital na Barra da Tijuca, sem que o cadáver fosse levado ao IML – Instituto de Medicina Legal – para exame e emissão do atestado de óbito de Henry com causa de morte definida. Achava o vereador que o caso iria ficar por isso mesmo? – Grande estupidez sua. Monique pediu falsos testemunhos da babá e da empregada para reafirmar a tese de acidente dos dois na causa da morte do filho e encobrir seu conhecimento dos maus-tratos que recebia o menino do padrasto. Por quê? Para quê? Para que, como um acidente, tudo voltasse ao normal mesmo com Henry morto? Para enfim poder viver a vida de luxo oferecida pelo parceiro sem o incômodo do filho? Ou porque sua escolha de ir viver com o dr. Jairinho foi prioritária, e fazer vista grossa para o terror que havia em casa foi a melhor forma de manter o que tinha alcançado vivendo com um político num condomínio de alto padrão da Barra da Tijuca? O dr. Jairinho é tido como psicopata e como o único agente da violência física causadora da morte de Henry, contudo Monique não fica livre de participação do homicídio, mesmo que ela tenha tomado soníferos sem saber ou por vontade na noite do ocorrido, ela consentiu de certa forma consciente que seu filho fosse vítima de uma barbárie.

Quem é Monique? Quem é essa mulher de Bangu, no Rio de Janeiro, professora, diretora de uma escola, ex-mulher de Leniel Borel, com um filho pequeno, e que em poucos meses faz uma mudança radical em sua vida: separando-se do marido, começando a viver com outro homem, o dr. Jairinho, num bairro de classe média alta e até aumentando seu ordenado por passar a trabalhar no tribunal de contas do município? Ter mais e mais sempre foi seu fraco; sua ganância era clara para seu ex-marido: „Imagino que o que a gente tinha não era bom para ela. A Monique queria muito mais e eu dei carro, dei cartão de crédito. Dei tanta coisa para Monique nessa vida.“ Também seu narcisismo é mostrado nas fotos, nos selfies, „ela sempre aparece na frente, Henry atrás. Eu sempre estava em último plano. Em dez anos de casamento era ela sempre na frente e todo o resto para trás“, disse Leniel Borel. O selfie que ela fez na delegacia no dia do seu primeiro depoimento, exibindo – como a Monalisa – um leve sorriso de satisfação ao ver-se na câmara do celular ojerizou-me, foi a revelação de uma pessoa superficial e centrada não mais que em suas próprias prioridades. Assim como sua ida a um cabeleireiro no dia seguinte ao sepultamento de Henry, sua obsessão por roupas, sua posta em cena me irritaram, nos irritaram a todos nós sabendo que sua concentração narcisista a impedia de defender seu filho, de sentir por ele. É que a falha trágica de Monique foi esse enorme narcisismo carregado de valores burgueses decadentes; e a sua culpa foi ter consentido indiretamente o parceiro cobrar o conforto que lhe dava – pois nada foi de graça e por amor – com agressões físicas no menino, e isto já tinha sido constatado antes de sua morte pela babá e pelo próprio Henry que chorava, não queria viver na casa da mãe e do „tio“, falava que a cabeça lhe doía e das rasteiras que recebia. Havia um clima de violência na casa, mas até ela ser desmascarada e acusada, já foi tarde demais, pois Henry já estava morto.

Henry, segundo o que pude apurar, era um garoto sensível, muito apegado à mãe. Transtornado e nervoso – acho eu – ficou com a mudança do lar, com o novo estilo de vida, a presença de um outro homem na vida de sua mãe, uma nova escola, diversas atividades e as idas e vindas para ficar com o pai. Monique não pôde avaliar isso, como não pôde proteger o menino, ou pelo menos acreditar nele quando contava que o „tio“ o machucava. Do seu laudo de óbito foram constatadas 23 lesões, sendo a laceração do fígado e a hemorragia interna de força incisiva, penetrante. O algoz, como médico, sabia bem onde estava pisando, chutando, dilacerando.

Não posso esquecer o Henry; todos os dias reviso notícias, procuro saber como anda o caso tendo a mãe e seu parceiro acusados de sua morte, mas no fundo há muito mais gente indiretamente responsável, que com suas intervenções precisas e de antemão poderiam ter evitado a tragédia. Aqui incluo o pai, os avós, a empregada temerosa, a irmã do acusado, que o conhece tão bem. Sem embargo, para isso, seria preciso ter coragem, uma coragem ética que abarcasse o valor da vida da criança e fosse além das relações familiares, dos mitos religiosos, da indiferença de todos, porque por trás das aparências todos sabiam que o menino Henry estava sofrendo, e só a babá comunicou isso à mãe e à avó materna, o que ainda não foi suficiente e levado como „mentiras“ de criança, só que criança nessa idade não mente.

Espero que o dr. Jairinho e a Monique assumam o mal que fizeram ao Henry levando-o a perder sua vida tão cedo. Mas não é que eu esteja esperando demais de um psicopata já declarado e de uma mãe extremamente narcisista?

Próximo artigo: 25/5/2021

A GAROTA DO CONTRA

               

A modo de clichê ela é uma garota de aparência comum para o norte da Alemanha: cabelos louros e longos, pele clara de porcelana como uma Barbie, os olhos azuis salientados pelo espesso rímel – uma cara de boneca. Ou uma figura inspirada numa fada num fundo cor de rosa cintilante com estrelas faiscantes; produto perfeito para entrar em cena; uma confecção sob medidas para sustentar a ilusão da confiança de seus seguidores no youtube, onde tem aparecido desde maio de 2019 relutante, pregando o evangelho do negacionismo, aliás uma nova corrente – um micróbio – das teorias conspiratórias, que afirma, entre outras coisas, que as mudanças climáticas não são consequências da ação do homem sobre o planeta, mas sim um processo contínuo e natural aliado a fatores de influências ligados ao planeta, como o sol e as núvens.

Essas explanações são tentativas de subverter resultados de investigações científicas sobre o aquecimento global e as alterações do clima, apresentando outros dados com base em pesquisas de alguns suspeitosos institutos como o Heartland Institute, uma Think Tank americana, para o qual Naomi Seibt trabalha – um de seus financiadores é a indústria de tabaco e petróleo – o EIKE, Instituto Europeu para o Clima e Enérgia na Alemanha – no fundo é mais uma associação. O Brasil e os EUA são exemplos de incluir essas ideias como versão oficial na pauta do meio ambiente. Donald Trump nos seus quatro anos de gestão não participou dos Acordos de Paris; Jair Bolsonaro o seguiu em linha direta.

E é aqui onde entra em cena a nossa Barbie, acima referida, pois ela – que agora tem um nome: Naomi Seibt – é figura importante em divulgar ideias negacionistas apoiadas por políticos, profissionais, jornalistas, empresários de direita e pseudocientistas, alertando a necessidade de pensar para escapar do pensamento imposto e dominante, e dizendo-se inspiradora para aqueles, que por medo, não são capazes de sustentar uma opinião própria, mesmo estando contrários ao mainstreem, (este sendo principalmente a versão oficial do governo alemão que, mesmo devagar, dá alguns passos na proteção do clima.

Naomi Seibt nasceu em Münster, no oeste da Alemanha na região da Vestfália em 2000. Sua mãe é afiliada ao AfD – Alternativa para a Alemanha – um partido bem de direita que tornou-se mais forte estando contra as medidas da chanceler Angela Merkel ao deixar em 2015 refugiados, sobretudo muçulmanos, entrarem no país. Sua frase-argumento para socorrê-los, que bem lembra Barack Obama com o seu Yes, we can, virou contra-argumento da direita, não só de protestos, mas também de atentados.

Pois é, Naomi Seibt pertence a ala dos que negam, ela se vê como realista do clima, ao mesmo tempo que também é vista como a anti-Greta do clima, a post girl da direita: a crise climática mostrada pela imprensa não é justa, é fake, é produto de falsos dados científicos exagerados para fomentar o pânico e o controle sobre as pessoas, diz. Sem referir-se diretamente a Greta Thunberg, faz sua pergunta de choque: How dare You? – Como ousa? A tônica do discurso de Naomi Seibt ressalta o intento de contrariar o que Thunberg vem afirmando, ela a contradiz, o seu modelo de projeto não parece mais do que uma forte oposição à jovem ativista sueca, é como uma forma de apagá-la, e isso é tudo. Um novo produto lançado faz o negócio florescer se ele aparece com outra cara, em relação aos outros já existentes. Naomi Seibt ganha com isso, ela se reveste do raciocínio de Greta para contradizê-la: I want you to panic; Naomi objeta: I do not you to panic, I want you to think – sobrepondo o racionalismo ao suposto romantismo atribuído a Greta.

Também na aparência elas são bem diferentes. Enquanto Thunberg mostra modéstia no vestir e no arrumar o cabelo com uma trança comprida, Naomi Seibt apela para a sua imagem: em alguns de seus vídeos parece mais uma adolescente interessada em make up e xuxinhas para o cabelo – é claro que ela quer aparecer como qualquer mocinha de sua idade, e isto também faz parte do projeto. Ao ser chamada de a irmã de Beate Zschaepe, – uma dos culpados, envolvida nos assassinatos neonazistas de nove homens de origens não alemã entre 2000 e 2006 na Alemanha, – não se sentiu ferida: „é que as pessoas não me conhecem“, ou seja, se as pessoas se dirigissem a ela, isso não passaria de um engano? Por outro lado insiste em ser perseguida pelas mídias sociais e o quanto falsas declarações e comentários negativos sobre ela a tocam – até lágrimas aparecem – mas claro ela não se deixa aterrorizar por isso. Também a acusam de estimular a polarização do país; seus vídeos são endereçados aos que pensam, ou a aqueles que um dia vão pensar, como ela: „Oi, vocês que pensam diferente! Depende de nós romper o silêncio.“

Romper o silêncio é uma alusão à teoria de Elisabeth Noelle-Neumann – ela trabalhou para o governo fascista de Adolf Hitler – exposta no seu livro A Espiral do Silêncio, na qual a opinião pública e o controle social estão relacionados. Uma vez que o que forma aquela, é o que compõe a sociedade, ou seja, sistema de valores, costumes, tradições – o transmitido e o aprendido – eles desempenham também o papel de um „temido“ controle social na formação das opiniões. Assim as opiniões se espalham e divergem-se, mas o medo faz as pessoas se calarem, se suas opiniões não condizem com as demais. Noelle-Neumann acha até, que opiniões são formadas por observações no convívio entre as pessoas para que elas não se sintam excluídas. O que faz romper a espiral do silêncio é quando pessoas, ditas de vanguarda, agem, saindo do isolamento e da submissão e passam „de forma pioneira“ a fazer mudanças nos contextos de opinião – a opinião pública ganha assim um caráter dinâmico.

Não é para isso que trabalham Naomi Seibt e todos os grupos de negacionistas e partidários das teorias de conspiração com o fim de apoderarem-se de forma sistemática e exclusiva ainda mais de meios que acatem seus interesses? Como medidas políticas de proteção ao clima. É que a faca corta dos dois lados, e uma espiral sobe e desce. O que eles pensam do mainstream como a expressão da histeria, do medo de que os jovens não terão um futuro promissor; eu, que não faço parte do manistream, vejo por outro lado, esse grande número de pessoas que também se referem ao coronavírus como uma gripezinha e acham que a última eleição americana foi uma fraude – como simplesmente medrosos. Há, porém, por trás deles um aparato, um corpo bem construído de interesses financeiros e políticos que não querem perder suas posições de privilegiados em nome de quaisquer que sejam as mudanças sociais que os contrariem. Mesmo assim e apesar de pressões e perseguições as mulheres avançam em seus propósitos de autodeterminação; os negros mostram que resistem e lutam por um lugar digno na sociedade; a comunidade LGBT+… vem ganhando espaços e cientistas de verdade revelam-nos as drásticas condições da terra – são alguns exemplos. Também historiadores afirmam que nós humanos temos alcançado hoje um nível de civilização nunca existido antes – mesmo assim essa notícia não me tranquiliza.

Naomi Seibt com seu QI elevado, seu currículo brilhante, seu inglês impecável, seu talento musical e poético – ela toca harpa e escreve poemas – me deixa inquieta. Como uma menina tão dotada e educada com privilégios que eu não tive, encontra na visão negacionista de fatos tão evidentes seu próprio modo de se afirmar? Ela não só nega dados negativos e comprováveis do meio ambiente, como é contra a política de imigração; chama atenção para o perigo de uma ditadura socialista; é contra a política de cotas para as mulheres, ao mesmo tempo que critica o feminismo; não se diz de direita nem contra o semitismo, mas é simpatizante de um partido alemão muito de direita, o AfD e contribui para ele; se denomina libertária; e quanto ao aborto legalizado, diz que políticas que controlam a natalidade por medo do excesso de nascimentos não são boas. A lista de contras dessa garota parece um pacote feito de antemão e enviado ao destinador, que ao abri-lo encontra nele as instruções de uso do produto. Tenho raiva dessa garota, mas não quero feri-la com palavras – se bem que podia. Quando vejo suas fotos ou assisto a seus vídeos, não sei se seu posicionamento frente à vida mesma é de sua natureza convicta, ou se ela é uma oportunista. Naomi Seibt só tem vinte anos e por pouco li que por enquanto tem planos de ir estudar nos Estados Unidos no próximo ano. Vá com Deus garota.

Próximo post: 19/1/21

Quando a inocência não convence – uma lembrança a Meredith Kercher que não merecia ter morrido tão cedo

           

Amanda Knox, uma jovem americana, estudante de italiano na universidade, tinha 20 anos quando ficou conhecida na mídia, sobretudo a sensacionalista, pela morte de sua companheira de casa, a jovem inglesa e também estudante Meredith Kercher, brutalmente assassinada na noite do primeiro ao dois de novembro de 2007 na cidade italiana de Perugia. Até hoje não há precisão da data, mas é fato que Amanda Knox foi acusada por ter participado do crime juntamente com seu namorado, Raffaelle Sollecito, de 23 anos.

O caso Meredith kercher virou sensação na mídia internacional, mas todos estavam assombrados com Amanda Knox, a moça de aparência singela, mas de olhar frio, sem expressão de compaixão. Esta também foi minha impressão na época desde a primeira vez que vi sua foto – tive medo de seu olhar estancado, ela pareceu-me arrogante e superficial: li que Amanda gostava de estar no centro das atenções como querendo fazer da situação um show para a televisão. Se certo isso, talvez só no início, quando ela ainda não avaliava bem a fundura do poço onde tinha se metido. Depois comecei a ver fotos de Amanda chorando, parecendo mais uma menina desconsolada sem o brinquedo que lhe haviam tirado. Até hoje me pergunto por que Amanda Knox não constituiu um advogado, nem passou por um detentor de mentiras. O primeiro a teria defendido nos interrogatórios, e o segundo teria ajudado a fechar o caso mais objetivamente.

Os muitos artigos que apareceram após sua absolvição final, defendem-na em absoluto enquanto a veem sozinha na Itália e vítima da inescrupulosa e ineficiente polícia italiana – só que todos têm direito a um advogado, não? E onde estava então a família de Amanda? Ela própria afirmou que foi maltratada fisicamente – uma policial lhe bateu na nuca – além dos incansáveis interrogatórios que a deixaram esgotada – uma tortura psíquica para acabar com a sua amnésia: Os políciais de Perugia achavam que Amanda sabia quem era o assassino de Meredith Kercher e alegavam que ela tinha estado presente no momento do crime. Foi nessa fase do inquérito que Amanda Knox se comprometeu com suas próprias palavras: como em transe, perturbada por pensamentos, lembranças e imagens, ela disse que ouviu gritos, acusou seu chefe, Patrick Lumumba, o dono do bar Le Chic, onde ela dava umas horas de garçonete; e confundindo a realidade com sonho, não sabia mais o que dizer, passando a responder as perguntas com constantes „não sei“. O objetivo dos interrogatórios é arrancar a verdade, a confissão da boca do acusado, por isso e para isso existem métodos ilícitos também, nos quais policiais fazem concordatas, negociam com malfeitores por falsos testemunhos, forçam a confissão custe o que custar. O extremo desses procedimentos é abjeto e desonesto, e Amanda Knox sente-se vítima deles por ter sido levada a fazer declarações indevidas – é a sua bandeira – a de vítima de métodos injustos, e não a de ter sido culpada pela polícia de Perugia da morte de Meredith Kercher.

De 2009 a 2015 Amanda Knox e seu então namorado, Raffaele Sollecito foram julgados quatro vezes até chegarem à ultima instância onde foram absolvidos:

– A primeira condenação foi de 26 anos por indícios de culpa no crime;
– em 2011 um tribunal de apelação lhes concedeu liberdade, pois o veredicto contra eles „não estava apoiado em nenhuma evidência objetiva“, e Amanda volta para os Estados Unidos;
– em 2013 a corte suprema lhes retira a absolvição e determina um terceiro processo;
– em 2014 o julgamento termina por culpar os dois e aumenta a pena de Amanda para 28 anos e seis meses;
– em 2015 Amanda Knox e Raffaelle Sollecito finalmente foram declarados inocentes.

Que surpreendente e raro foi este resultado final. É a prova de que o trabalho policial tinha fracassado por não ter apresentado provas limpas que garantissem os resultados dos testes de DNA. Isso faz-me lembrar o caso da menina Madeleine McCann, sequestrada no sul de Portugal, na Praia da Luz também em 2007, e também aí a polícia portuguesa fracassou, perdendo-se em investigações que não conduziram a nada, e até hoje a criança não foi encontrada, e nem seu sequestrador. Entretanto Amanda Knox recebeu 18 mil euros como recompensa pelos desastrosos processos, e Rudy Guede, o terceiro envolvido no crime de Meredith Kercher, foi o único acusado como autor absoluto do homicídio porque seu esperma foi encontrado no corpo da jovem. Apesar disso a verdade não apareceu como triunfante; a inocência de Amanda e Sollecito não pareceu convencer, e eu não deixei de me interessar pelo caso, porque o intuo incompleto e impreciso – é que para mim e para muitos a história ainda não foi contada de verdade.

Amanda Knox voltou à Italia no ano passado para participar de um encontro – o Festival della Giustizia Penale – em Modena, e voltou a ser o foco das atenções da imprensa em geral que tentava captar em minúcias seus gestos. Ela apareceu incômoda em frente à mídia e tanto foi estrela como criticada. Esse evento foi organizado pela faculdade de direito local e o renomado projeto americano Innocence Project da Itália. Este projeto – Non-Profit – atua desde 1992 em favor de encarcerados por erros judiciais, e é conhecido por já ter salvado pessoas de prisão perpétua ou pena de morte. Sem Amanda Knox nesse encontro, este estaria reduzido a um pequeno público. Elena Ranzini, do comitê de organização explicou que Amanda “é um símbolo de um processo feito pela mídia de massa.” Eu assisti por vídeo a sua apresentação: lá estava Amanda Knox sentada imóvel, as mãos bem arrumadas – parecendo mais uma membra de uma família real – de frente para o público, mas sem encará-lo, apenas absorta todo o tempo no apresentador enquanto ele fazia a sua introdução. Quando começou a falar teve que se interromper pelo choro. Armada de um lenço, perguntei-me por quem chorava Amanda? Pela tragédia passada ou por ela mesma? No fundo a vítima foi Meredith Kercher que perdeu a vida, e sua família a perdeu, enquanto Amanda depois de ser aplaudida pôde recomeçar seu discurso. Falou em italiano, com voz áspera e trêmula que a dramatizou como num perfeito cenário italiano, e para mim mais grotesco que comovente de verdade. Por que ela não me sensibilizou? É que Amanda só falou dela mesma e de todas as injustiças que passou e ainda passa; de Meredith, sua única menção a ela foi para defender-se de que só com a sua presença na Itália, ela estava traumatizando a família Kercher e profanando a memória de Meredith. “Estas pessoas estão erradas. Há pessoas que gostam dessa estória, que sou psicopata, Foxy-Knoxy.” – Nada mais. A família Kercher já disse que não permitiria a visita de Amanda à tumba de Meredith – tem razão. Para quê? Para promover mais a sua própria versão usando a memória de Meredith? – Isso pareceria mais uma conveniência para o ego do que respeito mesmo.

Por outro lado seria demais esperar de Amanda que ela tivesse feito lá em Modena um paralelo entre dois destinos: o dela – marcado por um passado que a persegue, mas mesmo assim ela segue jovem e com vida; e o de Meredith, que por intenções e atos assassinos perdeu muito jovem a sua vida? Acho que sim, e é neste ponto que ela me decepciona, não me convence de sua inocência total e não me dá chance de ser compassiva.

Amanda Knox amadureceu desde que saiu da prisão em 2011; ela continuou os estudos, escreveu livros, entrou para trabalhar num jornal, casou e goza de sua liberdade. Contudo sua absolvição não a salvou: „ O mundo decidiu que eu sou culpada, e assim ficou“; o passado é a sua pesada cruz carregada como um carma quando é perguntada se foi ela quem matou Meredith: „ É que me desagrada sempre ter que repetir isso como se toda vez que sou perguntada, a minha resposta não vale“. – Se a ela desagrada ter sempre que dar respostas e explicações, não devia esquecer que a tragédia da família de Meredith é ter a sua morte sempre na lembrança.

A inocência não é algo concreto, é o estado da pessoa sem culpa de algo cometido anteriormente; por isso a inocência deve ser provada tanto pela pessoa já acusada, como pelos que a defendem. E assim começa o grande teatro dos julgamentos, como um palco estruturado e encenado por diversas partes, cada uma com o seu papel. Eu acho que Amanda Knox foi absolvida mais por inocência presumida que por falta de evidências nas provas. Segundo Renato Brasileiro de Lima no Manual de Processo Penal „ Não havendo certeza, mas dúvida sobre os fatos em discussão em juízo, inegavelmente é preferível a absolvição de um culpado à condenação de um inocente, pois em juízo de ponderação, o primeiro erro acaba sendo menos grave que o segundo.“ Isto é o que se chama de O Princípio da Presunção de Inocência, adequando-se muito bem ao seu caso.

Amanda fez uma introdução para o documentário sobre ela e o caso Meredith no Netflix – não gostei nada. É sempre a mesma posição dela implacável de defesa: ou se acredita nela ou não, pois não há nada entre as duas coisas; sendo culpada, seria ela a pessoa mais atemorizante que existe, justamente porque ela não caberia nos esquemas; mas sendo inocente, significa que isso poderia passar com qualquer pessoa, e por isso as pessoas sentem medo. E concluindo diz que ela ou é uma psicopata disfarçada, ou ela é nós; ou seja, qualquer um de nós. Pergunto-me se isso poderia realmente passar com qualquer um de nós, pois soa até como uma ameaça.

No fundo eu acho que Amanda Knox teve muita sorte por não ter perdido sua juventude na prisão em comparação com Meredith Kercher que perdeu sua vida. Contudo sua inocência no crime não a salvou, pois sua culpa não foi provada por meio de „evidências objetivas“ e portanto ainda a persegue; e como eu já disse, a história do assassinato de Meredith Kercher deve ser recontada, e quem sabe vamos conhecer ainda a verdade.

Próximo texto: 8/12/20

O QUE NOS SALVARÁ? UM NOVO HUMANISMO?

 

Queria ter escrito sobre outro assunto, até tinha me preparado para isso, mas com a ainda disseminação do coronavírus matando pessoas pelo mundo inteiro, dei-me conta de que meu assunto atrás era insignificante, nesse momento, e senti-me até como egoísta e traidora da realidade se não me debruçasse mais uma vez nos fatos que continuavam na ordem dos dias; e naquilo que pensava escrever, ficaria para depois – e assim vai ficar.

Pepe Escobar, o conhecido analista geopolítico brasileiro ao ser entrevistado recentemente por Leonardo Attuch, editor da web 247-Brasil, falou sobre o que poderia nos salvar frente às mudanças, que com certeza passarão, pelas consequências desastrosas que a pandemia deixará no mundo – o que me fez pensar: ou não vão haver mudanças visíveis? Seguirá a máquina do capitalismo como nunca vista antes de vento em popa? Será o tempo de uma desenfreada reposição do capital, custe o que custar? Contudo uma coisa é certa: a economia neoliberal implantada por grandes países – principalmente ocidentais – revelou que o modelo de sobrecarga de capital entrou em dificuldades. Um tapa na cara do capitalismo industrial que se viu forçado a sair de seus moldes de produção e acumulação em favor de necessidades extras? Seria então a chance para os grandes capitalistas, os donos das riquezas do mundo tornarem-se um pouquinho mais socialistas. Aqui não me refiro às famosas doações de pelo menos um por cento de suas fortunas às vítimas da pandemia. Não. Mas já um abrangente olhar atento às suas injustas arbitrariedades, ou um leve prenúncio de mudanças em favor dos injustiçados – para não dizer claramente: é hora de pensar numa outra ordem econômica mundial, e não mais aquela errônea forma de distribuição de capital. É hora de admitir que a sua avidez é responsável pela exploração física e psíquica de homens, mulheres, crianças de todas as idades, no mundo todo. Estou sendo utópica? Não gosto desta palavra, soa-me mais que uma irrealidade, uma impossibilidade. Prefiro crer que estou sendo humanista – uma nova humanista.

Sopa de Wuhan, assim se chama uma coletânea de artigos de publicação independente e online sobre o que pensam diversos intelectuais, filósofos, analistas políticos como Slavoj Zizek, Byung-Chul Han, Giorgio Agamben, Judith Butler, David Harvey, Paul B. Preciado e outros sobre a crise atual do coronavírus. Slavoj Zizek – filósofo esloveno – referiu-se a esse momento como uma abertura de vias ao surgimento de uma nova versão do comunismo. Pepe Escobar, que tinha recomendado essas leituras, disse que ele errou – também acho, apesar de entendê-lo. Mais crítico com Zizek foi Byung-Chul Han, filósofo coreano-alemão, residente e professor universitário em Berlim disse: Não é que o vírus foi como um tapa no capitalismo, evocando já um comunismo, e que o vírus até poderia provocar uma queda no regime chinês. Nada disso vai acontecer e Zizek está enganado, escreveu Byung-Chul Han. Compreendo Zizek, sua profunda veia marxista o leva a sonhar, apesar de que ele tenha apresentado dados concretos como as medidas emergenciais de governantes, ajuda financeira, produção de implementos hospitalários, como também o ter-se dado conta da necessidade de um sistema de saúde eficaz e global, – mas será que essas medidas vão continuar mesmo depois de passada a pandemia?

Eu já me perguntei muitas vezes de onde teria vindo esse coronavírus capaz de mutações. Não o faço mais; dou-me conta porém, do quanto ele passa ileso de ter sido um castigo de Deus. O vírus HIV ou HIV que causou o síndrome da AIDS, aparecido na década de 80 do século passado, pelo contrário foi também, para os fanáticos religiosos, uma punição do Divino a aqueles que praticavam aberrações sexuais de natureza sobretudo homossexuais e vícios com drogas. À sífilis dos séculos XVI ao XX também foram atribuídas causas por procedimentos indecentes e indecorosos, principalmente as práticas de relações sexuais fora do matrimônio, a procura de prostitutas de rua e as visitas exacerbadas aos prostíbulos, apesar de que as locomoções de soldados durante as guerras, as condições sanitárias e de higiene e mais a falta de um medicamento eficaz foram o que disseminou a sífilis na época. Mas agora desta vez não fizemos nada de errado para ser castigados por Deus? Talvez tenhamos desenvolvido tantas tecnologias cibernéticas de controle e de inteligência artificial capazes até de nos substituir, e acessado tanto de forma digital informações que merecemos ser vigiados como punição?

Paul B. Preciado, um filósofo espanhol, transgênero diz, com base em Miichel Focault, que as epidemias são formas de materializar nos corpos dos indivíduos as obsessões que dominam a gestão política da vida e da morte das populações num período determinado. Eu entendo que as epidemias tornam visíveis em cada corpo que tipos de preocupação e empreendimento geram as políticas de vida e de morte de uma população num certo período. Assim segundo Preciado, a sífilis de então materializou nos corpos de cada um as formas de repressão e exclusão social que dominavam na política patriarcal e colonial da época – as obsessões pela pureza racial, e a proibição das chamadas uniões mistas, entre pessoas de raças e classes sociais distintas; e as restrições que pesavam sobre as relações sexuais.

Então, como entender, a partir da pandemia do coronavírus que ora passamos, as medidas que nos impõem para seguir durante essa crise? Como entender as contradições dessas medidas com base numa visão histórica e crítica política? Se por um lado sabemos que se os governantes nos mandam voltar às ruas, ao trabalho, à „vida normal“, isto leva a correr risco de infecção e até morrer, contudo o mercado não pára e os homens voltam a ser máquinas subordinados à produção. Por outro lado os dirigentes da saúde pública nos aconselham a permanecer em casa, nos obrigam ao isolamento em detrimento da maioria dos meios de produção e de consumo – é uma situação paradoxal, a qual nos enfrentamos, e o que nos ajudam são só os fatos de ambos os lados. Mesmo assim sabemos que a imunidade não vem do fechamento das fronteiras, nem de distâncias. Esta vem, como bem diz Preciado, de uma nova compreensão do que é comunidade; de um novo equilíbrio entre todos os seres vivos – ele atualiza as palavras „seres vivos“e
sai do político nacionalista e de identidades; evoca um parlamento, mas um parlamento planetário, de corpos vivos, que vivem no planeta terra, e não em países individuais.

Para um futuro mais humanista está em jogo sermos contra ao estado de exceção e vigilância, sermos contra ao implante de nanochips em corpos humanos e sermos contra ao capitalismo destrutivo que só destrui o nosso planeta terra. Assim poderemos enfrentar melhor as epidemias, que com certeza, ainda virão.

AMAR É … CASAR É …

 

„É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.“

Mais explícita não podia ter sido Jane Austen ao começar seu romance Orgulho e Preconceito, publicado em 1813 na Inglaterra. O tema é óbvio para a sociedade da época, quando rapazes e moças – sobretudo das classes média e alta – se buscavam mutuamente também pretendendo  fazer do casamento um assunto vantajoso: elas se empenhavam em encontrar aqueles que lhes garantiria uma vida cômoda, retribuindo-lhes com um relacionamento invejável e uma família exemplar; e eles, sabedores de suas vantagens no assunto de casamento, podiam escolher, entre outros requisitos, aquelas com mais atributos de beleza. E o amor não contava além da segurança material e do laço conjugal? Claro. Os jovens também sonhavam com a paixão, com o amor e o afeto e desejavam que tudo isso viesse a juntar-se com o inevitável plano da segurança econômica e social. Jane Austen escreveu e reescreveu Orgulho e Preconceito por ter sido o primeiro manuscrito recusado em 1897; ao publicá-lo ela se absteve de sua própria identidade, mas também não deu ao seu livro um pseudônimo masculino, limitando-se com a autoria de By A Lady – Por Uma Dama. Jane Austen faleceu em 1817 e não foi a única a não revelar seu nome verdadeiro como escritora; um ano antes de sua morte nascia Charlotte Brontë; em 1818 e 1820 suas irmãs Emily e Anne – as famosas irmãs Brontë – que tiveram de recorrer a um pseudônimo masculino para serem publicadas. Outra, como a francesa Aurore Lucile Dupin nunca foi conhecida como escritora, ensaísta e crítica da sociedade da época, mas sim como George Sand que também se trajava de homem em público – fosse talvez isso mais cômodo?

No século XVIII mulheres escreviam sobretudo cartas, enveredavam em longas correspondências – onde a alma e os sentimentos protagonizavam – e faziam-se também de homens nas respostas. Havia já uma relativa produção escrita justificada por uma tal ociosidade das mulheres por permanecerem mais tempo em casa que os homens; também neste século incrementava-se a produção de objetos manufaturados e vendidos para diminuir os esforços de trabalhos caseiros como costurar, tecer, cozinhar, fazer pão e até sabão. O século seguinte assentou o romance de amor como a ficção de intrigas, dramas, sucessos e insucessos que envolviam um tema tão requisitado por mulheres – o amor – e havia mais vida interior que social – era como se só mulheres pudessem escrever sobre o que interessavam a mulheres. Como sorte ou azar a cultura de ler exercida por mulheres começa aí e ainda persiste no modelo deste tipo de romance: há muito mais escritoras de estórias de amor e sagas de famílias que escritores, e muito mais mulheres que homens que leem estes livros. Por quê? É a sensibilidade feminina como se esta fosse biológica? Claro que não. Isso tem que ver com o que as mulheres adquiriram na vida durante séculos: confinadas em ideologias discriminatórias e reduzidas a papeis pré-estabelecidos, as mulheres participavam menos das decisões sociais, alinhando-se ao que lhes restava como competência – os assuntos do casamento, do amor, da família.

Como quantidade não tem que ver com qualidade Jane Austen assistiu à virada do século dezoito para o dezenove com apenas 25 anos de idade, e a sua genialidade foi ter saído do esquema formal da época e de ter dado ao seu romance, sobretudo, Orgulho e Preconceito a qualidade de ter sido perspicaz ao tratar de um tema tão corrente na época como o de casar, mas com quem? Também o de ter mostrado o comportamento das personagens – às vezes ironicamente, outras as pondo à luz do orgulho ostensivo e da insolência – de ter posto em questão o que se acreditava como verdade, e de ter apresentado soluções para problemas que só desuniam os dois enamorados. Jane Austen deu a seu romance de amor muito mais que intrigas e fatos passados; sua lucidez com o presente é grandiosa para acertar na reflexão como indispensável antecessora de decisões; e mais, ela desmistificou a primeira impressão, o amor à primeira vista como provas de certificação do amor duradouro; enfim, não é o amor que tudo salva, mas o que precisa ser salvado.

Jane Austen é lida até hoje, seus quatro mais importantes romances – Senso e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Emma, Persuasão e Mansfield Park – já foram traduzidos em muitas línguas e filmados várias vezes; é a prova de que eles ainda alcançam necessidades literárias, sejam pela forma ou pelos temas tratados, quando lidos e contemplados hoje na mocidade do século XXI, nos dá a satisfação de termos superado esse tempo, no qual o casamento era sem dúvidas o meio de sobrevivência para a mulher deixar a casa dos pais e ganhar uma suposta falsa liberdade que só consistia em substituir o dono da casa: antes era o pai, depois o marido. Mas será que superamos mesmo esse tempo? Não é ainda hoje o casamento menos que um laço de amor, um contrato vantajoso para ele, para ela, para os dois, para os filhos, para a casa própria, para a aposentadoria, para os impostos? São inúmeros os proveitos que o casamento oferece, e ainda assim queremos justificá-lo com o amor, como se este tivesse o selo de existir recebido daquele até que a morte o desfaça. Este selo é real, ele é a certidão de casamento, e apesar de ele poder ser desfeito dando lugar a outro casamento ou não, queremos que só o amor nos una de verdade. Jane Austen sabia de tudo isso, e mostrou que é melhor salvar o amor do que esperar que este salve as complicações do casamento. Fica aqui a velha receita vinda do século passado.

 

Próxima postagem: 17/12/19