CRISES DA VIDA PODEM NOS LEVAR LONGE

    

Se não fosse uma forte crise existencial que tive com pouco mais de trinta anos, eu não estaria hoje onde estou vivendo: longe do meu país de nascimento e longe do país que me acolheu quando deixei o Brasil.

Todos nós passamos por crises, sem que por isso estejamos enfermos; eu já passei por algumas de diferentes intensidades – elas também nos ajudam a sair da estagnação de onde nos encontrávamos, por isso precisam as crises de soluções, saídas que deem um rumo diferente a nossa vida daquele que era antes. Aprendi a entender minhas crises como um estado doloroso continuado até um certo ponto, onde eu pude enfim intervir com algo relevante – uma tomada de decisão, ou ter encontrado uma solução para o conflito que me afligia. Realmente se pode representar uma crise com uma linha vertical subindo até um ponto máximo e depois acontecer um declínio. Estudiosos chamam esse momento perigoso de clímax ou inflexão e é aí quando é preciso fazer algo positivo para que essa queda não gere uma catástrofe, ou uma depressão onde a tal linha representativa é para baixo necessitando de uma estabilidade no estado psíquico do paciente. Há muitas alusões às crises: estados psíquicos de liberação de energias, como um orgasmo, e físicos como a luta do sistema de defesas do organismo para vencer uma febre ou a fase crítica de uma infecção, antes do aparecimento dos antibióticos, por exemplo – eram os dias de decisão, dizia Hipócrates, médico da antiga Grécia.

Quando minha mãe faleceu, e eu não me encontrava a seu lado, esta foi a causa da crise mias forte que vivi. O fato de não ter vivenciado sua morte e minha consequente falta no seu enterro, me rendeu uns anos de desconsolo e depressão. Com ajuda de profissionais e boas leituras hoje sinto-me forte para reagir às lembranças, mas sei que a dor pela minha ausência e sua perda, a levarei para a tumba. A perda de um ente querido; a perda de uma base existencial, que é um trabalho, a perda de um lar, de uma moradia, ou acontecimentos repentinos, como uma doença grave, um acidente ou uma catástrofe são as causas mais extremas que levam a crises intensas.

Como uma crise não é uma depressão, mas pode conduzir a esta, podemos usar nossas forças para suplantá-la, antes que entremos num colapso, mas se elas não são suficientes – e muitas vezes não são – a ajuda de outros é imprescindível. Outra forte crise que passei foi ter perdido um emprego quando vivia fora do Brasil. Com ela tive de aprender novas habilidades para sobreviver, conheci mais o país e pessoas, fiz ioga, desenvolvi-me intelectualmente – me virei – e reconheci que o fato de ter perdido um trabalho, não foi tão mau assim, bem mais uma chance de requisitar minhas capacidades. Na sabedoria popular não é à toa dizer que uma crise é como uma porta que se abre, enquanto outra se fecha – sim, abre-se para algo que ainda não está presente, mas que procede no processo de sair por ela, pois crise tem que ver com distanciamento, separação.

Tanto obstáculos que se interpõem à realização de nossos objetivos, podem gerar uma crise por não sabermos como lidar com eles, como a quebra da rotina do dia a dia. Isso é muito comum em situações de visitas entre familiares ou amigos, quando saímos do que é repetição em casa quanto aos afazeres, aos horários, aos modos peculiares e bem determinados. O afastamento de tais práticas conhecidas pode nos trazer conflitos conosco mesmas, e uma vez já metidas neles, não é fácil usar o momento para alargar nossa percepção e questionar nossos valores.

Apesar de ainda não ter visto o filme ganhador dos últimos Oscars, Nomadland, sei que sua estória apresenta uma situação de crise por perdas intensamente marcantes a priori. Fern – que em alemão significa longe, distante, e não acho que seja um acaso – é o nome da protagonista do filme, que ao perder o marido e trabalho, encontra como saída, para garantir sua subsistência, vender seus pertences, comprar uma van e sair on the road como uma nômade em busca de trabalho. Ela, como principiante, se depara com pessoas que por razão da crise imobiliária americana de 2008 perderam o que tinham e vivem agora de empregos periódicos em diversas partes do país. São pessoas – a maioria é de idosos – experientes e estruturadas para esse tipo de vida e que ajudam a inexperiente Fern em detalhes fundamentais para sua sobrevivência na estrada. A diretora do filme, Chloé Zhao, incluiu pessoas reais no elenco – com exceção de uma – mostrando depoimentos verdadeiros, gestos autênticos e lugares originais.

Viver como nômade é o oposto de uma vida sedentária assentada numa residência fixa. Não é nem infundada, nem gratuita a decisão de partir para esse estilo de vida, sequer garante satisfação diária; também não é uma aventura sem precedentes e sem destino em busca de infinita liberdade. Eles não são nem aqueles turistas de mochilas nas costas ou viajantes de vans que mesmo indo de um lugar a outro sempre precisam de uma estrutura já organizada que satisfaça suas necessidades. Essas estruturas em geral não são benéficas ao meio ambiente, pois tendem a crescer para favorecer mais à indústria turística. Não. Ser nômade é deslocar-se de um lugar a outro tendo em vista a subsistência como base de um assentamento temporário, e aí explorar suas condições e formar um modo de viver. Por princípio o nomadismo age conforme ao meio ambiente e consiste em sustentar os recursos, e não degradá-los como faz o turismo. Assim também era na pré-história, como também na época das grandes caravanas e das longas transladações aviadas por necessidade de alimentos, por irregularidades climáticas, catástrofes naturais e até perseguições. Pessoas ou grupos humanos têm seus motivos, suas crises de vida que lhes fizeram nômades; eles têm sempre o que contar nas suas paradas e oferecer ou receber ajuda. Daí a importância do sentido de comunidade, de união, nem que seja por pouco tempo, mas sempre com a certeza de que se encontrarão em outro lugar.

Os tempos modernos com a industrialização diminuíram as ondas nômades, já que nada é mais sedentário do que trabalhar em fábricas. Hoje empresas de porte espalhadas em todos os cantos, tiram proveito dessa gente, dando-lhes trabalho temporários e nem sempre pagando-lhes à altura. E Fern, a nossa protagonista citada acima, segundo li, também participa dessa via neoliberalista por necessidade de dinheiro e, talvez, por gostar de trabalhar, adquirir experiência, mas não para se acomodar, para isso Fern está muito longe. Ela quer seguir, continuar na estrada e, quem sabe, reencontrar seus companheiros de missão.

Esse filme Nomadland que só vi trailers, deu-me interesse em ler e refletir sobre o nomadismo e sua resistência em continuar nos humanos como uma ação eficiente de desenvolvimento sustentável. A vida sedentária exige mais construções e com elas a necessidade de todos tipos de equipamentos, desde móveis e outras coisas necessárias, mas também coisas supérfluas que não cabem mais dentro de uma comodidade modesta. Li muito mais do que expus aqui – é sempre assim – como também sobre o que é uma crise emocional e como se manifesta, apesar de que minhas experiências com elas já seriam suficientes.

Próxima postagem: 17/6/2021